As relações dos homens com os suínos é tema do novo livro do historiador francês Michel Pastoureau
Hominídeos e porcos convivendo harmoniosamente, quase como iguais. Assim os vemos nas primeiras páginas de “2001 - Uma Odisséia no Espaço”, de Arthur C. Clarke. Até o momento em que o hominídeo encontra um monólito negro e transforma o companheiro em refeição...
Ficção elevada, a versão cinematográfica de Kubrick não mostra porcos, mas tapires, talvez por sua aparência mais “pré-histórica” e estranha ao público. De todo modo, a ideia de domínio da natureza pelo homem encontra poucas imagens tão fortes, tão intensas e sintéticas quanto a de um macaco golpeando a cabeça de um quadrúpede, seja ele uma anta ou um porco.
A sequência de “ 2001” sintetiza igualmente o relacionamento ambíguo entre os seres humanos e os suínos. De um lado, o porco é símbolo de fartura: a célebre figuração do cofrinho deriva das formas abundantes e também de sua prodigiosa fecundidade. Outras benesses são propaladas em ditos populares, como “do porco, tudo se aproveita”. Mas as imagens negativas são predominantes; se não o mais vil dos animais, o porco é o mais sujo, e nenhum outro bicho personifica tantos vícios: ele é a gula, a luxúria, a preguiça, a ganância; por vezes também a ira.
A história desse controverso e (hoje) simpático ser é narrada com brilho em “Le Cochon : Histoire d’Un Cousin Mal Aimé” (“O Porco: História de Um Primo Mal-amado”), livro densa e belamente ilustrado, lançado na França neste ano pela editora Gallimard. Livro que vem em boa hora, não tanto para justificar o azar do mamífero que serve de nome à doença do momento (a “gripe suína”) quanto para deslocar um pouco o modo de ver a nossa relação com os animais e também –é claro– conosco mesmos.
Michel Pastoureau é o autor. Historiador e antropólogo, nascido em Paris, em 1947, diretor na École Pratique des Hautes Études, ele tem como especialidade as cores, os animais, os símbolos e os emblemas. Tais assuntos, há 30 ou 40 anos, quando Pastoureau começou a lhes dar atenção, eram vistos como menores, fúteis ou extravagantes. Hoje, é mais fácil vê-los como importantes e poéticos. Entrecruzando-os, pelo incomum das escolhas e a fertilidade de umas para as outras, Pastoureau extraiu conhecimentos extraordinários.
Se a historiografia abandonou a exclusividade dada aos reis e às guerras, se ela passou a tratar dos menosprezados, das minorias e desassistidos, Pastoureau radicalizou; adotou temas em si desvalorizados e, dentro deles, dedicou-se carinhosamente aos “perdedores”: estudou as cores com o intuito declarado de “reabilitar” o verde. Com os animais, fez o mesmo, voltando-se ao porco, ao corvo (provável próximo livro) e ao urso (“L’Ours : Histoire d’Un Roi Déchu”, Seuil, 2007).
O autor tem mesmo em seu sobrenome um pouco do ofício (Pastoureau: algo como “pastorzinho”), o semblante fotogênico, alegre e arredondado. Poucas figuras corresponderiam tão bem àquilo que fazem. Seu trabalho, contudo, é sólido, rigoroso e circunspeto. Em “Le Cochon”, conta-nos, por exemplo, o episódio de um porco “vagabundo”, que no século XII fez cair do cavalo e morrer o herdeiro do trono, o promissor príncipe Filipe: fim inglório a qualquer nobre e, nesse caso, trágico aos capetíngios e à França. Pastoureau traz à tona esse evento “esquecido” por sete séculos, observando que numa caçada ao javali, bem ao contrário, seria uma morte memorável, heroica e digna de um rei.
Poucas décadas depois do acidente fatídico, as cidades européias limitaram ou proibiram a circulação de suínos nas ruas. Muito antes dele, porém, os infortúnios vinham se acumulando: são inúmeras as queixas de imundices e doenças causadas pelo animal, de relatos de ataques a charretes, a jardins e a cemitérios, para desenterrar cadáveres. Alguns porcos chegavam a devorar crianças.
Somente uma vara pôde continuar em liberdade: a que pertencia aos religiosos antonianos; pois essa criação alimentava os indigentes e fornecia banha, tida como benéfica ao tratamento do “fogo de santo Antão”, isto é, aos males da pele, incluindo a lepra. Em Paris, a permissão durou até o século XVI. Na Baviera, até o século XIX.
Há mesmo uma forte ligação entre santo Antão e o porco, retratados juntos por pintores como Bosch e Brueghel. Sua origem derivaria das tentações ao eremita, relatadas por Atanásio, amigo do santo e seu primeiro biógrafo. Nelas o demônio se transmuta em lindas mulheres nuas e animais ferozes, atormentando o pobre Antão no retiro ao deserto.
Atanásio menciona entre as feras o leão, o lobo, o urso, o touro, a víbora e o escorpião: nada de porco. Mas, segundo Pastoureau, “as primeiras imagens ocidentais que trasladam a solidão de Antão do deserto egípcio à floresta europeia inclui progressivamente o javali entre as bestas que tentam atacá-lo. Ao longo dos séculos, essas bestas acabam por se reduzir a duas, o lobo e o javali, dois animais da floresta particularmente perigosos, depois somente a um: o javali. A iconografia toma assim com grande liberdade os textos hagiográficos” (p. 93).
Do javali ao porco, outro pulo: na representação com o santo, o primeiro se transforma pouco a pouco no segundo –mudança simbólica, pois, servo do diabo, o javali precisava ser substituído por um animal de aspecto dócil e protetor. Nessa transformação, para Pastoureau, a ação caridosa dos antonianos pode ter sido crucial e, ainda assim, insuficiente para torná-lo um animal mais portador de aspectos positivos que negativos.
O porco ocupa um lugar notoriamente significativo nas religiões, sobretudo na judaica e na islâmica, onde o seu consumo é enfaticamente vetado. As explicações são várias: o Antigo Testamento repete muitas vezes que o porco se alimenta de sujeiras e excrementos e que sua carne, portanto, é impura; agregam-se as famas da difícil digestão, da transmissão de doenças e do perecimento rápido em climas quentes.
A este último argumento, Pastoureau contrapõe que muitos povos vizinhos aos hebreus (isto é, vivendo sob o mesmo clima) comem normalmente a carne de porco, sem esquecer regiões distantes e quentes que igualmente a apreciam. O historiador acrescenta outro fator, mais uma vez simbólico: “Qualquer sociedade precisa imputar a certos animais proibições de naturezas diversas, notadamente alimentares. Estas participam tanto da vida cotidiana e da sensibilidade mais comum que as populações não as têm em consciência. As sociedades ocidentais contemporâneas, por exemplo, não comem o cão e o gato. Mas quem, na Europa, tem realmente consciência que se trata de uma interdição comparável àquelas que se observam nas sociedades antigas?” (p. 80).
Pastoureau lembra que alguns eruditos relacionam a interdição ao caráter totêmico do javali, emblema de clãs hebreus primitivos. A hipótese, aventada pela antropologia freudiana, caiu em desuso, “notadamente por trasladar à Palestina práticas de culto que concernem sobretudo aos povos ameríndios e da Oceania. Mas há de se reconhecer que certos autores gregos antigos (Plutarco, por exemplo) já se questionavam quanto à proibição do porco entre os hebreus não se relacionar à sua condição sagrada, passada ou presente, a eles” (p. 81).
Dentre as razões apresentadas, Pastoureau se põe ao lado da que lhe parece a mais firme e descomplicada, desenhada no século XIX: “Animal votivo e sacrifical em grande parte do Oriente Médio antigo, o porco havia servido aos rituais idólatras dos cananeus, povo que ocupou a Palestina antes da chegada dos hebreus. Donde a proscrição pela lei de Moisés a um animal de papel importante numa religião concorrente e as práticas de culto combatidas. Para além do despeito aos cananeus, às suas crenças e sábios, não se pode ver na distinção operada pelos hebreus entre o puro e o impuro –distinção ampla e complexa– a vontade de diferenciar-se dos outros povos e mesmo de afirmar sua identidade? Ou ainda, de proclamar-se puro num mundo impuro, ou, numa palavra, de santificar-se? Esta hipótese tem seduzido vários antropólogos contemporâneos” (págs. 81-82).
Há também as justificativas que veem o porco como adequado às culturas sedentárias, em oposição às nômades, mais afeitas à criação de ovinos e caprinos; ou as que recordam da necessidade do porco se refrescar constantemente, isto é, de viver próximo a fontes abundantes de água. Mas Pastoureau alerta ao positivismo contido nessas justificativas, geralmente vistas com reticência por historiadores das sociedades antigas. De todo modo, entre todas as razões, a tese elaborada por Pastoureau é a mais interessante: não se come o porco porque comê-lo seria algo como praticar... canibalismo.
O parentesco entre o homem e o porco vem sendo corroborado pela ciência; se o chimpanzé possui cerca de 97% dos genes humanos, o porco doméstico tem 95%. Desde a antiguidade, a medicina e a anatomia reconhecem na fisionomia interna do porco uma semelhança impressionante à do homem. Outra relação constante ao longo da história aproxima a aparência dos leitões à das crianças, sobretudo aos bebês humanos.
Historicamente, os meninos europeus foram incentivados a pastorear os porcos, enquanto às meninas cabia o pastoreio de gansos e ovelhas, animais tidos como menos violentos que os suínos. Com os povos da América e da Oceania, a relação é ainda mais afetuosa: são célebres as imagens de mães humanas sustentando, num seio, a sua cria, e no outro, um leitão. E, por último, os testemunhos dos que comeram carne humana, da Antiguidade a tempos recentes –como é o famoso caso dos sobreviventes dos Andes, de 1972–, afirmam ser o sabor da carne humana muito parecido ao da carne suína.
O que nos leva de volta a “2001 - Uma Odisséia no Espaço”, obra curiosamente não mencionada no portentoso e imperdível livro de Pastoureau; talvez porque o filme não utilize porcos, como descreve o enredo de Arthur C. Clarke, mas antas, na versão superior de Stanley Kubrick. Uma vez que são as imagens futuristas de “2001” –representando a alta tecnologia– as mais marteladas na mídia, o homem-macaco acaba ficando ligeiramente em segundo plano. Como ficaria então o quadrúpede arcaico, seja ele anta ou porco, tolo a ponto de se deixar abater por um hominídeo, quase seu igual?
Publicado em 9/9/2009
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Alex Miyoshi
É arquiteto e professor, doutorando em história da arte no IFCH-Unicamp, onde faz pesquisas sobre arte e arquitetura dos séculos XIX e XX. Edita a "Revista de História da Arte e Arqueologia" na mesma instituição.