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dossiê
POESIA BRASILEIRA

Laranjal Praia Clube
Por Angélica Freitas

Três poemas de uma série ainda sem nome sobre a praia no Rio Grande do Sul

7.

foi na praia, por pouco
não foi num sofá, ou na pista de dança
do laranjal praia clube:
eu tenho uma coisa pra te contar.
e contei. ela me disse que já sabia
e vomitou na areia. depois eu dizia
por aí
que ela tinha ficado nervosa.


10.

sai da avenida de pedra
entra numa rua dessas
tapes, montenegro, bagé
e afunda o pé no acelerador.
deve ser porque temos dezesseis
e somos duas num fusca
não temos nada com isso
– que vá embora.
mas o cara no carro
mostra a língua
e acelera, acelero:
dois faróis no lusco-fusco.
ele ganhou a corrida
ganhou o quê? nesta cidade
a pista se chama prolongamento
ex.: “nem a pau vou no prolonga
hoje vai dar polícia”.
onde a pista se chama
prolongamento
o que ganha um cara num passat
que nas ruas de terra da praia
ultrapassa qualquer fusca?


11.

e teu padrasto banido de diversos armazéns:
ali não pode entrar. no outro, tampouco.
este inverno vamos comer couve. e arroz.
arroz com couve, que talento pode dar?
os mercadinhos da praia
que abrem no inverno
vendem latas de ervilhas
purê de tomates, pão de forma.
naquele ali, tampouco. não pode entrar.


Publicado em 17/10/2009

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Angélica Freitas
É poeta. Nasceu em Pelotas (RS), em 1973. Estudou jornalistmo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e trabalhou como repórter em São Paulo. É autora de "Rilke Shake" (Cosac Naify/7 Letras, 2007).

 


 
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