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Em 21 de abril de 1973, Paulo Emilio publicou no “Jornal da Tarde” um artigo em que dizia: “Os exibidores se esqueceram desse filme”, e citava a exibição de “Bang Bang” (1971, Andrea Tonacci) ocorrida na SAC, na semana anterior. Em junho, o filme seria lançado na sala Villa Lobos do Belas Artes. Andrea abriu-me seus arquivos, e a evidência da lógica do artigo bastaria para ver a contribuição de Bernardo no caso, mas há mais.

Nelson Aguilar frequentava o Riviera e “estava a par de tudo o que acontecia” nas três salas do Belas Artes. Sabendo de uma brecha na grade de programação, e contando com a ajuda de amigos (Regina e Boris Schnaiderman, Pola Vartuck, Roman Stulbach), Nelson, como produtor do filme, decidiu falar com Dante. O curador e professor de história da arte ressalta que Bernardo deu “a maior força”.

Ainda paralelamente aos trabalhos na SAC e aos estudos na ECA, Bernardo foi convidado pelo professor Walter Zanini, então diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP, para ser o coordenador de cinema do MAC, atuando ali de 1972 a 1976. Foi quando começou a se dar a ver pela primeira vez, ao menos em São Paulo, de forma consistente e orgânica, a produção de filmes dos artistas plásticos. Exercício experimental da liberdade.


E la nave va

Novas e renovad(or)as ondas de programações arrebentaram no concreto dos Jardins e arrebataram levas nada vagas de espectadores, construindo e consolidando, de 1975 a 1985, outro marco incontornável, numa localização até ali inóspita para tal iniciativa. Bernardo foi convidado por Rudá de Andrade, fundador e diretor do Museu da Imagem e do Som, para criar, organizar e dirigir o setor de cinema do MIS, na avenida Europa.

Continuando e expandindo a curadoria de generosidade cinefílica com que fazia proezas nada prosaicas na SAC, a programação de Bernardo no MIS faria história. Embora o estatuto mítico reze que a lenda não é da ordem da realidade, o tempo de SAC e de MIS existiu mesmo de verdade e foi de fato lendário. Ele era uma espécie de “one man band show”, que se responsabilizava por todas as fases, nos mínimos detalhes, do processo e citadas naquele sinóptico esquema das tarefas que envolvem uma programação.

Como fez na SAC, o cinema do MIS era uma sala aberta para os cineastas. Da mais radical estirpe experimental ao mais simplório gênero de “pornochanchada”, todo o cinema brasileiro tinha abrigo garantido no abraço generoso (afetivo, erudito e sem preconceito) de Bernardo. Para ele, o MIS era entidade de serviço e utilidade pública. Diretores e produtores de todas as tendências e de todo o país procuravam Bernardo, ou eram por ele procurados, para cabines, lançamentos, sessões e mostras em São Paulo.

Eu ousaria arriscar e apostar que não houve um diretor ou diretora de cinema brasileiro sequer, nos anos 70 até meados dos 80, que nunca tenha exibido seu trabalho (ainda enquanto copião filmado ou pré-montado ou já como cópia final) nas salas de projeção da SAC e do MIS dirigidas e programadas por Bernardo.

Como na SAC, no MIS não eram só os produtores que se beneficiavam de seu trabalho, com os filmes expostos, mas também os consumidores, que formavam e ampliavam seu repertório por meio das programações que realizava, graças às suas conexões com produtoras, distribuidoras, acervos diplomáticos, arquivos estaduais e cinematecas, e também com a imprensa. Uma lista seria exaustivamente extensa; e injusta por involuntariamente deixar de citar incontáveis programações notáveis.

Ele fez inúmeras mostras com os consulados da França e do Canadá. Sob os auspícios do Instituto Goethe, um de seus parceiros constantes, exibiu filmes da Alemanha Democrática da e Federal, recepcionou Werner Herzog em sua primeira visita e fez a primeira (e até hoje única) retrospectiva de Straub-Huillet no país. Outros parceiros frequentes eram os consulados americano (que lhe deu uma mostra de filmes, fotos e cartazes de John Huston) e italiano (que lhe trouxe uma retrospectiva de Rossellini).

Somando suas programações na SAC às que fez no MIS e às que faria na Cinemateca, ele exibiu ciclos de cinematografias até então inéditas no Brasil, como Albânia, Angola, China, Cuba, Hong Kong, Finlândia, Israel, México, Moçambique, Nicarágua, Palestina e Taiwan, além de mostrar ciclos de cinematografias como Dinamarca, Espanha, Holanda, Japão, Polônia, Portugal, Suécia, Tchecoslováquia, União Soviética. Sem falar nas retrospectivas de diretores, técnicos, artistas, e ciclos temáticos e conceituais.

Décadas antes de se falar em “nichos” e “segmentação de mercado”, Bernardo enchia os corredores do MIS com um público idoso, cativado com séries regulares sobre dança. Atendendo a uma demanda reprimida dos anos 70, exibia os filmes de brasileiros feitos no exílio. Programou um curioso ciclo com trailers de filmes. Sem ainda conhecê-lo pessoalmente, frequentei, anônimo e atônito, muitas maratonas estonteantes de cinema nacional no MIS, no começo dos anos 80.

Eram sessões que varavam tardes e noites e valiam por cursos intensivos sobre a produção contemporânea e a histórica. Pude testemunhar momentos inesquecíveis (e aflitos, para quem concorria por um lugar no auditório), que se repetiam por todos os fins de semana. Sessões lotadas e disputadas, com muitos jovens deitados por todo o palco, sob a tela de cinema. Não estou falando de um evento pontual, como viraram festivais no espetáculo dos calendários; era uma programação normal, regular, do dia a dia.

Há muitas histórias esquecidas, que atestam a repercussão do setor de cinema dirigido por Bernardo. Um rastro de termômetro, ou sismógrafo: a célebre entrevista de Cacá Diegues à crítica Pola Vartuck, publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, em agosto de 1978, que lançou a polêmica das “patrulhas ideológicas”. Foi feita a propósito de uma sessão de imprensa no MIS para lançar “Chuvas de Verão”, que a Embrafilme pediu a Bernardo. Após a cabine, ele levou cineasta e jornalista para conversarem no Pandoro.

Por seus nexos de operação, Bernardo mantinha relações em diversas esferas, de produtores a exibidores, de diretores a críticos, de adidos diplomáticos a secretários do governo do Estado e do município. Participou da fundação do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (1969), da votação da crítica do festival Sesc desde o início (1974) e de comitês de produção e seleção de curtas do Concine e da Embrafilme. Fez uma ponta em “A Casa das Tentações” (1975, Rubem Biáfora), filme do crítico (1922-1996) que gostava de cozinhar salsichas para ele.

No arco que vai de SAC e MAC a MIS e Cinemateca, por mais de quatro décadas, Bernardo exerceu um sacerdócio heterodoxo, ao rezar pela animação fulgorosa sem abjurar do respeito fervoroso, graciosa (e gostosa) devoção ao cinema. E, sem cometer heresia, pode-se dizer que pontificou não apenas na curadoria de programação de filmes. Ele foi, diga-se sem favor ou temor, uma referência forte na (para usar um termo que alcançaria um paroxismo inimaginável àquela época) consultoria de questões do cinema.

Pelo cúmulo de repertório e contatos acumulados, Bernardo fornecia graciosamente informações preci(o)sas sobre o tal caminho das pedras. Muita gente que hoje atua como referência, ou como consultor, informal ou profissional, bebeu de sua fonte, direta e literalmente, durante conversas “despretensiosas” em mesa de bar. Creio que alguns não ousariam negar os ensinamentos generosos de Bernardo, embora outros possam ter se esquecido ou possam ter feito questão de se esquecer.


Aviso aos navegantes

Em 1981/82, Bernardo foi convidado por Maria Rita Galvão, professora de história do cinema da ECA e histórica diretora da Cinemateca Brasileira, para criar o departamento de difusão e divulgação da Cinemateca, o qual chefiou até 1990. Além de organizar um sistema de difusão das cópias do acervo e fazer divulgação pela imprensa, ele curava programações, mesmo que a Cinemateca não tivesse uma sala própria adequada.

Ou que fosse “inapropriada”, porque o que ele tinha para programar era uma salinha chamada de Studio Conceição, que funcionava no parque público da Conceição (bairro do Jabaquara), onde era a sede da Cinemateca. Mas nesse Studio só havia projeção 16 mm. O que não o impediu de realizar ali mostras memoráveis e concorridas, com filmes do acervo e de fora, como um ciclo de produções antigas da Fox Films.

Bernardo não se furtava a fazer parcerias com outras instituições e empresas exibidoras para programar mostras em 35 mm, promovendo as programações da Cinemateca nas mais diferentes salas da cidade. Paradoxal e curiosamente, essa dispersão (por várias salas) e essa carência (de sala própria) geravam um fator positivo, uma sensação de onipresença dinâmica da Cinemateca dentro do circuito exibidor de São Paulo.

Outra vez, a citação de mostras seria extensa e injusta. Mas apenas para se ter uma ideia, em menos de dois anos, Bernardo programou um ciclo de Joris Ivens no cine Paramount, uma mostra de “film noir” no cine Arouche, um ciclo de Jean-Luc Godard no cine Coral, uma mostra de filmes poloneses no cine Metrópole e uma retrospectiva de Julio Bressane no Masp.

Poderia citar parcerias posteriores com Adhemar de Oliveira, pioneiro no circuito do cinema de arte e o principal exibidor em atuação no país. Na primeira visita de Liv Ullmann a São Paulo, Adhemar abriu a sessão no Espaço Unibanco de Cinema, creditando a Bernardo a apresentação da mostra em homenagem à consagrada atriz e diretora então estreante.

Bernardo teve uma participação no processo que levou a Cinemateca a ter uma sala de exibição própria, justamente por seu longo trabalho com distribuidoras e exibidoras. Ele conhecia Robert Valancy, dono da Franco-Brasileira, proprietária do Cine Fiametta, que, em 1989, virou a Sala Cinemateca, em Pinheiros. Nessa época, o diretor era Carlos Augusto Calil, que foi conselheiro da Cinemateca e diretor da Embrafilme e é professor na ECA e secretário de Cultura do município.

Nos anos 90, Bernardo programou muitas mostras memoráveis na Sala Cinemateca que, não com pouca frequência, eram matérias de capa nos cadernos culturais dos dois principais jornais de São Paulo e atraíram legiões de espectadores, como (para ficar só em dois exemplos) uma retrospectiva de François Truffaut em pleno Carnaval e um ciclo incomum de cinema e pintura. Também lançou filmes que nenhuma sala do circuito exibidor ousava lançar, como “Smoking/No smoking” (1993, Alain Resnais).

Para evitar a extensão demasiada deste texto, não caberia mencionar sua atuação nas salas Cinemateca de Pinheiros e da Vila Clementino, até porque se espera que, afinal, eventos dos recentes anos 90 e 2000 ainda estejam frescos na curta e esquecida memória nacional, e seus registros possam até estar mais acessíveis na internet do que décadas anteriores. Por outro lado, há testemunhos (alguns tocantes) espalhados na internet em que gerações de jovens e antigos cinéfilos rendem tributo às programações de Bernardo.

Ele nunca deixou o setor de programação da Cinemateca e nem deixou de fazer programações ali. Sua última curadoria (em que fez concepção, produção, programação e divulgação) foi a primeira retrospectiva completa dos filmes e vídeos de Carlos Nader (abril), quando, para o debate de abertura, trouxe do Rio de Janeiro o poeta Antonio Cicero e o músico Caetano Veloso. E a retrospectiva e o seminário sobre Jean Rouch (junho) só aconteceram em São Paulo e na Cinemateca graças a Bernardo, que, durante uma viagem a Paris, estabeleceu a parceria com o organizador Mateus Araújo Silva.

Mas talvez caiba uma nota sobre algo que pode não ter registro. E envolve aquela qualidade de um programador com vocação de cinemateca. Parte significativa do acervo de filmes da Cinemateca Brasileira foi formada por Bernardo, com cópias que ele mesmo produziu e com cópias que ganhou de diretores, produtores e embaixadas (em agradecimento e reconhecimento por uma cabine, sessão, estréia, mostra). Ele poderia ter feito contratos de depósito, ao menos para legitimar protocolarmente a sua doação.


Toda a memória do mundo

Bernardo gostou quando lhe contei sobre a constelação que eu iria projetar na tese de doutorado, aplicando ao meu conceito de “cinema de reapropriação de arquivo” os conceitos de “meta-história” e “cinema infinito” do cineasta de vanguarda Hollis Frampton (1936-1984). Posso dizer que Bernardo seria um perfeito metaprogramador-arquivista dessa coleção de fotogramas que dão forma e decantam o mundo.

 
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