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entrevista
LANÇAMENTO
"O jornalismo oxigena a vida pública" O diretor de Redação da "Folha", Otavio Frias Filho, fala sobre seu novo livro, “Seleção Natural”, com 25 ensaios sobre cultura e política No mundo atual, cuja característica pregnante é a especialização, a maioria dos jornalistas fica confinada a uma área restrita de atuação: encontrar um fio condutor que ligue a multiplicidade de caminhos da cultura e da política e pontificar em seus diversos campos é um desafio que poucos enfrentam. Na contracorrente da máxima de que a cada um está reservado nicho próprio de atuação, Otavio Frias Filho, diretor de Redação da “Folha de S. Paulo”, mantém, com espírito polimático, fértil produção intelectual, na qual transita com igual desenvoltura e inteligência refinada da crítica de cultura ao comentário político. É também dramaturgo bissexto, autor de "Tutankaton" e "Típico Romântico", e já publicou, entre outros, os livros "Queda Livre" (2003, Companhia das Letras) e "De Ponta-Cabeça" (2000, ed. 34). “Seleção Natural: Ensaios de Cultura e Política” (Publifolha), sua obra mais recente, atesta mais uma vez a sua capacidade de refletir sobre os mais variados temas, numa linguagem tão límpida quanto envolvente. O livro reúne 25 ensaios concebidos ao longo dos últimos 23 anos, que tratam do cinema (Abel Gance, Coppola e Truffaut, entre outros), do teatro (Heiner Müller, Nelson Rodrigues e "Hamlet"), da literatura (Dostoiévski, Orwell e Monteiro Lobato) e mesmo da filosofia política (Tocqueville). O autor também não desvia o olhar de fenômenos midiáticos contemporâneos, como o da princesa Diana, e de debates candentes da época, como a teoria da evolução e o fim da história. No conjunto, os textos revelam sobretudo um intelectual preocupado com o presente, nesta época que não valoriza essa forma de inquietação, como realça Marcelo Coelho no posfácio,. "Quando escrevo textos como estes, penso que o tema ostensivo é um pretexto para discorrer sobre outro tema subjacente", explica Frias Filho na entrevista a seguir. Autor da célebre "Carta Aberta ao Sr. Presidente da República", publicada na "Folha" (em 25/4/1991) e dirigida a Fernando Collor de Mello às vésperas da renúncia (1992), o jornalista diz hoje que o governo do ex-presidente "foi bonapartista", tentando pairar sobre a sociedade e confrontar todos os grupos de influência ao mesmo tempo. "Caiu, provavelmente, por isso", diz. A "Carta" é reproduzida no livro. Frias Filho também reflete na entrevista sobre o jornalismo atual, que para ele conserva, entre suas funções primordiais, a de "oxigenar a vida mental pública por meio da controvérsia e do debate". *** Começo pelo último ensaio do livro, “A Descendência de Darwin”. Nele, à medida que você expõe a teoria evolucionista de Darwin, o que fica como interrogação é: no comportamento humano, qual seria a fronteira entre o que é natural e o que é adquirido? Otavio Frias Filho: Acho que não existe, provavelmente, uma fronteira, mas uma superposição de elementos inatos e adquiridos. Também penso ser provável que em última análise os elementos adquiridos atuem no sentido de reforçar os inatos.
Frias Filho: Quando escrevo textos como estes, coletados no livro "Seleção Natural", penso que o tema ostensivo é um pretexto para discorrer sobre outro tema subjacente. Por exemplo, a pretexto de comentar o filme "Peggy Sue", de Francis Coppola, abordo a sensação de que o tempo emocional não é mais capaz de fluir. Ou, a pretexto de falar sobre o jornalista Victor Cunha Rego, escrevo sobre uma geração de intelectuais que se viu dividida entre a esperança de reforma social e o horror ao totalitarismo de esquerda. E assim por diante. O título, bela ideia do editor Arthur Nestrovski, faz um trocadilho, pois além de o livro terminar com o texto alusivo ao darwinismo, do volume constam textos que a meu ver sobreviveram à passagem dos anos.
Frias Filho: Para além da dependência química, que é um fato objetivo, concordo com os que pensam que fumar corresponde ao impulso de morte, presente em todo ser vivo, de que fala a psicanálise. O que está ocorrendo em nossa época, na minha opinião, é que a longevidade média alcançada pelo ser humano ao longo do século 20 torna irracionais hábitos que tinham sua lógica numa sociedade em que a expectativa de vida era pouca. Em outras palavras, se você está numa trincheira na guerra, fume muito. Se vive num ambiente em que provavelmente chegará aos 90 ou mais, fumar implica uma espécie de suicídio por câncer. Ora, há formas menos dolorosas de se matar.
Frias Filho: Penso que não existe neutralidade científica como um valor absoluto, mas que fazer ciência é buscar aproximar-se desse horizonte, que recua conforme avançamos rumo a ele. Algo semelhante, de fato, poderia ser dito sobre a neutralidade jornalística.
Frias Filho: O cinema funcionou como uma forma de esperanto na minha geração (a expressão é do poeta e crítico Nelson Ascher). Por isso, ao abordar temas como presente, passado, história, mercadoria, psicanálise etc. tomei como pretexto certos filmes que me agradavam ou interessavam na juventude. Adotei essa linguagem, que era a minha e de meus amigos.
Frias Filho: Não saberia responder. De toda forma, me parece que o cinema sobre a Guerra do Vietnã é mais crítico, analítico etc. do que o cinema americano sobre a Segunda Guerra Mundial. Este ainda é um cinema ingênuo, quando não publicitário.
Frias Filho: Para mim, o que "Blade Runner" e outros filmes comentados no livro atestam é uma percepção inconsciente de que o tempo presente se eternizou, o que é uma forma diversa de dizer que a História provavelmente acabou. Claro que continua a haver guerras, revoltas, 11 de Setembro etc. etc. Dizer que a História acabou significa apenas dizer que não existe no horizonte disponível nenhum modelo alternativo ao capitalismo democrático que pareça capaz de transcendê-lo.
Frias Filho: Na minha mitologia pessoal, os anos 1950 foram os "últimos" da História. Desde então as representações do real são paródias, pastiche, simulacro (para usar um termo típico dos anos 1980). O que existe de novo, a meu ver, nos anos 1980, é que talvez eles configurem pela primeira vez uma década que é feita da mistura indiscriminada e deliberada de estilos das décadas anteriores. Isso, aliás, apenas se prolongou nos anos 1990 e se propaga ainda mais hoje em dia. A internet é o veículo por excelência da simultaneidade, do cancelamento do tempo.
Frias Filho: Eu diria que sempre, de todas as maneiras, em qualquer caso, até mesmo e sobretudo o cinema documental.
Frias Filho: Diria que sim. E iria até o ponto de dizer que o cinema, como apelo às faculdades sensíveis, é em si superior ao teatro e a todas as outras formas de arte. O cinema é a "arte total" que Wagner via na ópera. Não quer dizer que seja "melhor" em termos artísticos do que o teatro ou a literatura, claro. Aí, cada obra é uma obra, com seu valor intrínseco.
Frias Filho: Na minha opinião, a obra de arte passou a ter uma dimensão cada vez mais ornamental, por um lado (fica "bem" gostar de arte contemporânea, fica "bem" ter uma tela abstrata cara etc.), e recreativa, por outro (música pop, cinema comercial etc.) É provável que uma verdadeira "fruição" artística seja menor ou mais rara hoje, mas é também provável que sempre tenha sido uma minoria de pessoas, nesta como em outras épocas, as que se dedicam a perseguir algo assim. Comparo o sentimento artístico ao religioso e concordo com quem pensa que a modernidade está matando ambos.
Frias Filho: Não sei se há divórcio entre arte erudita e popular, mas talvez a canibalização da arte erudita pela única vertente de arte popular que sobreviveu -e que, além de sobreviver, dominou o mundo: a arte pop integrada ao consumo de massa.
Frias Filho: Estou entre os que pensam que arte e política são domínios autônomos. Pode até haver um grande artista que escreve autênticas obras de arte em obediência cega ao Partido: Brecht, por exemplo. Pode haver um cidadão fascista e detestável que tenha sido um grande escritor: Céline, por exemplo (não gosto dele, mas aceito o cânone). Na maioria das vezes, no entanto, a política piora o artista, até porque os artistas quase sempre não entendem nada de política, simplesmente não está em seu repertório. Mas ainda aqui há exceções: Arthur Miller, talvez.
Frias Filho: (Risos) Acho que a conexão seria longínqua demais... Mas Tocqueville foi um dos que previram o hedonismo peculiar da nossa época, voltado à maximização dos prazeres e confortos individuais, sim, mas de forma calculista, cultivada a longo prazo, na sombra de uma longevidade estendida.
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