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FLORESTA

Xamanismo e ciência
Por Bia Labate


Índio que foi baleado durante repressão policial no Peru é carregado por companheiros
Foto: Marijke Deleu

Congresso internacional na Amazônia peruana debate o futuro das medicinas tradicionais e do uso da ayahuasca

“Fuerzas invisibles te quieren atacar”, me dizia um rapaz jovem e bonito, em espanhol com forte sotaque francês, enquanto comíamos num “chifa” (restaurante chinês, instituição sino-peruana de mais de um século), na remota e agitadíssima cidadela de Tarapoto, na Alta Amazônia peruana.

Não sabia bem se me concentrava na sua explicação ou se tentava decifrar o que era aquele estranho enfeite pendurado numa loja na esquina em frente (após algum tempo, cheguei à conclusão de que o apêndice protuberante balançando no ar era provavelmente a parte de trás de uma enorme fantasia de dragão, isto é, a cauda...). Sustos estéticos à parte (não incomuns nesta região), a frase do rapaz resume uma das máximas do vegetalismo ayahuasqueiro do Peru, de que estamos numa permanente guerra espiritual, em que forças negativas invisíveis buscam o tempo todo nos atingir, “nos hacer daño”.

Essas forças podem ser o próprio diabo, a inveja dos outros, a ganância, a sedução, a cólera, o orgulho, o desejo de poder, ou espíritos cujo objetivo é a simples destruição; tais entidades podem ser, inclusive, traiçoeiras, aparecendo-nos de maneira agradável e nos enganando. Consumir a ayahuasca e outras plantas “maestras” (psicoativas ou não) em rituais com “curanderos” locais implica necessariamente adentrar num universo de simbióticas relações entre humanos e não humanos, onde as fronteiras entre “bem” e “mal” nem sempre são muito claras.

Por exemplo, a cura de uma doença pode implicar na devolução mágica de um ataque inimigo ou na destruição das forças que geraram o mal. Maneira elegante de dizer: bem-vindo ao mundo real da feitiçaria da floresta e seu ciclo de ataques e contra-ataques, muito distante daquelas pinturas de louvor à Pachamama penduradas nos espaços esotéricos da cidade de São Paulo.

Eu estava ali ao lado de tantos outros gringos para participar do congresso internacional Medicinas Tradicionais, Interculturalidade e Saúde Mental, promovido pelo Takiwasi, entre 7 e 10 de junho de 2009, com o apoio do Centro de Estudios Médicos Interculturales (CEMI) da Colômbia; do Runa Wasi da Argentina, e da fundação internacional Ashoka.

O Takiwasi é uma comunidade terapêutica de recuperação de dependentes de drogas, que funciona há 15 anos em Tarapoto, dirigida pelo médico francês naturalizado peruano Jacques Mabit, de 54 anos. O centro não se filia à corrente que é conhecida como redução de danos, segundo a qual “o uso mais moderado é melhor do que o uso abusivo”. No caso do Takiwasi, a meta a ser alcançada é a abstinência completa. Nem o consumo de cigarros é permitido (lembrando, contudo, que o tabaco é amplamente utilizado no vegetalismo peruano para proteção, limpeza e defumação, sendo provavelmente o maior parceiro da ayahuasca).

O tratamento, que tem a duração de nove meses, se dá a partir de uma combinação de três matrizes: o curandeirismo amazônico (consumo de plantas “maestras” e purgativas em sessões rituais, no escuro; “dietas” baseadas em períodos de isolamento e jejum em “tambos” –improvisadas cabanas sem paredes, na mata; banhos com plantas medicinais, entre outras práticas); a medicina ocidental (incluindo alopatia e acompanhamento psicológico); e catolicismo.

Jacques me contou, para meu espanto, que nesta última categoria entram “missas de liberación familiar” (geralmente ligadas a questões de aborto e incesto) e “oraciones de expulsión de malos espíritos”, realizadas por ele e por um padre que trabalha no local (descobri que a Igreja Católica ainda conserva a antiga herança de padres exorcistas, embora esses sejam escassos nos tempos de hoje).

Atualmente, o Takiwasi conta com 45 trabalhadores, entre eles uma equipe de curandeiros indígenas e “mestizos”, um enfermeiro e seis psicólogos; possui uma biblioteca com 4.500 títulos e um laboratório que fabrica dez tipos de produtos medicinais, tinturas, resinas e pomadas. O centro promove ainda 12 “dietas” (retiros de uma semana) e seis seminários de autoconhecimento (workshops de três semanas) por ano. Há funcionários de várias nacionalidades, com predominância de peruanos, seguidos por franceses. Apesar de toda esta infraestrutura, a população de pacientes é bem pequena: 15. Todos são homens provenientes da região e também de outros países.

Jacques tem conseguido levar adiante o projeto sem contar com uma forma regular e permanente de financiamento, sobrevivendo a duras penas, e a despeito de vários conflitos locais –no momento, por exemplo, há poucos curandeiros disponíveis para atuar no centro. O psicólogo alemão Frank Pfitzner trabalha no local e escreveu sua dissertação de mestrado em psicologia na Universidade Técnica de Berlim baseado no acompanhamento de seis ex-pacientes do centro. Segundo ele, a terapia oferecida pelo Takiwasi “costuma ter excelentes resultados”. Mas ainda não há estudos científicos que forneçam dados estatísticos sólidos sobre o sucesso do tratamento –que é, vale lembrar, sempre complicado de se estabelecer, tanto devido à dificuldade de “follow up” de ex-pacientes, como em função da variedade de critérios de melhora (substâncias utilizadas, tempo de abstinência, qualidade de vida etc.).

Lá estava eu pela terceira vez naqueles confins do Peru, doze anos após a minha primeira visita, muitas sessões de ayahuasca e livros escritos depois. Assim como para tantas outras pessoas, o Takiwasi funcionou para mim como porta de entrada inicial para o xamanismo amazônico. O local é uma espécie de parada obrigatória na carreira dos amantes da ayahuasca; estando ali me vi confrontada com meu passado. Eu ainda estava um tanto interessada pelo assunto, mas, digamos assim, menos encantada do que antes. Não sabia o que viria pela frente, e a conversa com o “muchacho” me deu frio na espinha.


A ONU das plantas

O encontro foi oficialmente aberto no domingo, dia 7 de junho, no principal auditório de Tarapoto, com a presença do prefeito, direito a show de danças típicas da região e benção de xamã inca-cristão vindo de Cusco, 700 km ao sul.

Na verdade, o congresso foi fortemente prejudicado pelo clima político do país, que acabara de viver um dos episódios mais tristes da história recente dos direitos indígenas: dois dias antes, no dia 5, em que se comemorava nas praças de todo o país o Dia Mundial do Meio Ambiente, tropas da polícia se enfrentaram com milhares de índios que bloqueavam há semanas a rodovia nos arredores da cidadezinha de Bágua, no norte do Peru, cerca de 200 km de Tarapoto. Resultado: o Baguazo, que o futuro talvez lembre como a maior matança da década na América Latina.

Os números falam em dezenas de mortos dos dois lados, feridos a tiros, lanças e até decapitados, muitos desaparecidos. Os 400 mil índios da Amazônia peruana vêm protestando crescentemente contra o uso das terras amazônicas pelas petroleiras, mineradoras e madeireiras, em processo de regulamentação por um decreto-lei recente do presidente Alan Garcia, agora rejeitado por um Congresso amedrontado.

Desinformação na mídia, toque de recolher decretado na região do massacre, prisões e perseguições de defensores e representantes dos nativos, enfim, militarização total do caso, que até então era mais político e social. Estradas foram interrompidas e protestos explodiram país afora. Assim, a maior parte das comissões indígenas esperadas para o encontro não conseguiu chegar, esvaziando um bocado o evento. A abertura incluiu uma solene homenagem aos mortos, “hermanos policías y nativos”, e enfatizando “não matar jamais”.

No dia seguinte, pela manhã, um ritual de mesa andina abriu o congresso no Rio Shilcayo, um resort com muita madeira, bangalôs, piscina e wireless. Fomos instruídos a esperar o soar de uma enorme concha-caracol, que se ouvia de longe, e que a partir de então passou a ser tocada sempre para anunciar os intervalos das conferências. O “soprador” era Manuel Garcia Ramirez, que veio especialmente do México para o encontro, onde deu uma palestra sobre os cogumelos e conduziu um “temazcal”.

Ele mora em San Jose del Pacífico, no estado de Oaxaca, meca dos cogumelos mágicos do México, só superada pela celebrada Huatla de Jimenez, de Maria Sabina, visitada pelos Beatles. No aeroporto, na volta, Manuel me deu o seu cartão de visitas, onde puder ler “medicina tradicional indígena: diagnósticos tradicionais, rituais de casamento e batismo, psicoterapia transgeracional, banhos curativos e energizantes, rituais de cura”.

Alternando apresentações acadêmicas e depoimentos confessionais-intimistas, o evento reuniu 218 participantes de 22 países diferentes, e houve 70 apresentações, além de uma agenda paralela de rituais e consultas, como sessões de ayahuasca, quiropraxia inca, leitura de folha de coca, “sobada del cuy” e “temazcal”. As atividades intelectuais ocorriam em quatro salas simultâneas; à noite havia rituais; durante o dia também era possível agendar atendimentos.

O idioma oficial era o espanhol. Havia uma pulsante identidade latino-americana no ar, e eu me deliciava com os vários sotaques em espanhol, incluindo o dos estrangeiros. Esse detalhe diz algo sobre a natureza do encontro, sobretudo se pensarmos que outras conferências realizadas no Peru que abordam o tema do xamanismo se dão geralmente em inglês, como é o caso da Soga del Alma, e da Amazon Convergence (no Brasil, o centro Wasiwaska também organiza conferências com renomados especialistas internacionais para um público anglófono).

Por outro lado, mais uma vez fiquei com a sensação de que para os brasileiros ainda não “caiu direito a ficha” de que fazemos parte da América do Sul, isto é, não nos apropriamos devidamente de nossa herança latina. Havia uma boa delegação do Brasil, entre antropólogos, psicólogos, representantes da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), membros da União do Vegetal (UDV) e do Santo Daime. Aliás, não faltou o tradicional e constrangedor portunhol: “Aerochica, aerochica, una cueca cuela puer favor”...

O encontro estava dividido em cinco eixos que abrangiam os temas: populações indígenas e saúde mental; relação entre medicina tradicional e psicoterapia; políticas em saúde mental; tratamento de dependências; e pesquisas biomédicas sobre a medicina tradicional.

Em minha opinião, a maior virtude do evento foi dar voz e visibilidade às múltiplas vertentes contemporâneas de uso de plantas sagradas e suas relações com a psicoterapia e a religião, mais do que oferecer uma análise sobre estas práticas em si. A grande maioria dos trabalhos apresentados contemplava iniciativas de utilização da medicina tradicional indígena em contextos ocidentais e, em menor escala, projetos de cuidados biomédicos e psicológicos da saúde mental dos povos indígenas.

Embora houvesse alguns índios presentes (e ainda considerando que muitos não conseguiram chegar por causa dos acontecimentos políticos), se tratava, sobretudo, de um encontro de brancos interessados em coisas de índios. Nos três dias que se seguiram, pudemos passear por uma galeria de personagens e experiências terapêuticas baseadas na cura através de ayahuasca, tabaco, peiote, folha de coca, San Pedro, cogumelos, iboga, sonhos e do calendário maia. Eu me sentia num parque de diversões em que não havia filas para os brinquedos.

Para Jean Langdon, antropóloga norte-americana residente no Brasil há 25 anos, professora da UFSC e pioneira nos estudos sobre o xamanismo, “tudo isso é impressionante”. “Estamos vendo o resultado de um processo que começou nos anos 50 e 60, com a renovação do interesse nos psicotrópicos, o nascimento da psicologia transpessoal, e terapias como as de Grof com o LSD. Fui testemunha do nascimento do turismo psiconauta, quando morei com os Siona no Putumayo (Colômbia), na década de 70”, disse ela.

Entre sua participação em uma sessão de ayahuasca e outra de “temazcal”, a pesquisadora apresentou os resultados de uma pesquisa em parceria com Isabel Santana de Rose sobre a introdução recente da ayahuasca entre os índios Guarani de Santa Catarina por uma vertente neoxamânica, em conjunto com o Santo Daime –inovação bem-vinda para bagunçar um pouco as nossas concepções puristas sobre tradição e autenticidade.

O principal problema do evento, segundo Jean, seria justamente “a reprodução frequente de uma visão essencialista, segundo a qual haveria uma forma original, primordial, fixa e homogênea de expressão cultural. Ninguém falou, por exemplo, da variedade de xamanismos que existe, inclusive aquela sem xamãs”. E o maior problema mesmo é que “todo mundo se acha meio dono da verdade”. Talvez por isso mesmo que o encontro tenha sido tão divertido.


”La planta me habló”

 
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