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dossiê
CLÁSSICOS

Borges, poeta essencial
Por Wilson Bueno

Publicação no Brasil dos sete últimos livros de poemas do autor argentino reafirma a importância de sua obra em versos

Acaba de chegar às livrarias brasileiras nada menos da que provavelmente seja a primeira reunião, em língua portuguesa, dos últimos sete títulos de poesia assinados por Jorge Luis Borges (1899-1986). Um empreendimento editorial que acolhe desde o referencial "Elogio da Sombra", de 1969, até o autêntico “canto de cisne” que é "Os Conjurados", última obra publicada em vida pelo gênio argentino.

Não bastasse a importância de que se reveste semelhante empresa, todos os títulos, a abarcarem em seu conjunto mais de 250 peças em edição bilíngue, mereceram a tradução da também poeta Josely Vianna Baptista, seguramente a mais importante tradutora do espanhol para a língua portuguesa em atividade. Um volume, não seria exagero assinalar, histórico.

A lamentar, diga-se logo, o projeto gráfico, que parece ignorar o “som e o sentido” de Jorge Luis Borges, num design que deve ter feito o mestre portenho se mexer na cova –do título geral do volume a todos os títulos dos livros que o compõe, bem como todos os poemas, sem exceção, além dos créditos, foram grafados em letras minúsculas! Não é preciso ser um expert borgiano para saber o sagrado horror que Borges nutria por esses recursos, qualificados por ele como “descabidas banalidades”. Visível e rasteira traição ao que o autor concebia como livro.

Felizmente a poesia de Borges vale quanto pesa, ainda mais sob o raro engenho “tradutório” de Vianna Baptista. Palavra a palavra, verso a verso, rima a rima, quem tiver a paciência de comparar originais e versões não se decepcionará, em nenhum momento, podemos garantir, face ao talento dessa tradutora que já nos deu entre outros ouros literários, Roa Bastos, Cortázar, Lezama Lima. Rimas de complexa escansão, metrificações rigorosas são obedecidas à risca, numa fidelidade a Borges de que só a autora de “Poros Flóridos” seria capaz.

Borges é um poeta essencial, em tudo o que o adjetivo comporta. Mesmo a prosa mais intensivamente ficcional tem dele uma visada de poeta. E não estamos falando aqui neste equívoco do que é chamado no Brasil “prosa poética”. Isso não existe, sabemos. Ou é prosa ou é poesia. O autor argentino é epistemologicamente poeta. Seja na celebrada obra-prima ficcional “O Aleph” ou no poemeto “As Ruas”, que abre o seu livro de estréia –"Fervor de Buenos Aires"– publicado quando tinha menos de 24 anos, Jorge Luis Borges professa poesia. É, digamos, um tradutor da “anima” poética que vigora, desde Homero, na velha “ars litteraria”.

Não há ensaio borgiano, estamos igualmente exaustos de saber, mesmo o mais intricado e erudito, que não postule a “poiesis” como ponto de partida. É a sua marca e o seu selo nem tão secreto. Até nas dedicatórias (algumas chamadas de “inscrições”) Borges deixa claro a que veio. Aliás, embora brotado da pena de um poeta juvenil, "Fervor de Buenos Aires" valeria, por si só, pela dedicatória que faz à mãe, Leonor Acevedo. É, em minha opinião, a mais bela dedicatória da literatura. Saber e sabor, delicadezas e insuspeitadas tessituras, no –sóbrio– afeto que encerra.

Nada poderia ser diferente no recém-lançado “Poesia”, que antologiza justamente a produção da maturidade de Jorge Luis Borges –num arco que vai do que compôs (ou ruminou em sua solidão de cego...) dos 70 aos 86 anos. Luminosa velhice, se é que podemos chamar “velhice” ao estágio de quem produziu esses poemas que trazem um frescor desusado em escritores de qualquer tempo ou lugar.

Talvez Yeats ou Pound mantenham igual vigor até o último de seus longevos dias. Mesmo o nosso insuperável Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) não alcançou assegurar na velhice o viço e a insólita “des-razão” de sua produção dos anos mais fecundos.

Com Borges, já neste "Elogio da Sombra", publicado em 1969 (e que abre o volume recém-publicado no Brasil) a exatos dois meses antes de completar 70 anos, embora seja um poeta molecularmente preso a algumas proposições que lhe foram caras durante toda a vida, as variações sobre o mesmo tema são sempre surpreendentes. Tanto quanto a glorificada adjetivação do poeta –sempre nova, ainda que sempre a mesma, isto é, assinalada por “achados” que chegam a assustar, pela insólita beleza, o leitor desprevenido...

Desde o “Prólogo”, "Elogio da Sombra" lança “novas eternas” reflexões, uma espécie assim de suma e súmula de sua profissão poética. Ali, por exemplo, onde lembra que não possui uma estética: “O tempo me ensinou certas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; (...) preferir as palavras usuais às palavras assombrosas; (...) simular pequenas incertezas, pois, se a realidade é precisa, a memória não o é; narrar os fatos (...) como se não os entendesse totalmente”. E sobretudo, eis outra vez o insólito, gentil leitor: lembrar que todas as normas aí enumeradas não são obrigações e “que o tempo se encarregará de aboli-las”. Não fosse o poeta “fervoroso” que é, poderíamos dizer que Borges chega às raias de um diabólico cinismo nesses e em outros momentos onde o “insight” é a rotina, e a “novidade”, o hábito.

Em "Elogio da Sombra", que classifica como o seu “quinto livro de versos”, além dos temas de sempre, pede ao leitor que se resigne a duas novas “ocupações” –a velhice e a ética. Sim, o poeta, de um modo estóico e exemplar, sabe que terá de enfrentar, se é que já não enfrenta, o colapso da visão.

Começa a descer sobre ele a sombra, a qual –novo susto, leitor!–, encara como uma singular forma de “claridade”. Para os que pensam a cegueira irmã da treva, negra feito a ausência total da luz, alerta para o engodo. Não, a cegueira é só uma atmosfera leitosa, plena de nuanças e impensável “claridad”.

Como assinala no emblemático “James Joyce” (todos sabemos dos insidiosos problemas oculares do autor de "Ulisses"), que vê “desde o breu”, pede, entretanto, no campus da Universidade de Cambridge, em 1968 – aos 69 anos, portanto–, no dístico final do soneto: “Dai-me, Senhor, coragem e alegria/ para escalar o cume deste dia”.

Sintomático também que, num livro que se pretende o resignado elogio da sombra, Borges insira ali um breve conto “noir” de intrigante fatura, chamado “Maio, 20, 1928”. Nele, no texto, alheio a toda e qualquer forma poética prefixada, nos dá, veloz feito um tiro, a história de um homem que caminha pela rua 49, pensa que nunca a atravessará, cruza com um conhecido, graceja, sobe os degraus de uma escada e, ao fim, topando com sua cara frente a um espelho, permite que a imagem refletida nele, “docilmente, magicamente”, apoie a arma contra a têmpora... Parece ouvirmos o balaço com que o Outro lhe estoura os miolos.

Tudo é sugestão e nuanças, bruxedo e insinuações. Nada em Borges é explícito, a palavra está sempre a aproximar pelo que diz e a separar pelo que deixa de dizer... Verdade seja dita, o próprio fundamento da literatura, tão enxovalhada pelos ditos modernos, sobretudo os norte-americanos de última safra, que trocaram as cambiâncias literárias por um cinemão em tecnicólor . Daqui a pouco em vez de prêmio literário, os romanções ianques serão indicados ao Oscar da temporada. Argh!

Para ficar só em mais um registro desta definitiva obra-prima que é "Elogio da Sombra", impossível não lembrar o poema “A Certa Sombra, 1940”. Mesmo aí, a defender a sua “sagrada” Inglaterra do “javali alemão” e da “hiena italiana” –óbvia alusão ao nazi-fascismo–, mesmo quando panfletário, Borges alcança ultrapassar a discurseira brechtiana, incensada um tempo, aqui e alhures. Apesar do esnobismo intelectual que perpassa o poema de ponta a ponta, numa só estrofe de 33 versos heterométricos, Borges transcende. Evoca De Quincey e disturba o que poderia ser um panfleto com a indagação destes três versos finais: “Podes ouvir-me, amigo não olhado, ouvir-me/ Através dessas coisas insondáveis/ Que são os mares e a morte?”.

Já na mais extensa reunião de poemas incluída no volume, o não menos célebre "O Ouro dos Tigres", de 1972, o poeta parece se permitir certas liberdades. Ainda que o livro demonstre o júbilo nada insondável com que Borges mexe-se entre decassílabos e sonetos ingleses minuciosamente isométricos, vai dos versos de “Treze Moedas”, em pequenas quadras de rimas livres, ao magnífico –e rigoroso– “A John Keats”, o poeta morto aos 26 anos, poderosa influência dos pré-rafaelitas ingleses e uma das grandes devoções borgianas.

Aqui, além dos tankas, voluntariamente não construídos sob o rigor da métrica japonesa, mesmo adaptada ao espanhol (5/7/5/7/7 sílabas), sem fugir contudo à essência e ao caráter profundo desse complexo gênero poético, se dá ao luxo, creiam, de um poema de amor como não se escreve mais. Ainda que tocado por uma temperança de raiz, o romântico “Ao Triste” termina de modo quase imprevisto: “Uma única mulher é teu cuidado/ Igual às outras todas, mas que é ela”.

Os poemas finalizam invariavelmente sob candentes “fechos d’ouro” (para lembrar nossos excelsos parnasianos), nem tanto por sua construção, digamos, de uma simplicidade que –é visível– só se alcança após complexos exercícios ou ao peso de um saber que o poeta, no andado de seu crepúsculo, já com 74 anos, faz questão de manifestar. Feito quem buscou exaustivamente a frase sem ponto, os neologismos e os “port-manteaux” e só então descobre, hosanas!, o sublime no coração do mais prosaico.

A destacar ainda, neste admirável "O Ouro dos Tigres", o miniconto “O Palácio”, no qual Borges passeia em datas posteriores à sua própria morte, numa antevisão labiríntica e prodigiosa do que “será porém não foi”, mais agudo do que “poderia ter sido e acabou não sendo”; o arrepiante pesadelo explícito de “O Episódio do Inimigo”; o sonho sonhado por Pedro Henríquez Ureña e ainda alguma referência do que constituiu uma de suas obsessões maravilhadas e maravilhosas –a zoolatria, aqui expressa particularmente em “A Um Gato” e em “Ao Coiote”. A exemplo do livro que o antecede, “O Ouro dos Tigres” encerra com o poema-título, ali onde, mais uma vez, Borges segue a evocar a sombra: “E agora só me restam/ A vaga luz, a inextricável sombra/ E o ouro do princípio”.

Prestes a completar 76 anos, publica “A Rosa Profunda”, em cujo prólogo faz uma glamourosa defesa das Musas e lembra, com todas as letras, outra lição para insossos contadores de história desse insensato início de novo milênio, que a palavra foi no princípio um símbolo mágico e que a usura do tempo a desgastou. Compete a nós revigorá-la pela via da “inspiração” mais inventiva.

No poema que abre o volume, o conhecido “Eu”, Borges não deixa por menos e faz com que deitem para ele, ao papel, numa ode antiga, um advérbio de modo –preciso, necessário, enriquecedor. Assim: “Uma caveira, o coração secreto/ (...) As vísceras, a nuca, o esqueleto,/ Tudo isso sou eu. Incrivelmente/ Sou também a memória de uma espada (...)”.

Outra surpresa é reservada ao leitor deste “A Rosa Profunda” –o poema “De Que Nada Sabe”. Ecos de Alberto Caeiro, o heterônimo pastoril de Fernando Pessoa, enquanto cantor da natureza e das simplezas das aldeias lusas, se faz presente de modo quase paródico. Sabemos da admiração de Borges pelo poeta português, além, claro, de sua devoção a Eça de Queirós. “A lua ignora que é tranqüila e clara/ E nem ao menos sabe que é a lua;/ A areia, que é a areia. Não há uma/ Coisa que saiba que sua forma é rara”.

Em alguns casos é tão rigoroso na métrica de determinadas peças de “A Rosa Profunda” que chega a recriar em nota, ao final do volume, um dos versos alexandrinos de “A Cerva Branca”. Elegias, homicídios que só existem na memória, e portanto nem homicídios são mais, e o desconcertante “Um Cego”, ao espelho, completam mais essa antológica reunião de poemas.

Já aos 77 anos dá a lume “A Moeda de Ferro”, tornando-se ali, provavelmente para sempre, um feroz desafeto da esquerda internacional, num dos momentos mais controversos de sua biografia, ao encarar, com crua indiferença, a sanguinária ditadura argentina (1976-1983). Justamente no ano em os militares tomam o poder, tem a desfaçatez de declarar literalmente no prólogo da obra: “Sei que sou totalmente indigno de opinar em matéria política, mas talvez me seja perdoado acrescentar que descreio da democracia, esse curioso abuso da estatística”.

Não poderia haver pior momento para uma afirmação dessa natureza, da qual, comenta-se, teria se arrependido depois, sobretudo quando da tortura e do assassinato, inclusive de inocentes, pelo nefasto regime dos então psicóticos generais portenhos.

 
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