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POESIA BRASILEIRA
Visões do feminino Três poetas descosturam o discurso enrijecido da atualidade: Paula Glenadel, Annita Costa Malufe e Angélica Freitas Não é fácil fazer um mapeamento da poesia contemporânea. As linhas em campo são várias, e o olhar de dentro prejudica um pouco uma visão mais clara, mais objetiva. Muitos são os nomes. Muitos os poetas e os versos. Talvez seja possível captar um espírito de época no bojo desses tantos poemas. De forma geral –com os riscos de generalização– percebo que há um desejo, ainda pulsante, de fazer da poesia uma barricada, um espaço de resistência contra a crueldade ou a barbárie em que vivemos hoje em dia. Neste caso, mesmo achando particularmente que esta barricada é sempre frágil, sempre passível de ser destruída com um sopro de lobo mau, reconheço que a intenção dos poetas deve ser observada de perto. Quando digo que essa barricada é frágil, parto do pressuposto que toda resistência, hoje, se torna frágil, tal a força do mundo em que vivemos, tal a força do cinismo e do descaramento que nos cerca e que parece entrar no fluxo dos dias como coisa natural, incorporada. Já não nos espanta as atrocidades vividas aqui ou ali. Tudo entra no fluxo rapidamente. E resistir também entra no fluxo, num jogo complexo, pois os instrumentos da resistência são dados pela mesma ideologia criada e espalhada pela indústria cultural. Se uso esses termos, nada poéticos, é porque esses são os termos de nossa época. Porém, alguns poetas conseguem entrar neste miolo, no bojo do contemporâneo, e lá de dentro, da vida de agora, retirar o seu poema, forçando a ambiguidade, buscando-a inclusive no discurso que circula no chão comum. Recentemente, lendo “Entremilênios”, obra póstuma do poeta Haroldo de Campos, essa questão como que se infiltrou na minha leitura. Havia, naqueles poemas, uma força da metáfora, das palavras mais raras em contraste com as palavras comuns, mas, antes de tudo, um tom heróico dado aos poemas. Uma espécie de heroísmo utópico, não sem algum deslocamento, de quem ainda pôde acreditar na poesia como resistência ao caos. Ele mesmo escreveu: “a musa não medusa/ contra o caos/ faz música”. A formulação é muito bonita, no entanto, diante das forças presentes, ela como que se dissipa numa melodia de fundo. Mas é admirável o sonho do poeta. Sempre será. Cada vez mais, a poesia parece ser o espaço da dúvida, da incerteza. O poema não propõe uma fórmula da certeza. Ele se arrisca num espaço em que ela sabe que será derrotada, que sua função será esvaziada pela corrente das coisas. Hoje, muitos poetas já incorporam essa derrota, alguns ironicamente, outros com muita melancolia. Há aqueles, claro, que incorporam para melhor se situarem dentro do jogo: são os cínicos, mas sobre os cínicos prefiro não gastar tempo agora. Mas para entrar em campo e ver em loco a produção da poesia de hoje, destaco três autoras contemporâneas: Paula Glenadel, Annita Costa Malufe e Angélica Freitas, poetas recentes que parecem caminhar nesse fio bambo do presente, cientes dos riscos, mas descosturando, seja com ou sem humor, o discurso enrijecido da atualidade. As abordagens que normalmente encontramos da poesia de hoje procuram dividir os poetas em linhas estéticas, ou em grupos (as famosas “panelinhas”). Em qualquer uma dessas divisões, sempre ouviremos o mesmo ponto de partida, ou seja, a tradição recente, que tem como base os grandes nomes do modernismo brasileiro, os nossos pilares poéticos, incluindo aí os autores concretos. No entanto, não descartando de forma alguma esta perspectiva, podemos pensar que as atuais linhas estéticas são mais embaralhadas e trazem muitas outras referências. O que nos afasta de certa forma da tradição é o fato de já vivermos num outro tempo, com outras condicionantes externas. Uma primeira coisa que já podemos abordar e comentar é o seguinte: hoje, não podemos mais falar em unanimidades, em poetas públicos, cuja voz tinha um alcance que ultrapassava, de longe, o próprio meio literário. Mesmo um poeta como Francisco Alvim, cuja poética é programaticamente moldada a partir da experiência social, um poeta que tem muito a nos falar sobre a vida que vivemos hoje, tem esse alcance. Nem Ferreira Gullar, talvez o poeta de maior popularidade atualmente, parece encontrar ressonância, apesar da intensidade cada vez maior de sua poesia. Os poetas de hoje procuram uma forma de lidar com a experiência imediata do mundo, seja pela elaboração de uma poesia calcada em metáforas e numa linguagem rara e obtida com grande esforço; seja pela reação direta aos acontecimentos, às vivências; seja a partir do mergulho na tradição da própria poesia, buscando seus elementos num conjunto de obras canônicas ou não, etc.
Na poesia de Paula Glenadel (nascida no Rio de Janeiro, em 1964), autora de três livros, podemos encontrar essas questões, inseridas na poesia lírica. Em seu livro mais recentemente, “Fábrica do Feminino” (7 Letras), a poeta parece reagir ao discurso pronto e padronizado sobre o feminino, num primeiro plano. E não só sobre o feminino: dizer isso seria reduzir o alcance de sua poesia. Glenadel toca no coração do problema que vem nos acompanhando há anos, que é o da experiência da reificação. Para exemplificar, pode-se citar de saída a epígrafe, ou prólogo (já que neste livro vai se esboçando uma poesia que se alimenta de elementos épicos e dramáticos): O feminino é feito numa fábrica. O masculino é fabricado.
Paula irá trabalhar, em seu livro, com formas variadas, poemas em versos e poemas em prosa. É, como diz Marcos Siscar, em outro texto, “uma prosódia intranquila”. Essa intranquilidade pode ser vista em vários dos poemas, como também numa voz que salta do humor para o sério, do sério para o humor, que retoma tópicos clássicos e mitos da Antiguidade para vê-los sob a perspectiva do presente. E principalmente, o que é um sinal sintomático de nossa época, e já bastante repisado pela crítica, a debilidade do sujeito, ou, como diz Amaral, “a subjetividade enfraquecida”. A voz (poema enfarinhado) Enquanto eu fazia um bolo se outrora se fazia agora o que seja verso mas olhando bem e agora, Maria?
Em Paula, podemos apontar duas características que estão presentes em boa parte da produção contemporânea: o alargamento do verso, que “já nem nasce verso”, e ao mesmo tempo o reconhecimento da importância de explorar todas as possibilidades do campo poético –não dá para voltar a Minas. “Minas não há mais”, diria Drummond; Paula, com seu irônico “e agora, Maria?” lança a questão para a mulher, para esta voz feminina que faz o poema. Sabemos que esses tipos de poemas femininos, que exploram o ambiente doméstico, dos espaços como o da cozinha, existem aos montes. E Paula sabe bem disso, ao buscar na cozinha a sua inspiração poética e ao ironizar com o “e agora, Maria?” –como se ela falasse com uma Maria plural que ficará apenas com o bolo, a poesia já solou... É a falsa questão que desestabiliza o poema. Esse é um problema da poeta, e não da Maria... A própria voz sola, em sua ambiguidade, e percebe a fragilidade da própria poesia diante da vida.
Dentro desta mesma temática, a da intimidade posta em questão, outra poeta que merece comentário é Annita Costa Malufe (nascida em São Paulo, em 1975). Em seus poemas encontramos uma espécie de monólogos cruzados. As diversas vozes da intimidade se imbricam nos poemas e criam ruídos, chiados, frases aparentemente sem sentido, como pedaços soltos de pensamento, interrompendo a reflexão e a afirmação do sujeito central, afetado por esses encontros e desencontros. Os ruídos são muitos, até se perder de vez a noção tradicional de uma voz. Essa me parece ser a grande percepção poética de Annita, que parte de um legado forte, como a da poesia de Ana Cristina César –a qual ela já dedicou dois estudos universitários–, mas com o desejo de dar um salto, um passo adiante, tensionando mais ainda esta corda. Em Ana Cristina, o tema da intimidade era embaralhado ao universo das citações, que se infiltrava no poema, apagando a referência bibliográfica direta. Era como se ela buscasse uma interpretação desse grande tema a partir de sua própria criação, utilizando-se inclusive das formas tradicionais da intimidade, como a carta e o diário. Era uma espécie de confissão objetivada, o íntimo como objeto histórico emocional, da educação sentimental burguesa. Em Annita, este grande tema está presente –faz parte de seus três livros publicados até agora: “Fundos para Dia de Chuva” (7 Letras, 2004), “Nesta Cidade e Abaixo de Teus Olhos” (7 Letras, 2007) e “Como Se Caísse Devagar” (Editora 34/PAC, 2008). Nesses livros, podemos acompanhar as modificações pelas quais sua poesia vem passando, e principalmente a exploração deste tema do mundo íntimo e marcadamente feminino. A presença mais evidente é a do corpo, que se faz presente a cada página dos seus livros. Em “Fundos para Dia de Chuva”, que marcou sua estréia, a poesia estava centrada num eu lírico feminino que procurava objetivar suas experiências, que abria uma espécie de caixa de memórias para ali buscar sua matéria e lhe dar forma. Como ela mesma chegou a contar, o título vinha de uma brincadeira com seu pai, que faleceu muito cedo. Ele costumava deixar uma caixa com a inscrição “fundos para dia de chuva”: ali estavam depositadas as coisas que eles poderiam fazer naqueles dias que não dá para sair, ir passear no parque etc. Se há aí uma referência particular –obviamente ela se perde dentro do livro para buscar outras significações, distantes do ponto de partida. Esta caixa onde se depositam coisas guarda principalmente, neste livro, o passado: um passado que pode ser ponto de refúgio, de busca, como também de sombra pesada que deixa pouco espaço para uma experiência intensa no presente. O que se pode notar pelos dois poemas que seguem: Nos dias de chuva fina
Já estamos todos muito velhos Vasculho papéis que perderam sua função – palavras fatos já não-meus, penso É preciso rasgar Tentativa de habitar algum presente em meio ao bolor |