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O volume recém editado no Brasil engloba ainda "História da Noite", de 1977, com o hoje mais que célebre “Metáforas d’as Mil e Uma Noites”, uma ode de 72 versos em louvor das 4 metáforas do clássico fabulário árabe, além da celebração de leões, tigres, cavalos, novos sonhos sonhados vivos, e principalmente o louvor aos hexâmetros latinos; "A Cifra", de 1981, publicado meses antes de completar 82 anos, com suntuosa dedicatória a María Kodoma, obra que expressa, segundo ele próprio, uma via intermediária entre o que considera “poesia intelectual” e “poesia verbal”; e, finalmente, "Os Conjurados", aos 86 anos, com destaque para o hoje mais que clássico “As Folhas do Cipreste”, um legítimo “cuento” de arrebatadora síntese e mestria, onde o pesadelo dentro do pesadelo dentro de novo pesadelo evoca magistralmente o cubo dentro do cubo dos eleatas.

Uma advertência, apressado leitor: embora os temas sejam quase sempre os mesmos, não há, frise-se, uma única repetição nos sete livros que compõem este “Poesia”. Façanha, desnecessário acrescentar, reservada a raríssimos escritores, que, embora tangendo a mesma nota, alcançam, pelo viés de inescrutável genialidade, o sagaz ilusionismo de tornar sempre novo o velho sol de cada dia.


O livro:

"Poesia", de Jorge Luis Borges. Tradução de Josely Vianna Baptista. Companhia das Letras, 641 págs., R$ 65.


Publicado em 12/8/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).

 
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