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dossiê
CLÁSSICOS

A gênese do "Tempo Perdido"
Por Guilherme Ignácio

Pesquisador fala sobre o método de escrita de Proust e o lançamento da edição fac-similar dos manuscritos de sua obra-prima

Marcel Proust passou cerca de 14 anos escrevendo as páginas do que se tornaria um dia o ciclo de romances "Em Busca do Tempo Perdido". A transcrição dos cadernos que documentam este trabalho começou a ser lançada no último ano pela editora belga Brépols e pela Biblioteca Nacional da França ("Cahiers 1 à 75 de la Bibliothèque nationale de France - Cahier 54", 2 vols., edição fac-similar, 250 euros).

O pesquisador e ensaísta Bernard Brun é um dos coordenadores dessa edição e um dos maiores conhecedores da história de composição do romance proustiano. É também membro da Équipe Proust, do Item (Institut des Textes et Manuscrits Modernes), que reúne dezenas de estudiosos da obra do autor de várias partes do mundo, inclusive do Brasil. A seguir, Brun explica como Proust escrevia e discute algumas das chamadas “ideias feitas” que se tem sobre esta obra, uma das maiores da literatura. Ele também comenta as diferenças e os conflitos que existem entre a pesquisa dos críticos genéticos (que estudam a gênese da escrita das obras) e as editoras, sempre ansiosas por publicarem inéditos.

Para Brun, na perspectiva da crítica genética, livros como "Jean Santeuil" e "Contra Sainte-Beuve", ambos de Proust, "não existem". "São páginas reunidas nos arquivos de Proust pelos primeiros editores (Bernard de Fallois e Pierre Clarac), páginas que o próprio autor não quis publicar. É uma fabricação de editor", afirma.

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Quais são as características gerais do trabalho de composição de Marcel Proust? Como ele escrevia?

Bernard Brun: Marcel Proust começou a trocar o dia pela noite a partir da Primeira Grande Guerra (1914-1918). As crises de asma o levaram ao confinamento e às "fumigations", remédio que ele utilizava para poder respirar. O seu quarto, revestido de cortiça, se tornou uma lenda, alimentada pelo próprio escritor.

Ele escrevia na cama ou sobre uma mesinha –o mais importante de se destacar é que o fazia em cadernos escolares, vários ao mesmo tempo, com uma pena de aço, de maneira bastante escolar. A escritura é linear, mas Proust começava pelas páginas da direita, completava nas margens, depois, se necessário, recorria às páginas da esquerda.

Cabe distinguir duas épocas diferentes. Antes da guerra, Proust dispunha de copistas, de esteno-datilógrafos. Ele recortava as páginas dos cadernos para eles irem copiando à medida que ele escrevia. É com sua governanta, Céleste Albaret, que as "paperoles" aparecem –papéis colados para integrar os acréscimos, papéis que não se deve confundir com os "béquets", que são acréscimos colados às provas mandadas pela editora.

O trabalho não se restringia às quatro cadernetas de notas, às folhas soltas, aos 75 lendários cadernos de esboços e aos cadernos em que o texto era passado a limpo. Proust retrabalhava consideravelmente as datilografias e as provas da editora, deixando desesperados seu primeiro editor, Bernard Grasset, e depois Gaston Gallimard.

Tal trabalho consistia em estabelecer ligações entre os diferentes temas, figuras e episódios, para criar uma rede de correspondências narrativas e poéticas. É o que Proust chamou de "supernutrição" em uma carta a Gallimard, termo que não devemos entender como simples acréscimos, mas como transformação.


Poderia nos falar um pouco do projeto de edição desses cadernos de Proust pela editora Brépols?

Brun: A equipe Proust do CNRS no Item (Institut des Textes et des Manuscrits Modernes) foi criada em 1971 para estudar e editar os manuscritos de redação de Marcel Proust, em particular os cadernos de esboços.

Publicações parciais materializaram tal projeto, na maioria das vezes em trabalhos de pesquisadores e de professores universitários, franceses e estrangeiros. Elas combinam a transcrição a um indispensável comentário genético.

O desenvolvimento da ferramenta informática, com o tratamento de texto e a fotografia numérica, permitiu encontrar uma solução para os problemas técnicos e financeiros. Uma colaboração internacional (principalmente entre a França, o Brasil e o Japão) se constituiu em torno de uma editora (Brépols), de contratos com a Biblioteca Nacional da França para fotografar os cadernos e o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) para a transcrição.

São 75 cadernos em dois volumes (um com o fac-símile, outro com a transcrição), ou seja, 150 volumes no total: só para dar uma idéia da dimensão da empresa. Os dois primeiros volumes foram publicados em 2008 (Caderno 54). A fotografia de cada página no primeiro volume pode ser comparada à transcrição no segundo.

A transcrição é diplomática, ou seja, ela reproduz a disposição da escrita proustiana na página do caderno. É um simples instrumento de trabalho, que permite em seguida realizar transcrições genéticas, que expliquem a ordem das modificações (quando aparecem rasuras, correções, acréscimos). Mas é um instrumento indispensável para o especialista, com um aparato crítico que estabelece as ligações entre os cadernos. A edição não será apenas em papel: todos os cadernos estarão disponíveis no site da Biblioteca Nacional (BNF).


Quando se fala da escritura proustiana como um processo de escrita infinito, o que se quer dizer com isso? Pode-se pensar que Proust perdeu realmente o controle sobre sua obra?

Brun: Os romancistas russos escreviam romances longos. Flaubert, seguindo os ingleses, romances separados por assuntos diferentes. Balzac quis agrupar a posteriori todos os volumes que escrevera sob um mesmo título: "A Comédia Humana". Zola criou toda uma série romanesca, como Roger Martin du Gard. Marcel Proust escreve um único livro em vários volumes, pensado durante muito tempo, a partir de pesquisas críticas e estéticas (suas traduções da obra de John Ruskin, sua crítica a Sainte-Beuve...).

A evocação das lembranças dos quartos de um narrador em várias idades de sua vida permite, a partir de 1908, que uma narrativa se desenvolva em várias direções, como ilustração de sua crítica e sua estética. Tal narrativa acaba se transformando em um romance, que se desenvolve ao infinito, partindo de uma narrativa aparentemente solta, mais bem estruturada.

Em 1913, um primeiro estágio do romance está pronto. Em 1914, a publicação é interrompida, e Proust tem tempo de aumentar o livro e acrescentar episódios da Grande Guerra e toda a história com Albertine. Em 1919, uma cópia manuscrita começava a ser publicada. Com a sua morte, em 1922, os últimos três volumes têm publicação póstuma, permanecendo inacabados, por causa justamente do método de trabalho do escritor.


Em 1921, Gide escreveu o seguinte sobre o romance proustiano, que, naquele momento, não estava ainda inteiramente publicado: "Já suspeito que todos os elementos se desenvolvem segundo uma ordem oculta, como as hastes de um leque que na extremidade se juntam e cuja divergência vem ligada por um tecido sutil sobre o qual se estendem todos os matizes de seu véu de ilusões". Pode-se pensar que a construção desse "tecido sutil" é um dos elementos que levaram a esse processo contínuo de expansão da escrita proustiana?

Brun: Marcel Proust escreveu a Jacques Rivière em fevereiro de 1914: "Enfim encontro um leitor que consegue adivinhar que meu livro é uma obra dogmática e uma construção!".

Os arquivos mostram Proust transformando seu romance no final de 1910, quando ele desloca para uma última parte o texto de crítica e estética. Ele o transforma novamente durante a guerra, a partir de 1914, e ainda depois, a partir de 1919, à medida que o livro vai sendo publicado. Um vai-e-vem de correções, de acréscimos e de efeitos de simetria se estabelece entre os manuscritos, a datilografia e as provas de impressão, para cada volume e entre todos os volumes.

E esse vai-e-vem torna coeso o tecido narrativo, permitindo um desenvolvimento sistemático e programado, que apenas a morte vem interromper. “Construirei esse livro como uma catedral ou como um vestido”, diz o narrador. O plano do livro obedece a um ritmo binário (tempo perdido/tempo redescoberto; visita do herói a Albertine em seu quarto, em Balbec/Albertine visita o herói em seu quarto de Paris; há duas visitas do herói ao barão de Charlus etc.). A divisão em volumes se deve a exigências editoriais e comerciais. O escritor se acomodou a elas e lhes atribuiu um sentido depois de ter começado a escrever.


Gostaria de refazer a pergunta que serve de título ao livro sobre as "Ideias Feitas" que o sr. publicou no ano passado na França. Não existe obra inédita de Proust?

Brun: É realmente o tema de meu livro. Há 30 anos estudo os manuscritos de redação, principalmente os cadernos de esboços, depositados na Biblioteca Nacional ou em outros lugares. Diferentes pontos de vista contrapõem pesquisa, conservação e exploração comercial. O mercado faz subir os preços dos textos manuscritos, as editoras tentam publicar textos "inéditos", e a lei protege os textos inéditos póstumos.

Os trabalhos de crítica genética do Item lidam com arquivos manuscritos; ou seja, com todos os documentos de redação e os documentos que testemunham a atividade de um escritor, para saber como ele construiu e redigiu sua obra, no conjunto e nos pequenos detalhes.

A perspectiva é radicalmente diferente da perspectiva das editoras: passa-se da idéia de mais um "inédito de Proust" para a idéia de "Proust trabalhando". Desse ponto de vista, ”livros” como "Jean Santeuil" e "Contra Sainte-Beuve" não existem: são páginas reunidas nos arquivos de Proust pelos primeiros editores (Bernard de Fallois e Pierre Clarac), páginas que o próprio autor não quis publicar. É uma fabricação de editor.

Nesses 30 anos de trabalho com os manuscritos de Proust, vi que os métodos de conservação e as demandas das editoras entram com frequência em conflito com as exigências da pesquisa em genética textual.


O sr. poderia comentar outra frase de seu livro sobre as "Ideias Feitas": "É impossível negar o substrato autobiográfico do romance, nem de se interessar realmente por ele"?

Brun: É uma herança positiva da linguística e do estruturalismo aplicadas à literatura a partir dos anos 50. As pesquisas sobre as vozes narrativas permitiram distinguir o romancista do narrador e do herói do livro. Nos romances de Marcel Proust, é ainda mais complicado. Por exemplo, o narrador e seu herói não são judeus, nem homossexuais, como o escritor. Entretanto, o narrador é pedófilo em "O Tempo Redescoberto", talvez porque esse volume chegou até nós sob a forma de um manuscrito não revisado por Proust.

Proust coloca em cena um romance social, mais precisamente a entrada dos judeus do século XIX em uma sociedade hostil. Swann é árbitro das elegâncias mundanas, mas é porque todos pensam que ele é filho natural do duque de Berry, ou seja, que ele não é judeu. Seu amigo, Charlus, representa o anti-semitismo cristão tradicional. Mas, por outro lado, os cadernos de esboços mostram uma ligação nevrótica entre judaísmo, homossexualidade, profanação da mãe, parricídio e culpabilidade. Mas tudo isso na ordem do imaginário do escritor, e não na ordem social, nem na ordem da representação romanesca. Essas tendências se opõem na obra.


Duas ideias feitas que o sr. não discute em seu livro e que parecem bastante difundidas são as de que Proust é um escritor muito difícil e que "Em Busca do Tempo Perdido" é um livro praticamente ilegível. Quando das seções de transcrição dos cadernos de rascunho no Item, ouvi o sr. exclamar várias vezes (por exemplo, quando um parágrafo terminava por um verso alexandrino ou um decassílabo), frases como: "Proust é um escritor clássico!".

Brun: Há muitas ideias feitas que não discuti neste livro, não querendo entrar no molde da vulgarização. Queria exprimir algumas ideias sobre a gênese do livro. Além do mais, o estereótipo da frase longa, do romance interminável, do estilo confuso, da escrita complicada não me parecem nem mesmo dignas de serem refutadas. As estatísticas já mostraram que a frase proustiana é majoritariamente breve, de estilo oral, feito para declamação pública, como Flaubert. Os folhetinistas eram muito mais prolixos, sejam eles russos, ingleses ou franceses.

Proust clássico? Convém, de fato, localizá-lo entre os romancistas do século XIX, o essencial do romance tendo sido escrito antes da Primeira Guerra. A literatura contemporânea pode tê-lo recuperado, porque seu livro é, sim, um espelho do mundo, mas o espelho de um mundo desaparecido.


Publicado em 12/8/2009

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Guilherme Ignácio
É professor de língua e literatura francesa da  Universidade Federal de São Paulo.

 
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