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Por outro lado, pontuou: “Quanto às limitações do estudo ser retrospectivo, o fato de termos feito duas avaliações separadas pelo período de um ano ajuda a compreender se os resultados se devem a um corte pontual no tempo, ou se existe consistência nas pontuações. Além disso, ao lado dessa ampla e rigorosa bateria de testes reconhecidos internacionalmente, fizemos também entrevistas em profundidade com os sujeitos, e conhecemos suas histórias de vida”. E assim, concluiu, otimista: “Nossos dados indicam que, além do consumo crônico de ayahuasca não causar nenhum tipo de problema, provavelmente traz benefícios, atuando como um fator de proteção psicopatológico e neuropsicológico. Precisamos urgentemente desenvolver protocolos clínicos para investigar os potenciais terapêuticos da ayahuasca”.

Essa foi uma das apresentações mais importantes do evento. A pesquisa deve ser publicada no segundo semestre deste ano no livro “Ayahuasca y Salud” e numa série de revistas especializadas. Com certeza vai chamar a atenção da comunidade acadêmica, pois tenta avaliar todos os aspectos da saúde biopsicossocial, contém uma boa mostra de sujeitos e um grupo controle de comparação, o que nem sempre é fácil conseguir fazer. (As investigações realizadas até o momento foram: a “Farmacologia Humana da Hoasca”, de Charles Grob e outros, de 1996, com 15 membros da UDV; a pesquisa de Evelyn Doering Xavier da Silveira e outros, de 2003, que compara 40 adolescentes da UDV com um grupo controle, e a de John Halpern e outros, de 2008, com 32 daimistas da comunidade do Oregon).

Não é à toa que havia no congresso três pesquisadores brasileiros interessados em desenvolver uma pesquisa de doutorado sobre o Ideaa –o que talvez seja muito cacique para pouco índio.

A interação da ayahuasca com a ingestão simultânea de determinados psicofármacos foi outro foco de interesse do encontro. Psicólogos, psiquiatras e condutores de cerimônias especularam sobre questões como: “Devemos proibir o consumo de determinados medicamentos psiquiátricos antes ou depois das sessões?”, “Com o consumo gradual da ayahuasca a tendência é que a dose da medicação diminua?”.

Luís Fernando Tófoli e Francisco Assis, membros do Departamento de Estudos Médicos (Demec), da UDV (União do Vegetal), apresentaram achados inéditos sobre um sistema de vigilância epidemiológica criado pela UDV em 1994 que detectou o caso de 29 pessoas do grupo que apresentaram sintomas psicóticos entre 1994 e 2007. De acordo com eles, “a grande maioria de casos ocorreu em sujeitos com traços psíquicos predisponentes”.

Para os autores, os dados são tranquilizadores, pois “a proporção das pessoas que apresentaram sintomas psicóticos entre os que consomem ayahuasca na UDV é no máximo equivalente e provavelmente menor do que a taxa de incidência de psicose achada na população brasileira em geral”. Noutras palavras, isso significa, ainda de acordo com eles, que “desde que haja um cuidado prévio ao se avaliar os que virão a beber o chá pela primeira vez, o consumo da ayahuasca é relativamente seguro quanto à indução de surtos psicóticos”.

Outro dado interessante compartilhado pelos pesquisadores para uma platéia curiosa é que, do ponto de vista empírico, a UDV, contrariando o que tinha sido relatado pela literatura científica até o momento, não tem encontrado problemas maiores em relação ao consumo de ayahuasca junto com determinados medicamentos inibidores de recaptação de serotonina (alguns tipos de antidepressivos). “Isso não significa que tudo é válido. Cada caso é um caso, e precisa haver um acompanhamento de perto”, alertam.

Ambos os psiquiatras, membros da UDV, dizem que “é preciso ter cuidado para não medicalizar o uso da ayahuasca. O lugar do sagrado deve ser respeitado. O médico e o mestre dialogam, mas, no limite, a decisão é do mestre”. A publicação do texto integral deve sair no livro “The Globalization of the Uses of Ayahuasca”, previsto para o ano que vem.


Ética, legislação e patrimônio cultural

Um último conjunto de temas que me chamou a atenção diz respeito à relação entre medicina tradicional, ética, legislação e patrimônio cultural. Eu apresentei um trabalho que tecia reflexões sobre as dificuldades do estabelecimento de um consenso universal do que seriam padrões éticos do consumo da ayahuasca, assim como de uma legislação unívoca para a mesma.

Por exemplo, enquanto no Brasil permite-se o uso religioso da ayahuasca e se condena o seu uso terapêutico, no Peru o debate público situa a ayahuasca como parte da medicina tradicional dos povos indígenas e exalta suas virtudes terapêuticas –embora seja, é claro, difícil delimitar claramente fronteiras e limites entre o uso “terapêutico” e o uso “religioso”. Já a França considera a ayahuasca uma droga perigosa e proíbe o seu uso, ao mesmo tempo em que classifica várias manifestações culturais e religiosas como “seitas”, perseguindo-as. Em outros países, há um vácuo legal, e estratégias específicas de legalização foram discutidas.

O espanhol Jerónimo M. M., de 36 anos, está fazendo um filme sobre a ayahuasca em parceria com o canadense Mark Ellam há nove anos. Já andou por tudo quanto é canto, mas não conclui o projeto, assemelhando-se àquele conto do Borges sobre o mapa do império, que, de tão perfeito, acabou virando do tamanho do próprio império. “Ainda me faltam os capítulos da Colômbia e Equador...”, diz, rindo de si mesmo.

Jerônimo é uma simpatia e é um verdadeiro entusiasta do trabalho do Takiwasi, onde já fez várias “dietas”. Em sua apresentação, relatou a prisão do argentino Alberto J. Varela, que ocorreu em janeiro deste ano, em Madri. Segundo ele, “várias pessoas já haviam alertado este sujeito de que suas enormes páginas de propaganda colocadas em jornais de grande circulação na cidade e seu esqueminha comercial de servir a ayahuasca era problemático. Ele estava abusando. Então deu no que deu. Por conta de uma pessoa assim, todos nós somos prejudicados”.

Jerónimo, que andava chacoalhando a cabeça um pouco sem fôlego, dizendo ter participado na noite anterior “da sessão de ayahuasca mais forte da minha vida”, contou que a prisão do argentino mobilizou uma movimentação, apoiada pela associação Eleusis, da realização de algumas reuniões para refletir sobre a criação de uma eventual federação de organizações ayahuasqueiras na Espanha, composta por membros do Santo Daime, UDV, Caminho Vermelho, xamãs Shuar, vegetalistas, psicólogos e psiconautas, que teria como objetivo estabelecer um código de ética para o consumo da ayahuasca.

As conversas se deram em torno de problemas associados à publicidade, ao lucro, ao consumo por menores de idade e da natureza das relações entre condutor das práticas e participantes. Foi discutida também a idéia de que as várias vertentes existentes explicitem a identidade do trabalho que desenvolvem e a forma de iniciação e treinamento de seus líderes. Iniciativa semelhante ocorreu na vanguardista cidade de Rio Branco, em 1991, quando sociedades ayahuasqueiras brasileiras firmaram uma carta de compromisso ético para o consumo da ayahuasca, a qual foi posteriormente abandonada por alguns grupos, que argumentaram que outras vertentes não estavam cumprindo o combinado.

Houve um grupo de trabalho dedicado a debater a nova lei do congresso peruano sobre a medicina tradicional, que pretende exigir que só curandeiros (parteiras, “sobadores”, vegetalistas...) oficialmente registrados pelo governo possam praticar a medicina tradicional.

De acordo com a médica peruana Rosa Giove, 57 anos, mulher de Jacques Mabit, “o problema é que não existe nenhum curandeiro tradicional apontado nesta comissão do governo”. Rosa foi responsável pela elaboração de um estudo (inédito) que serviu como uma das bases para o reconhecimento, pelo Instituto Nacional de Cultura, em 2008, dos conhecimentos e usos tradicionais da ayahausca como patrimônio cultural peruano. (Uma iniciativa semelhante está em curso no Brasil. Em 2008, alguns dos principais centros ayahuasqueiros do país, com apoio de autoridades do Acre, encaminharam ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional um pedido de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio cultural imaterial brasileiro, para o qual se aguarda resposta.)


We all want to change the world

No final do encontro foi lida e assinada por todos uma declaração intitulada “Ratificação de Tarapoto”, que defende a medicina tradicional, o território e os direitos de propriedade intelectual dos povos indígenas. Fiquei com aquela sensação de déjà vu, embora me sentindo bem de haver pessoas com iniciativas desta natureza, além de me sentir meio em casa naquela estética de colares e pulseiras indígenas, é claro...

O antropólogo escocês-brasileiro Edward MacRae, 63 anos, professor da UFBA, comentou com perspicácia: “Não vi muitas idéias novas, propostas radicais, coisas diferentes, mas vi muita gente nova tendo um contato inicial com estas idéias –o que é muito bom”. O professor cabulou parte do congresso para fazer duas sessões de quiropraxia inca e disse ter ficado “muito impressionado com a habilidade do condutor, que fez manobras radicais com muita segurança”. E assim concluiu a sua avaliação: “Podem ser feitas ‘n’ críticas ao Takiwasi, mas é preciso reconhecer que essa é uma instituição séria, um centro organizado e consistente. É uma verdadeira referência, que, a propósito, é frequentemente citada nas reuniões do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad)”.

O evento foi encerrado com uma nova série de rituais; os cantos exortavam a expulsão de forças negativas. Um psicólogo-xamã argentino cantou um “Ícaro” que falava em ayahuasca, tabaco, coca, peiote, San Pedro, outras plantas nativas da Amazônia e Jesus Cristo, uma espécie de metonímia do espírito transnacional e panenteogênico do evento, sem faltar o tradicional toque católico devocional tão característico das Américas.

Para Jacques, a principal conquista do congresso foi “vencer o medo da sociedade de falar sobre a espiritualidade e sobre os índios”. Emocionado, me disse: “Vencemos a falta de apoio institucional e nossos medos internos. Vencemos as forças obscuras que vão contra a vida... Demos um passo em direção à vida”.

É como se o congresso, ritualizado em suas diferentes etapas, funcionasse como uma mega sessão de ayahuasca, capaz de agir sobre a realidade, transformando-a. Talvez essa fala encerre o principal significado sociológico desse congresso: um profundo processo de hibridismo entre ciência e xamanismo. Se alguns argumentavam em suas falas em nome de uma determinada pureza, sua própria presença ali terminava por misturar cada vez mais estas esferas que se querem separar –floresta e capitais cosmopolitas, tradição e modernidade, índios e gringos.

Rosa Giove ponderou que o evento “foi muito bom, ainda que tudo isso fique restrito a nós, muito longe das pessoas que realmente comandam a política”. Esse comentário ecoou entre várias pessoas, como Ricardo Dias Mayorga, 59 anos, cientista social colombiano, editor do site “Visión Chamanica”: “É uma pena que toda essa riqueza ainda seja tratada de forma tão marginal na nossa sociedade. Tudo isto é incrível, mas ainda estamos falando de dentro de uma bolha”.

Walter Moure, 44 anos, psicólogo argentino do Runa Wasi que divide seu tempo entre Buenos Aires e São Paulo e defendeu uma tese de doutorado na psicologia da USP sobre o Takiwasi, analisou: “Fizemos um exercício de lidar com a alteridade: de outras culturas, da planta, do outro. Um ponto comum, apesar das divergências, é o questionamento do etnocentrismo da ciência ocidental. E isso é muito desafiante. Acho que demos um passo a mais, embora ainda faltem trabalhos que apóiem mais as comunidades. De qualquer forma, nem tudo tem a ver com o que as pessoas falaram. Muito ocorreu no silêncio dos nossos encontros, ‘no estar juntos’”.

O evento foi marcado por outro tipo de silêncio também. Nenhum jornalista esteve presente e nenhuma linha saiu publicada na imprensa. Jacques me contou que, de última hora, quase todas as organizações do governo e ONGs que tinham prometido apoio (com verbas ou presença) deixaram de comparecer -e sem dar nenhum tipo de satisfação.

É muito provável que isso tenha ocorrido devido ao ataque do governo contra os índios. Alberto Pizango, o presidente da principal organização indígena amazônica (Aidesep), esperado no evento, acabou tendo que se refugiar na embaixada da Nicarágua em Lima. Após a conclusão do encontro, os participantes se juntaram aos moradores de Tarapoto, na Praça de Armas, para fazer uma vigília pelos mortos.

 
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