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dossiê
BERNARDO VOROBOW
Nas curvas da estrada, com Bernardo ![]() Bernardo Vorobow diante de cartaz do filme "Cantando na Chuva", em Nova York, em 2004
Foto: Carlos Adriano Agitador cultural foi decisivo para o aprimoramento técnico e sensível de vários cineastas da minha geração Conheci poucas pessoas na vida que amaram tanto o cinema como Bernardo Vorobow. Na época em que nos conhecemos, ele ainda estudava na ECA-USP e vivíamos nos esbarrando pelos cinemas do centro da cidade. Na virada dos anos 70, Bernardo começou a frequentar a Boca do Lixo, estimulado por sua admiração e convivência com Ozualdo Candeias. Foi quando ficamos mais próximos e começamos a nos ver com mais assiduidade. Uma característica rara e preciosa de sua personalidade chamava logo a atenção: o sorriso imenso, franco e a enorme satisfação de aglutinar pessoas interessadas em discutir e pensar o cinema como meio de expressão relevante. As expressões “agitador e/ou animador cultural” e “compartilhamento de conhecimento” não faziam parte de nosso cotidiano e não seria exagero dizer que Bernardo foi um dos pioneiros a lhes dar sentido. Nos anos 70, Bernardo transformou uma pequena sala no subsolo do cine Belas Artes no reduto avançado dos pesquisadores e estudiosos de cinema, levando adiante os ensinamentos de seu mestre Paulo Emílio Salles Gomes. Incorporou, sem nenhuma pompa ou circunstância, o espírito prospectivo de Henri Langlois e Jacques Ledoux. De certa maneira, foi decisivo para o aprimoramento técnico e sensível de vários cineastas da minha geração; meu, inclusive. Foi na salinha do Belas Artes que Rogério Sganzerla descobriu os filmes de Yoshishigue Yoshida e depois ousou filmar "Copacabana, Mon Amour", usando a lente cinemascope e a câmera na mão. Foi naquele pequeno promontório fílmico que Luiz Rosemberg Filho mostrou, pela única e última vez e para pouquíssimos amigos, o magnífico longa-metragem "Imagens", cujos negativos desapareceram misteriosamente meses mais tarde no Rio de Janeiro. Foi lá –em 1974- que pude filmar minha pequena homenagem a generosidade gigante de Bernardo, numa sequência-chave de "Lilian M - Relatório Confidencial". Ele, que tanto amava "Corrida em Busca do Amor" (sei lá as razões!), aparece esparramado numa poltrona, rindo a valer, enquanto o filme é projetado para uma platéia às moscas. A cena diz tudo. Para Bernardo não importava o volume de público. Um ou dois espectadores atentos e interessados justificavam todo o carvão ou energia despendida durante a projeção. Ora, essa sempre foi a filosofia altruísta de visionários como Langlois e Ledoux. Pude acompanhar de perto dois ou três encontros dele com outra figura fundamental da cultura cinematográfica brasileira: Maurice Legeard. Reproduzo abaixo o diálogo que testemunhei conduzindo ambos pela via Anchieta, em direção a Santos, onde ficava a cinemateca de Maurice. Bernardo olha a estranha mansão em forma de castelo, pela fresta da janela. - Conheço esse lugar! - É o chateau de "Amor Livre" ("L´Eau à la Bouche"), diz Maurice, antecipando-se ao outro. - Agora só falta ouvir “Jesus, Alegria dos Homens” e o casal se enroscando na cama... - Bach deve ter se revirado na tumba! - Que nada, a blasfêmia –no caso– foi poesia fina. - Pois é. Valcroze nunca foi enxergado como grande diretor que era. A Nouvelle Vague nasceu com ele. - O cinema moderno deve muito a Valcroze. Intrometo-me na conversa: - Minha geração deve tudo a ele. Foi com o "Cahiers du Cinéma", editado pelo Valcroze, que aprendemos a entender o cinema e a filmar. - É sempre assim. Valoriza-se a obra e aqueles que a fazem e muito pouco os que nos estimulam a conhecer, entender e apreciá-la. O tom de Maurice não denota ressentimento, mas uma certa angústia. Bernardo cortou os poucos segundos de silêncio daquela conversa (num dialeto quase estratosférico) com sua risada deflagradora: - Carlão, pare no primeiro bar que você encontrar. Precisamos brindar todos os nossos mentores essenciais que se ausentaram antes da hora e que, como disse o Maurice, serão esquecidos na mesma velocidade em que as obras - que eles nos ensinaram a entender - for valorizada. Proponho uma vodka! Maurice arremata: - Eu, um genebra! É óbvio que o diálogo não foi literalmente este, mas juro que o teor foi o mais fiel possível. Poderia me estender longamente sobre as quatro décadas de convivência com o exultante, passional e formidável amigo, que apelidei carinhosamente de “o último soviético”, de sua reconhecida militância em defesa da memória cinematográfica, de sua paixão pelos experimentadores, pela dedicação à pesquisa e prospecção filmica, pela divulgação obstinada de cinematografias obscuras, de sua euforia em “socializar” as pepitas que colhia na “garimpagem” constante e –sobretudo– a respeito do gigantesco amor que nutria pelos excluídos e deserdados; mas prefiro –com certa dose de egoísmo- reter na memória o sorriso subversor com que abraçava os amigos mais queridos. Bernardo constrangia nosso possível mau humor ou qualquer resquício de ressentimento com a humanidade. Guardo na memória um fragmento antológico de seu curta-metragem “Ovo de Codorna" (que ele –estranhamente- fez questão de esconder durante décadas). Bernardo dá vez à voz de uma prostituta da Boca do Lixo. Senta na calçada e esvazia uma garrafa de conhaque com ela. Ficam abraçados e –se não estou enganado– trocam beijos. Finalmente, arrisca a pergunta que não quer calar: “Você já andou com esse caras do cinema?”. Ela responde que sim. “E eles são bons?”, pergunta Bernardo. Bom era você, querido Bernardo!
. Carlos Reichenbach
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