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dossiê
BERNARDO VOROBOW

O viajante
Por Walter Salles


O produtor de cinema Bernardo Vorobow na Cinemateca Francesa, em Paris, em 2006
Foto: Carlos Adriano

Produtor de filmes, crítico e editor, Bernardo Vorobow sabia que o cinema nos leva para mais longe, a um universo onde tudo é invenção

O ensaísta John Berger escreveu uma vez que o cinema é como uma partida perpétua. Uma forma de expressão que nos leva em direção ao desconhecido, àquilo que ainda não foi desvendado. A relação que Bernardo Vorobow tinha com o cinema era de tal forma apaixonada e apaixonante que, quando soube que ele também havia partido, as primeiras imagens que me vieram depois da sensação de perda foram as de “A Rosa Púrpura do Cairo”. No filme de Woody Allen, uma personagem decide sair da vida para mergulhar na tela de cinema, abraçando uma realidade que lhe parecia mais rica e lúdica do que aquela que ela vivia.

Não sei, na verdade, se essa referência caberia para Bernardo. Afinal, sua vida foi marcada por uma relação luminosa de 27 anos com seu companheiro, o cineasta Carlos Adriano. Ainda ressoam as conversas que tivemos e que hoje parecem tão poucas e raras. Havia algo incomum que movia Bernardo, um sentimento vizinho ao “d’où vient que je frissonne” de que falava Racine, e que poderia ser mal traduzido por “de onde vem que eu estremeço”. Bernardo parecia viver para isso. Ele tinha uma relação à flor da pele com o cinema, e era essa sensação que ele procurou compartir enquanto programador, crítico, editor de livros ou produtor de filmes experimentais.

Falando de “Um Condenado à Morte Escapou”, de Robert Bresson, John Berger lembra que mesmo se a câmera permanece o tempo todo solidária ao personagem principal que está na prisão, são os sons da rua (aquilo que está fora de campo, portanto) que importam. Porque são esses sons que nos transportam, nos fazem imaginar uma outra realidade. O cinema como um ato libertário, que nos permite ver ou projetar aquilo que está além-muros.

Nesse sentido, o cinema representa o contrário da televisão, cuja essência consiste na necessidade de amarrar o telespectador na cadeira da sua casa. Ainda Berger: “Séries e novelas são baseadas na idéia da repetição, como uma casa dentro de outra casa. No cinema, por contraste, somos todos viajantes. Não conhecemos os protagonistas, nem sabemos para onde eles estão nos guiando”.

Bernardo sabia de tudo isso e levava a sua paixão pelo cinema às últimas consequências. O seu interesse pelo cinema experimental é uma decorrência disso –é a forma, dentro de todas as possibilidades trazidas pela invenção dos irmãos Lumière, de viajarmos para mais longe, para um universo onde tudo é invenção. Os filmes que ele produziu, dirigidos por Carlos Adriano, são a prova viva dessa busca por um cinema sem concessões.

Isso não quer dizer que Bernardo não tivesse um olhar generoso para com outras formas narrativas –muito pelo contrário. Quando nos conhecemos, ele me falava com entusiasmo de filmes que, por mais incompletos que fossem na sua totalidade, continham momentos que mereciam ser relevados. A sua paixão se estendia a esses pequenos filmes dentro de filmes, um olhar, uma cena de perseguição, um ou outro detalhe que um observador menos generoso não teria contemplado.


Cinema-memória

Se, por um lado, o cinema é aquilo que nos convida a viajar em direção ao desconhecido, ele é também aquilo que gera uma memória. Disso Bernardo também sabia, com certeza. Como programador e como crítico, participou da arquitetura daquilo que se poderia chamar de moderna cinefilia brasileira. Não morávamos na mesma cidade e não tive o privilégio de participar dos ciclos que ele idealizou na Cinemateca, quando esta ainda se aninhava no Masp, mas teria sido um privilegio usufruir desse seu desejo de compartilhar, que continuava tão vivo quando vim a conhecê-lo, muitos anos depois.

Se o cinema é movimento, é no entanto nas fotos de Bernardo tiradas por Carlos Adriano que reencontro muito daquilo que intuía dele. Como não se encantar, por exemplo, com a foto em que o vemos dentro da Cinemateca Francesa, pequeno à esquerda do quadro, como se sempre estivesse estado ali? A imagem lembra de certa forma o filme de Allen mencionado no inicio, ou um conto de Nabokov chamado “A Veneziana”, onde um homem se apaixona a tal ponto por uma mulher num quadro de Bellini, que acaba entrando na tela para viver aquela paixão até o fim. Na foto de Carlos Adriano, tenho a impressão de que Bernardo também mergulhou naquele prédio da Cinemateca Francesa para nunca mais sair dele...

Outras imagens: numa, o vemos sorridente ao lado do pôster de “Cantando na Chuva” e de tantos filmes que fizeram a história do cinema. Em outra, Bernardo está à beira do Sena, os livreiros fechados ao fundo, prenunciando um ritual de passagem. Mas as mais impactantes talvez sejam aquelas mais intimistas, que revelam que a paixão segundo Bernardo era a extensão de algo mais amplo do que o próprio cinema. De um lado, a generosidade do olhar. Do outro, o êxtase -não só o da tela, mas também aquele que ele buscava na vida cotidiana.


Último encontro

No final do ano passado, participei de uma palestra na Videoteca de Paris organizada pela revista “Nouvel Observateur”. Bernardo e Carlos Adriano estavam, por coincidência, filmando por lá. Havíamos tentado nos comunicar por telefone, mas os recados ficaram truncados ou se perderam nos nossos respectivos hotéis. Qual não foi minha surpresa ao vê-los no final do debate, discretos como sempre, me esperando para dar um abraço, lá no fundo da sala.

Desses anos em que tivemos contato fica a sensação de que nos vimos bem menos do que deveríamos. Talvez essa seja uma reação natural, que ocorre quando perdemos pessoas queridas. Foi a mesma sensação que a partida precoce de Augusto Boal me suscitou. E, agora, Bernardo.

Não lembro mais quem foi o escritor que disse que, quando dois adultos ficam amigos, são as crianças que moram dentro deles que acabam se encontrando. A criança que morava em Bernardo era única e insubstituível.

O viajante partiu. Retomando a frase de John Berger: “Cinema is perpetually about leaving”. Para mim, Bernardo e o cinema se mesclaram e se transformaram numa coisa única e indissolúvel.


Publicado em 9/9/2009

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Walter Salles
É diretor de cinema, realizador, de "Linha de Passe" (2008), "Diários de Motocicleta" (2004) e "Central do Brasil" (1998, Urso de Ouro no Festival de Berlim), entre outros. Seu próximo filme será "On the Road", inspirado no romance de Jack Kerouac.

 
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