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No começo do texto, mencionei de passagem a revelação que tive quanto à importância decisiva de Bernardo (que me deu meu primeiro emprego justamente numa cinemateca e cuja presença orientou meu gosto pelo cinema como arquivo infinito) no caminho que eu viria acabar seguindo na realização de filmes com e sobre materiais de arquivo.

São iluminações que só costumamos ter quando a escuridão se abate sobre nós. Em 2009, eu comemoraria 20 anos de resistência na realização de filmes experimentais e 15 anos de trabalho com filmes de reapropriação de arquivo. Mas (in)justamente neste ano ocorre a perda irreparável, inaceitável, inacreditável, insuportável. Se consegui produzir esses 10 filmes nos últimos 20 anos, foi em primeira instância, sobretudo, graças a Bernardo.

Sem menosprezar ou subestimar o apoio inestimável e o estímulo fundamental dos que me ajudaram a fazer os filmes e a exibi-los, dos que escreveram e pensaram sobre eles, dos que passaram a cultuá-los. A partir do segundo filme (o primeiro foi produzido na ECA, mas já lhe faz um agradecimento especial), todos foram produzidos por ele. Nunca cansei de declarar, ao apresentar minha obra, que de Bernardo dependiam as condições não apenas para a existência dos filmes, mas até mesmo para minha própria existência física.

Não me parece um acaso à toa que meu primeiro filme de “found footage” (o terceiro título de minha filmografia) tenha usado justamente a primeira imagem registrada na história do cinema brasileiro. “Remanescências” (1994-1997) opera sobre onze fotogramas de uma suposta filmagem patenteada em 1897 por Cunha Salles.

Em minha tese, expandi a operação do artista-meta-historiador a um corte no eixo das origens do tópico nacional. E comentei que não me agradava ver a desqualificação que historiadores impingiam à figura de Cunha Salles e seu papel fundador de nosso cinema. Transcrevo a justificativa e aponto uma solução ao problema histórico.

Por ser prestidigitador, médico, bicheiro e exibidor, pesquisadores não reconhecem ou nem admitem que o fragmento de filme que Cunha Salles depositou em 27 de novembro de 1897 no Arquivo Nacional (junto ao processo de patente para todo um sistema-cinema) possa ter sido filmado por ele, o que o creditaria como autor do primeiro filme nacional.

Se o argumento fosse baseado em exame técnico da película (formato da perfuração, divisão de quadro), eu até poderia achar aceitável uma contestação. Mas não porque sua veleidade multidisciplinar atestasse falta de seriedade ou de credibilidade, como a comprovar uma suposta condição atávica de eternos condenados macunaímicos.

Ora, prefiro ver que o tal nascimento do cinema brasileiro seja fundado sob a condição do “found footage”. Se a autoria do filme é questionável, é inconteste a apropriação que Cunha Salles fez de um filme (eventualmente produzido algures), pois ao registro do pedido de patente ele anexou um fragmento de filme.

Ele até pode ter mentido, e o filme não ter sido mesmo feito por ele –se assim for, eu adoraria que ele tivesse “roubado” o filme de Marey, “A Onda” (1891), com o qual guarda impressionante semelhança na composição do píer, dando outra conotação às ondas cuja essência remanesce (e é objeto de um filme inédito que fiz com Bernardo).

Portanto, a hipótese do meta-historiador-artista seria: o primeiro filme brasileiro não foi filmado e sim reapropriado, segundo o código “found footage”, do arquivo inaugural.

Nossos filmes de reapropriação de raros cineartefatos nacionais incluem: “Militância” (2001-2002), sobre a série para lanterna mágica feita por Militão entre 1874 e 1887; “Porviroscópio” (2004- 2006), sobre o único filme de Monteiro Lobato, feito entre 1932 e 1939; “Das Ruínas a Rexistência” (2004-2007), sobre os filmes inacabados de Décio Pignatari rodados entre 1961 e 1962; “Santoscópio = Dumontagem” (2007-2009), sobre um carretel de mutoscópio produzido pela Biograph em 1901 com Santos Dumont.

No momento de seu desaparecimento, estávamos começando a finalizar o corte crucial de um documentário de longa-metragem baseado no tema da tese. Com a retroprojeção dos paradoxos da ironia, nosso último filme unia duas paixões de Bernardo: cinema e aviação (seu pai, Gricha, piloto amador, protegeu-o de seguir esse plano de voo).

Considero “A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha” (1997-1998) um filme de “found footage”, apesar de não usar imagens de arquivo em movimento. Podemos tomar o filme em duas secções: a segunda constata a irreversibilidade do silêncio da morte e tenta acordar um renascimento alegórico no cemitério; a primeira traz, nos limites da legibilidade, recortes de jornal, fotografias, discos e documentos corroídos pelo tempo.

Mas se o tema em si foi um achado, a própria pesquisa que fizemos sobre o moleque do samba, que morreu aos 19 anos e gravou apenas 12 músicas, encerrou uma epopéia de descobertas, em ritmo sincopado e revelatório, na escavação de ruínas (do encontro de seus álbuns de recortes ao encontro de traços da família e da localização do túmulo).

Em 2000, fundamos a Associação Cultural Babushka. Por uma amorosamente forçada licença poética, o nome remete à matrioshka (boneca russa que contém bonecas sucessivamente menores em seu interior). A ideia era que nossa associação funcione como um efeito multiplicador interdisciplinar, originário de desdobramentos artísticos, uma caixa de surpresas para produzir encantamentos. E não só para produzir filmes.

Priorizando a arte radical e de exceção, inédita e desconhecida no Brasil, a Babushka fez várias mostras: Peter Kubelka, João César Monteiro, Yevgeniyi Yufit, filmes russos experimentais e de animação, Carlos Nader, e (com o É Tudo Verdade, curada com o crítico Amir Labaki) documentários experimentais brasileiros. Há ainda pelo menos quatro projetos de mostras engatilhados e prontos para exibição que, para honrar e merecer a obra de Bernardo, serão realizados.


A última sessão de cinema

Creio que uma das principais condições da (e para a) cinefilia é a curiosidade. Curiosidade desinteressada, isto é, apaixonada pelo gosto e o gesto de conhecer e compartir a revelação, sem intenção de recompensa a não ser aquela da satisfação generosa de que outros possam amar aquilo que amamos.

Bernardo acalentava uma curiosidade comovente pelas descobertas das coisas e pela beleza. Embora fosse de uma época de catacumbas de cinemateca, não era ludista; seu apetite guloso era de fino trato e requintado paladar, mesmo sabendo apreciar o improvável sabor de acepipes tidos como chulos ou de difícil digestão.

Nos últimos meses, ele curtia a possibilidade de ter acesso a filmes remotos no controle do computador. Para ele, que não conseguia conter o vasto amor pelos filmes, a internet oferecia um mar pronto para aportar ao comando de um clique. Como sabia demais de cinema, ele evidentemente sabia a diferença, e o valor da diferença, entre ver um filme em projeção em película (e em projeção digital) e ver um filme no computador.

Por que se furtar a ver filmes da Turquia ou da Coréia do Sul disponibilizados com critério no The Auteurs? O fascínio pela facilidade da internet não significava de maneira alguma comodismo nem abandono do ritual, do respeito e do prazer da sala de cinema. Todo dia ou toda noite, sagrada e consagradamente, Bernardo assistia a filmes, no cinema ou no estúdio da Babushka (onde temos uma rara coleção de DVDs).

Há uma tentação de arriscar um juízo final, ou zeitgeist. A nostalgia apegada ao tempo, e depois dele apagada (como costumam dizer sobre a Bossa Nova e um Rio de Janeiro que não existe mais). Sábios e felizes são aqueles que podem conhecer a terceira margem do rio; os que arranharam dedos nas grifas da moviola e viram uma cena sumir no cálculo algorítmico do arquivo digital. Os que puderam provar as delícias do cinema fotoquímico-mecânico sem rechaçar ou se iludir pelas promessas do cinema digital.

Mesmo com o manancial incomensurável de informações pelo qual se pode navegar (e naufragar) na internet, creio que não é mais possível formar programadores, ou curadores de programação, da envergadura e da estirpe de Bernardo. A abundância de dados não implica necessariamente constituição de repertório, pois hoje falta a capacidade crítica (juízo de escolha, ponderação de pensamento) formada com experiência e parâmetros mais exigentes. Sensibilidade e sabedoria não se ensinam, e custa aprender. Mas hoje falta, substancialmente, a alma gêmea do repertório: a generosidade.

Ao menos, no mínimo, faltam ainda três condições, confirmando a descrença. Ver filmes no computador não é como vê-los na tela de um cinema; faltam a dimensão de alcance e da textura de imagem e som, o ritual comunal e a cerimônia de ser iniciado a algo secreto e valioso, a compartir. Trocar fiapos de ideias no twitter não é como conversar na mesa ou balcão de bar; faltam a temperatura do corpo, o estado de espírito, a decantação do tempo destilado em filigranas e fotogramas, demasiado humanas. E, sobretudo, falta o afinal; eram outros tempos os dele, outra situação histórica, outro mundo.

Não ousaria cogitar de fazer uma lista dos filmes favoritos de Bernardo. Não porque ele não os tivesse. E nem porque ele não tivesse senso crítico de escolha. Mas, além de eu não ter sua procuração para isso, não cometeria a insânia de fazê-lo, perda de tempo pela própria dimensão milenar dessa insânia. Como resumir a paixão de uma vida a um número, a uma cifra? Seria mais uma questão de decifrar e recifrar, cultivar intacto o enigma e os mistérios dessa paixão. Botões de rosa não se abrem a qualquer um.

Aliás, cabe aqui uma ressalva: os intertítulos que permeiam este texto não aludem a filmes preferidos de Bernardo; eu os escolhi, sob minha conta e risco, segundo a mera tentativa de adequar e confrontar o teor de cada bloco a um clichê cinematográfico.

Citar sequer um só filme seria uma traição e uma injustiça a alguém cujo amor generoso pelo cinema nunca escolheu hierarquias nem se encolheu em segregações, nem professou exclusão. Mas creio que talvez possa dizer que um dos filmes que ele adorava rever, sempre e incondicionalmente comovendo-se pela beleza intransitiva de cinema, performance e música, era “Stop Making Sense” (1984, Jonathan Demme).

Cometo esta inconfidência ao lembrar que ouvimos, maravilhados, o comentário de Demme na trilha adicional (ah, os bônus extras dos DVDs), contando a confissão de Bernardo Bertolucci. O xará assistiu à projeção em Florença, e não só se comoveu com o filme mas sobretudo ficou encantado (e enciumado) com a reação dos espectadores, que deixaram as poltronas dançarem sob a tela, aplaudindo cada música como cena.

Justamente o diretor de “Beleza Roubada” (1996) tomou esta experiência como o ideal de um filme. Creio que tal história diz algo sobre o espírito de Bernardo e sua relação anímica e sensual com o cinema. E deixo de promover aqui a conexão com uma sessão que Bernardo programou de “Rocky Horror Show” (1975, Jim Sharman) à meia-noite, ainda nos anos 70 (Cinema Um?), quando os espectadores possuídos puseram a sala literalmente abaixo.


Tão cedo, tão tarde, ou não reconciliados

Falei da falta de repertório e de generosidade. É da dimensão do tempo que se trata. E que falta. Um tempo em que cinema era correlato de comunhão compartida, corolário de comunicação com o outro, certificado de pertencimento a uma mesma matéria de memória humana. Cinema como espaço-tempo de presença e vivência, projeção da experiência.

Um tempo em que assistir a um filme implicava necessariamente uma conversa sobre o filme. Por isso a mesa de bar era extensão natural da tela de cinema, não para arrotar teorias (pretensão enciclopédica juvenil) ou listas (contrassenso do censo infantil), mas para compartir emoções, reflexões, indagações.

Cinema requer tempo. Para fazer, para assistir, para refletir. Para entender e para que mereçamos que seja parte de nossas vidas. Para mim, Bernardo ensinou-me outra forma de ver e viver o tempo (e, por extensão, o cinema): sem pressa, sem pressão, sem pretensão. Com discernimento, divertimento e conhecimento (também de causa).

Acho que a triste época em que vivemos hoje é de fim, e de fins. Fim, porque quase não restam valores. Fins, porque quase não sobra moral. Também na produção e exibição de cultura. Ainda adianta repisar a desoladora situação de que trabalhar com cultura virou mais uma profissão na bolsa do mercado? Que cultura virou arrimo de arrivistas, de gente que ignora a cultura, mas se agarra à oportunidade do alpinismo social?

 
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