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SUL-NORTE
A discípula argentina de Scorsese ![]() Cena do filme "Uma Semana Sozinhos", de Celina Murga
Reprodução A premiada diretora Celina Murga conta como conquistou o apoio do cineasta americano para seu segundo filme, "Uma Semana Sozinhos" Um primeiro filme premiado em diversos festivais internacionais e o apoio incondicional de Martin Scorsese na segunda experiência atrás das câmeras, "Uma Semana Sozinhos". É com esse histórico que a cineasta argentina Celina Murga tem sido apresentada nos eventos cinematográficos dos quais participa em todo o mundo. Murga e Scorsese se conheceram por meio do The Rolex Mentor and Protégé Arts Iniciative, um programa no qual jovens talentos se tornam alunos de experientes artistas. Durante um ano, ela trabalhou ao lado dele no set de filmagem e na sala de edição do próximo filme do diretor, "Sutter Island". “Fui entrevistada por Scorsese, que acabou me escolhendo para ser sua discípula. Ao longo de nossos encontros, que ainda acontecem, compartilhamos nossas experiências”, conta a diretora. Além disso, Scorsese tem ajudado no roteiro do terceiro longa da diretora, cujo nome será “La Tercer Orilla del Rio”. Embora tenha o mesmo título de um conto de Guimarães Rosa (“A Terceira Margem do Rio”, do livro “Primeiras Estórias”), ela diz que o projeto não se baseia no escritor mineiro: “O título se refere a uma zona indefinida, talvez inexistente, e o filme será filmado em uma província rodeada por rios.” “Uma Semana Sozinhos”, que estreou nos cinemas argentinos em junho deste ano e foi exibido no último mês em São Paulo no Festival de Cinema Latino-Americano, conta a história de adolescentes que moram em um condomínio fechado, observados apenas por um babá e longe de seus pais. De acordo com Murga, o interesse em abordar o universo adolescente se deveu às mudanças muito ricas dramaticamente que ocorrem nesta fase da vida e ao fato de as crianças e os adolescentes refletirem o mundo que os rodeiam. Premiada no Festival do Rio e no Festival de Veneza com “Ana y los Otros” (2003), seu primeiro longa-metragem, a diretora conta em entrevista por e-mail a Trópico como é pertencer à mais talentosa geração de cineastas já surgidos na Argentina _e que inclui, entre outros, Daniel Burmán, Pablo Fendrik, da mesma geração que ela, além de Pablo Trapero e Lucrecia Martel, mais velhos. Paixão é a palavra que Murga, admiradora de Glauber Rocha, utiliza para explicar por que o cinema de seu país tem sido tão fértil e bem-sucedido. "Na Argentina, filmamos do jeito que for possível, com os recursos que temos. Existe uma grande paixão e uma forte determinação que movem todos os jovens diretores argentinos. Isto pode ser um risco como também uma vantagem", diz. * O filme “Uma Semana Sozinhos” aborda as mudanças que ocorrem durante a adolescência. O que mais te chama atenção nesta fase da vida? Por que decidiu mostrá-la em seu novo filme? Celina Murga: A infância e a adolescência são as etapas da vida nas quais ocorrem as mudanças mais ricas dramaticamente; momentos nos quais se passam muitas coisas internamente, mas, em geral, não é dada muita atenção a elas ou são poucos valorizadas. Além disso, creio que as crianças e os adolescentes refletem o mundo que os rodeiam. Assim, por meio do olhar deles, eu consigo abordar outros temas.
Murga: Escolhi ambientar o filme em um “bairro fechado” por que me pareceu mais adequado para falar sobre os temas que excedem os limites desse tipo de lugar. Um dos temas que mais me inquietam é a forte tendência de polarização social, a segregação, algo observado em várias cidades da Argentina. No entanto, a heterogeneidade de uma cidade não é tão evidente nem tão extrema. Dentro dos condomínios fechados, essa tendência social é mais visível, mas de nenhuma maneira penso que são questões que só ocorrem nestes espaços.
Murga: De alguma maneira, diria que é, sim, um reflexo dessa tendência social. Mas também acho que seja algo um pouco mais complexo. Vejo que hoje em dia muitos pais querem ser eternamente jovens, ter uma relação mais de amizade do que de autoridade com seus próprios filhos e evitar determinar limites... Em contrapartida, os filhos querem parecer mais velhos e tomar atitudes adultas, por meio da antecipação da sexualidade, do uso de roupas sensuais etc.
Murga: Eu conheci Scorsese por meio do programa The Rolex Mentor and Protégé Arts Iniciative. Fui entrevistada por ele, que logo me elegeu para ser sua discípula. Quando isso aconteceu, "Uma Semana Sozinhos" já estava pronto. Mas, como ele gostou muito do filme, decidiu me ajudar, colocando o seu nome nos créditos iniciais e no material de imprensa da produção.
Murga: Eu ainda estou frequentando as “aulas” de Scorsese, cujos filmes sempre admirei, desde os meus anos de estudante. Não se trata de classes formais, mas sim de um compartilhamento de experiências, o que nos ajuda a criar um vínculo humano e criativo. Eu aprendo muito ao observá-lo trabalhando com sua equipe no set de filmagem e também na sala de edição. Além disso, ele tem me ajudado no roteiro do meu próximo longa, que irá se chamar “La Tercer Orilla del Rio”.
Murga: Eu nasci em Paranà (capital da província argentina Entre Rios, localizada a 480 km da capital argentina), onde foi filmado “Ana y los Otros”. Vivo em Buenos Aires desde os meus 15 anos, quando fui para lá estudar. No entanto, a cidade não tem ainda algo que me atraia visualmente, enquanto que em outros tipos de ambiente, mais calmos, há histórias e personagens que me interessam.
Murga: Foi realmente uma surpresa. Não havia nenhuma expectativa do que poderia acontecer com o filme. Na realidade, foi feito para atender a um desejo meu. Assim, fiquei muito feliz com toda a repercussão (“Ana y los Otros” conta a história de uma mulher que, depois de morar em Buenos Aires, retorna a sua cidade natal, onde encontra os velhos amigos, o que a fez repensar sua vida).
Murga: Um pouco. Com o segundo filme, surgiu um outro tipo de consciência sobre o que estava fazendo. De alguma forma, passei a pensar o que os outros esperariam do meu novo filme. Mas acredito que a pressão mais forte é sempre a interna.
Murga: Dirigir, já que me considero mais diretora do que roteirista. Dirigir implica um contato mais forte com a realidade. Quando você está em um set para filmar, por mais que exista um roteiro, a realidade diante da câmera pode se mostrar diferente. Em um set, o imprevisível pode ser positivo para a história e para os personagens. Além disso, dirigir é uma atividade que exige trabalho em equipe, algo que eu valorizo bastante.
Murga: “Uma Semana Sozinhos” custou cerca de US$ 700 mil (cerca de R$ 1,4 milhão). A lei de fomento ao cinema na Argentina é muito boa. No entanto, para os jovens diretores nem sempre é fácil conseguir dinheiro. Para “Ana y los Ostros”, não tivemos apoio do Estado no início, algo que aconteceu somente depois de o filme ser bem recebido no exterior. Por isso, contamos com o aporte financeiro de muita gente. Para a produção de “Uma Semana Sozinhos”, contamos com o apoio do Incaa (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales). Murga: Ao contrário. Acredito que muitas vezes ter um grande orçamento pode ser prejudicial para o filme. Para mim, o mais importante é a história a ser contada e o que se passa com os personagens. Às vezes, uma estrutura muito grande pode fazer com que tudo isso perca o foco, uma vez que os interesses envolvidos no filme podem se tornar mais importantes.
Murga: Existe uma lei na Argentina, mas ela, lamentavelmente, não é cumprida (em 2004, o governo argentino determinou que os exibidores são obrigados a exibir produções nacionais por um período determinado e mantê-las em cartaz caso atinjam a média mínima determinada – isso depende da quantidade de cópias lançadas). Se me coloco no lugar dos exibidores, consigo entender por que não os interessa o cinema argentino. É óbvio que eles ganham mais dinheiro com os blockbusters hollywoodianos. Eles não pensam que o cinema é um elemento cultural importante para um país. Trata-se de um assunto muito sério, uma vez que, a cada ano que se passa, fica mais difícil exibir filmes argentinos. Mas, creio que o Bafici (Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, criado em 1999) é um excelente exemplo de que existe público para filmes nacionais e mais autorais.
Murga: Não conheço muito bem como é a realidade brasileira. Na Argentina, todavia, filmamos do jeito que for possível, com os recursos que temos. Existe uma grande paixão e uma forte determinação que movem todos os jovens diretores argentinos. Isto pode ser um risco como também uma vantagem. Murga: Faço parte de uma associação chamada PCI (Projeto de Cinema Independente, em português), formado por muitos diretores jovens. Isto faz com que troquemos muitas ideias e, de alguma maneira, nos ajudemos também.
Murga: Sim. No entanto, embora algumas ideias e objetivos sejam semelhantes, cada um dos cineastas mantém uma individualidade estética e temática.
Murga: Acredito que seja necessário tentar criar laços de produção e de exibição mais estreitos em toda a América Latina. Para mim, trata-se do principal tema a ser discutido entre todos aqueles que trabalham em qualquer área cinematográfica.
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