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dossiê
POESIA BRASILEIRA

Um segundo antes de acordar
Por Paula Glenadel

Dois trechos de uma peça ainda por publicar: "O Livro dos Sonhos" e "O Nefasto"

VI - O Livro dos Sonhos

A premiê Onira discursa para os povos pós-trácios:

– Após a terceira guerra servil, há muitos anos, como todos vocês sabem, nossos ancestrais comuns perceberam o quanto era perigoso seguir um líder que não fosse da sua própria raça. E o quanto era perigoso seguir um líder da sua própria raça também! Assim sendo, proponho hoje a vocês que não tenhamos outro condutor, outro guia para a nossa conduta interna e externa a não ser o livro dos sonhos, escrito há milênios na nossa protolíngua e traduzido pelos melhores estudiosos pós-trácios da atualidade, financiados pelos cofres públicos, que, devo dizer, andam meio anêmicos. Novos impostos virão, não se inquietem, repor essa seiva. Cada cidadão pós-trácio pode interpretar o livro como quiser, dentro de certos limites, mais a leste ou mais a oeste, como é tradição entre nós. Em caso de discrepância, haverá uma comissão mista leste-oeste para decidir qual a interpretação correta.


Vozerio da multidão. Não se sabe se estão contentes ou descontentes.

Em comemoração à nossa revolução pacífica, o poeta oficial lerá um trecho que traduziu do nosso caro livro dos sonhos, que trata da relação com o vizinho, tema de máxima importância para nossa comunidade.


O poeta oficial, com inevitável dicção pomposa e enfática:

– Naquele dia, houve um terrível vendaval, seguido de chuva, neve e granizo. O mundo tremeu de frio, e as portas todas do reino de Supertrâmpia caíram por terra. Assim, os vizinhos começaram a enxergar o que havia por detrás dos umbrais dos convizinhos, e não gostaram do que viram. Cada vizinho viu o outro vizinho se entregar a práticas cruéis e vergonhosas...............................


O vozerio aumenta. Alguém grita:

– O livro dos sonhos é um pesadelo!

– A premiê Onira mente!

Johannes Silentius, que ouvia o discurso misturado à multidão, dispara três tiros contra a premiê Onira e a mata.


IX - O Nefasto

Judas lê para Psiquê o catálogo da galeria onde suas obras serão expostas.

– Título : Janela bifronte (20 x 20 cm, acrílico s/ tela). Nesta tela de reduzidas dimensões, o artista elaborou uma composição de duas figuras gêmeas do embotamento e do abatimento que poderíamos designar, talvez, como “O Despistado” e “O Desdichado”, em função da expressão predominante na face de cada um. Aqui e ali sobrenadam rastros de Goya ou de Dalì. Acolá o claro-escuro remete ao maneirismo sombrio e luminoso dos mestres ressurgentes. A legenda da faixa que os gêmeos seguram indica "J'attends comme un événement", misteriosa inscrição que coloca toda a tela em estado de absoluta iminência, contrastando violentamente com a desolação dos dois. Talvez o acontecimento entre pela janela, única abertura visível na composição. O potencial criador de Judas Nefasto se iguala apenas à sua capacidade de realizar uma síntese paródica de toda a história da arte do Ocidente.


Psiquê – Você gostou desse texto?

Judas Nefasto – Gostei, mas eu prefiro o outro.

– Título : O touro Mira-Espejos (50 x 100 cm, óleo s/ tela). Nesta tela, o artista traz o touro miúra como correspondente animal do mito de Narciso, afogado no espelho de sangue escuro que cobre a parte inferior do quadro e ameaça invadir o espaço do espectador. Quem mira quem, parece indagar displicentemente o touro um segundo antes de acordar para uma outra realidade.


Psiquê – Judas, por que você me traiu ? Éramos tão felizes.


Publicado em 17/10/2009

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Paula Glenadel

É poeta. e professora de literatura francesa na Universidade Federal Fluminense de Niterói. Realizou pós-doutorado sobre poesia francesa contemporânea na Université de Paris VIII em 2002. Traduziu, entre outros, "Os Animais de Todo Mundo", poemas de Jacques Roubaud, e "A Rosa das Línguas", antologia de poemas de Michel Deguy (ambos em colaboração com Marcos Siscar). É autora dos livros de poesia "A Vida Espiralada" (ed. Caetés, 1999), "Quase uma Arte" (Cosac Naify/7Letras, 2005) e "A Fábrica do Feminino" (7Letras, 2008). É autora de "Fábrica do Feminino" (7 Letras), entre outros livros. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1964.



 
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