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Se Brecht baixasse no Brasil, ficaria horrorizado ao ver como a cultura se transformou em mais um artigo na banca do mercado de vaidades e ilusões perversas, triunfo da vontade capitalista. Na indigência da terra devastada, se há alpinistas que sabem bem onde querem chegar, há os pára-quedistas que não sabem onde cair, mas acham.

Cinema não é mais a devoção de uma vida; é mais uma opção de carreira. Como enunciar propriamente o diagnóstico? Viver do cinema, de cinema ou para o cinema? Por outro viés, há a constatação de que o Brasil não cultua o melhor de sua memória, nem cultiva melhor a sua memória. E é tão ingrato e injusto a ponto de não só ignorá-la, mas até de apagá-la e sonegá-la. Por mesquinhez, ressentimento e outros sentimentos menos nobres, certos poderes provisórios sabotam a história e a memória.

O que seria pior? A má fé que deliberadamente ignora ou a ignorância que meramente desconhece? Deficiência e carência, voluntárias ou não, na formação e na informação, assolam o cenário atual de esperanças arrasadas. Haverá sempre escusas, como as exigências supérfluas e superficiais do mundo midiático e imediatista ou as demandas constrangidas de prazos e compromissos afeitos à afoita e defeituosa matriz humana. Mas há uma questão de direito ao respeito e ao reconhecimento histórico.

Zelar pela obra de alguém é manifestar o testemunho de sua memória. Há más versões da história, sintomáticas da malversação de informações que influi na má formação de gerações (e depõe contra a credibilidade de outras). São lapsos e relapsos, pessoais e institucionais, deliberados ou não. Numa época degradada e degradável, haveria expediente para atestar culpa no cartório de protestos contra a omissão e a espoliação da memória? A história se encarrega de fazer justiça? O tempo é mesmo senhor da razão?

Dá dó constatar casos de malversação do cinema e da memória, até mesmo em redutos supostamente insuspeitos e inesperados, acometidos por (des) interesses e descasos. Memória virou negócio, dilapidação e vilipendiação do patrimônio posto à venda sob o falso anúncio do fácil acesso e da falsa preservação. Memória virou moeda de troca na moenda inescrupulosa do marketing, subproduto de propaganda enganosa. O ideal de memória e o apelo à memória foram corrompidos pela desfaçatez da política, que faz dela álibi para falcatruas.

A memória seria mensal, como indica um governo ao apagar, em ciclos de folhinha, as imagens gravadas por câmeras de segurança que registram a circulação em sua sede? Não é só sacrificado o cotidiano terreno, até ambiciosas conquistas perecem sob o descontrole deletério, como prova a Nasa, que apagou o vídeo da chegada do homem à Lua. Digitalização implica compressão da informação no menor espaço possível. Seria a memória digital? Não é à toa que os sistemas de armazenamento, indexação e acesso de informações conheceram novos paradigmas com o advento dos computadores.

Mas, como o Brasil é mesmo um país tão rico de complexidades e cheio de promessas, não chega a ser criminoso nem desprezível o ato (despeito? desplante?) de um país e de a gente desse país que se dá ao luxo de ignorar o seu patrimônio e de maltratar sua memória. Seria o machadiano legado de nossa miséria?

Afinal, ter –no afeto íntimo da amizade, nos quadros funcionais da profissão, na esfera pública da cultura do país– um arquivo vivo de saberes deveria ser (para qualquer ente que se entenda como civilizado) razão de orgulho, pelo privilégio de tê-lo a nos orientar e iluminar, e não desvario de soberba, com a predileção desta pelo abismo e as trevas.


Imitação da vida

Bernardo sentia certo desconforto quando o chamavam de “monumento”, frisando a importância de sua atuação histórica em instituições que foram emblemáticas no tratamento da programação de cinema como forma de arte. Talvez o aspecto cerimonioso e sisudo do termo o incomodasse, como se o esplendor e a vivacidade humana fossem incompatíveis com a solenidade da magnificência e da posteridade.

Mas, revendo e reverenciando seu trajeto e seu trabalho, é impossível não se render à pertinência do “monumental” atributo histórico, assim como era impossível deixar de se encantar com seu elã vital e vigoroso. Programação de vida como forma de cinema. Bernardo levou uma vida que daria um filme, como se ela mesma já não tivesse sido um.

Como num reflexo condicionado e imediato, ele vivia articulando os filmes a que assistia em projetos ou exercícios de programação. Era impressionante ver como cada filme acionava seu repertório filmográfico e mobilizava suas pupilas degustativas para configurar alguma relação através de tempos, estilos, histórias.

Era fascinante vê-lo dispor em movimento os filmes juntos, constelações de programas, sessões imaginárias que poderiam cair na tela. O gesto, para além do compulsivo vício de ofício, demonstrava a forma como ele via o cinema: os filmes deveriam conversar entre eles, em diálogo ou confronto, e dessa conversa o espectador deveria compartir.

E era incrível, inacreditável, a extensão (e a prontidão) de seu repertório. Ele guardava na memória, naturalmente, sem esforço e sem forçação, o conhecimento de um dicionário, com nomes de filmes, diretores, técnicos, elenco, com marcas de cenas e marcos da história. Uma enciclopédia de cinema dentro da cabeça e na ponta da língua.

Como curador e cinéfilo, ele sentia uma carinhosa atração por filmes de improvável paradeiro e remota procedência e pelo que chamava de “pequenas obras-primas do cinema”, aqueles filmes que nos arrebatam sem estardalhaço, que passam despercebidos se a retina cansada só se impressiona com o estabelecido, o previsível, a rotina.

Talvez sua inteligência e sensibilidade singulares sequer foram intuídas. Bernardo compartia sua experiência arrojada e generosa de cinema sem arrogância, sem empáfia e sem empulhação. Foi alento e exemplo contra o conformismo e a mediocridade. Foi um dos últimos comunistas. Era um generoso radical de doçura. Agora, saudades de sua alegria; então, para cometer outra inconfidência e citar outro filme (2001, Pedro Costa) que ele adorava rever, sempre e incondicionalmente comovendo-se pela beleza intransitiva de cinema e humanidade (assim como a gente das Fontaínhas): “Onde Jaz o Teu Sorriso?”.

Ele apreciava sem moderação rotas de risco, assumidas com desabrida e aberta dose de coragem, no cinema, na vida. Sua morte brutal e imprevista deixa o traço do desapego com ele mesmo, com sua própria saúde, contra quem reza pelo prezar o prazer. Desregramento de todos os sentidos? Tardiamente vim a reparar que, a cada momento, ele exibia um fotograma velado que poderia me ensinar a ser gente, uma pessoa melhor, num mundo mais humano.

Um consolo (?): orgulho-me de ter merecido a benção de conhecê-lo na maior e melhor parte de minha vida. É provável que não mereça o que me deu e acolheu com tanta bondade, e posso até tê-lo decepcionado. No absurdo e milagre que é a existência humana, cabe a desconfiança: mereceria? Condenados a vagar pela terra prometida, agora serão sempre anos passados em Marienbad. Caprichos da contingência.

Para uma pessoa extraordinária como ele, o cinema era um jeito de celebrar a descoberta das maravilhas e suportar a condição misteriosa da vida. Mais que mediação, imantação da e pela imagem. O tempo da imagem virá pela ressurreição. O tempo da ressurreição virá pela imagem. Para sempre no desamparo da noite infinita em que foi convertida a vida, agora só me resta honrar e cultuar a memória de Bernardo Vorobow.


Publicado em 9/9/2009

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Carlos Adriano
É diretor de cinema e doutor em ciências da comunicação pela USP, realizador de "Remanescências" (coleção New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival) e "Militância", entre outros filmes. Com Bernardo Vorobow, é autor do livro "Peter Kubelka: A Essência do Cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 
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