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dossiê
POESIA BRASILEIRA

O que falo nunca é o que falo
Por Annita Costa Malufe

Quatro poemas inéditos

enxergo o ponto daqui entre
nós um banco um boteco um prédio
que avança na calçada um poste
antigo onde ele deve ter se apoiado
um dia para descansar para cumprimentar
alguém um prédio que avança um
homem que dorme um velho que
escorrega e cai enxergo com poucos
detalhes o letreiro do ônibus daqui
o anúncio de um lugar que fico imaginando
como será fico mobiliando como
quem mobilia uma casa um espaço novo
desabitado colocando peça por peça
pessoas bichos muros escadas casas postes
de luz bancos de madeira pontos de ônibus
sem cobertura faixas amarelas no chão
a pintura desgastada ela acenando ao táxi
a mulher ajudando-a a andar ele
deve ter se apoiado um dia tenho certeza
e tantos anos depois você fotografou
o poste enferrujado a esquina em que os
carros viram bruscos demais sem obedecer
o sinal pessoas bichos muros vou
mobiliando uma pequena cidade onde
devem ser lugares que daqui enxergo com
dificuldade nos letreiros que passam
escorregam pela visão passam correndo como
será gosto de imaginar lugares que nunca vi

*

o que falo nunca é o que falo
e sim outra coisa ouve-me ouve-me
daí deste silêncio deste longe longe
a primeira vez que ouvi foi isto longe
uma voz secreta balbuciando ouve
ouve daí você pode me ouvir? era a
pergunta como ficar por um instante aí
no silêncio em torno da pergunta
sem resposta é como estar sem
resposta o que falo nunca é exatamente
o que falo sereno limpo calmo esperar
longe longe a primeira vez que te
ouço é a primeira mas uma voz secreta
um assobio você pode girar em torno
a pergunta não tem resposta como ficar
ficar aí o silêncio em torno é sim
outra coisa o que falo ouve daí
ouve-me você certa vez uma resposta
diria que uma resposta não é jamais
uma resposta o que falo falo daqui
sem calcular certa vez seria isto um
assobio descentrar procurar não é
bem este o conteúdo forma e conteúdo
forma conteúdo separar separar
certa vez esta a pergunta ouvir longe
longe sem resposta ficar este espaço
ouça este espaço em torno este silêncio
vazio escuro espera o que falo qual é
a pergunta qual sereno calmo esperar
qual é senão assobio alto baixo ficar
fluir fluir sem retorno um assobio longe longe

“Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa”
Clarice Lispector, em "Água Viva"

*

não tinham sido todas estas coisas
sou capaz de jurar olhando pela porta vendo
escorrer a água pelas pedras não eram
não me lembro de ter ouvido isto quando a porta
bateu ele falando alto ela correndo com os pés
descalços vá se calçar menina e depois quantas
vezes procurei eram dias de sol dias de chuva
não importa quantas vezes procurei retomar
o fio da conversa quantas vezes a busquei pela
rua pela estrada a calçada ardendo na sola do pé
todas as coisas que ouvimos a cabeça baixa a
destilação do vínculo o queixo abaixado era
assim que ouvia era assim que a voz rouca
do avô ia lentamente entrando pelos
ouvidos ainda pouco entendida as expressões
roucas as expressões que arranhavam os
ouvidos o fio da conversa quantas vezes procurei
a batida da porta a mesma batida mais uma e
outra vez sou capaz de jurar que não eram bem
estas coisas e hoje o que importa escutar
por trás da porta o fio rouco rasgando a
cortina a aspereza de um sopro cavando os
ouvidos o queixo abaixado era lentamente
tão lentas as expressões aderiam ao silêncio à sola
do pé à ardência na sola do pé ali da porta
vendo a água escorrer e delinear um pequeno
córrego vá se calçar menina volte para casa
um pequeno córrego sem retorno comum
ou conhecido

*

não sei como cheguei aqui
estou nu em uma cama de
metal sentindo um cheiro de azinhavre
não sei como as palavras me vêm
não sei de quem são estas palavras estou
nu ele me diz que não estou nu mas
sei que estou
ainda que não reconheça esta
pele não reconheça estas paredes
que colocaram ao meu redor
estou nu como daquela vez foram
longas horas e o frio custa a passar
estou diante de você? preciso
me perguntar a cada vez sou
um homem adulto? você repete você
foi sempre a minha repetidora
assim como se diz em francês
ensaio assim como você e eu sempre
repetimos muito as mesmas
preocupações? eu preciso te
perguntar é um esforço não
sei como cheguei não reconheço
esses cheiros o cheiro do lençol o
cheiro dessas mãos de quem são estas
mãos estou nu não quero
que me toquem
peço
que não me toquem
mais
e o cômodo é
uma caixa de ressonâncias
vazia
um espaço oco
em que apenas eu
me ouço
em exaustão


Publicado em 17/10/2009

.

Annita Costa Malufe
É poeta. Nasceu em São Paulo, em 1975. É autora de "Fundos para Dias de Chuva" (Ed. 7 Letras, 2007), "Nesta Cidade e Abaixo de Teus Olhos" (Ed.7Letras, 2007), e "Como se Caísse Devagar" (Ed.34/ PAC, 2008). É doutora em teoria e história literária pela Unicamp e mestre pela PUC-SP, com o ensaio "Territórios Dispersos: A Poética de Ana Cristina Cesar" (Ed. Annablume/Fapesp, 2006). Atualmente realiza seu pós-doutorado na PUC-SP, no Núcleo de Estudos da Subjetividade (Psicologia), sob supervisão de Peter Pál Pelbart.

 
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