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Nesse conceito, aspectos biológicos, políticos e culturais se fundem para conformar algo que se assemelhava a um povo revestido de “caráter nacional”. Na sua constituição entra uma boa dose de ação pública e, por isso, na “raça histórica” Euclides via a condição de se corrigir a natureza e as suas leis biológicas de hereditariedade através de uma ação política com vistas a garantir o isolamento.

É necessário compreender que este chauvinismo de Euclides correspondia à aplicação da noção darwinista de isolado geográfico como condição sine qua non para surgimento de uma nova espécie ou variedade (raça). Nessa condição, haveria uma “compressão” das hereditariedades, diminuído as chances do atavismo apresentar revivescências indesejadas, como a “tendência à regressão às raças matrizes”.

Ora, para ele o problema brasileiro é essencialmente o problema de adaptação. Na própria estrutura narrativa de “Os Sertões”, a terra antecede o homem e a luta; ela é o suporte ao qual se adapta o homem, formando os vários tipos (o mestiço do litoral, o gaúcho, o bandeirante, o sertanejo) que são aqueles capazes de extrair a vida de diferentes ambientes.

Nisso ele está coerente com o evolucionismo posterior à morte de Darwin, que passou a enfatizar os fenômenos de adaptação como mais importantes do que a hereditariedade na transformação das espécies. Este neolamarckismo, como foi chamado, era a teoria cientifica "up-to-date". Na “Luta” teremos o enfrentamento entre o homem perfeitamente adaptado –a “rocha” da raça– e a modernidade. Esse plano metafórico tem como variável independente a geografia, o clima e o solo, isto é, o habitat.

O resultado da análise de Euclides é a qualidade civilizacional atingida através dos diferentes processos de adaptação, seja porque o ecossistema variou, seja porque entraram características étnicas deste ou daquele tipo em maior ou menor proporção e, finalmente, porque essa mistura logrou se estabilizar num tipo. Essa engenharia natural da raça que define o caráter brasileiro em seus vários matizes é o verdadeiro objeto de “Os Sertões” que encaminha o leitor para a compreensão da insanidade que se praticou em Canudos através do “grande assassinato coletivo”. Ali, o progresso antagonizou a evolução.


Adaptacionismo e evolução

O isolamento, que cria o cadinho da raça em formação, é o expediente que se contrapõe à fraqueza e instabilidade do caldo genético e cultural formador. Inicialmente, Euclides considera as raças americanas autóctones. Baseia-se ele na descoberta de Wilhelm Lund, conhecida como “homem de Lagoa Santa” (MG), que até recentemente foi o melhor fóssil brasileiro (até a datação de “Luzia”), atribuído a 10 mil anos antes do presente.

Além desse indígena autóctone –que representará o máximo da adaptação- concorrem para o brasileiro o negro banto, originário de um continente onde “a seleção natural (...) se fez pelo exercício intensivo da ferocidade e da força” e o português, representando o “fator aristocrático” e derivado, por vários caldeamentos, da “vibrátil estrutura intelectual do celta”. Sobre essas tres raças, atua “o meio físico diferenciador –e, ainda, sob todas as suas formas, as condições históricas adversas ou favoráveis que sobre eles reagiram”.

Como neolamarckiano, essa idéia embasa a teoria geral sobre a ação do meio. Este tratamento é completamente diferente daquele dado por Silvio Romero, que condicionou o mestiçamento na forma desejada a uma diminuição do cruzamento dos povos inferiores e “uma escalada cada vez maior com indivíduos da raça branca”.

Entende Euclides que, enquanto as transfusões se fazem –isto é, enquanto as hereditariedades se amalgamam–, os organismos entram em período de fraqueza e o meio, que “não forma as raças”, cresce momentaneamente em importância,estampando-se no corpo em formação com maior força do que normalmente. Ora, a seleção natural é o mecanismo que “escolhe” aquelas formas que, dentro do tipo, apresentam as condições úteis diante do meio. E, por ser “indefesa” a raça em formação, Euclides da Cunha é contrário tanto à miscigenação instabilizadora quanto à imigração não controlada.

Inversamente, o que chamamos, em sua obra de “esperança amazônica” corresponde à elaboração racional da hereditariedade em um ambiente onde, por força da adaptação –a familiaridade cultural com o meio e a resistência às doenças tropicais-, os brasileiros levam vantagem em relação aos estrangeiros. Contrasta com essa situação ideal o sertão já acabado no seu trabalho histórico de elaboração de uma nova raça, mas tragicamente massacrado.

Como se vê, Euclides da Cunha não é um autor simples, de raciocínio plano. E, a par do seu estilo literário, a riqueza de seu pensamento está justamente no diálogo que estabeleceu com a ciência do seu tempo, manipulando-a de maneira original em vez de simplesmente macaqueá-la. Assim, a ciência –esse personagem central dos seus escritos– não é um “ruido” na sua literatura; antes, é a espinha dorsal da sua prosa. Por isso, não é possível penetrá-la sem considerar essa ciência que, datada, nos permite conhecer os seus limites, ao mesmo tempo em que desvenda a criatividade desse autor fundamental para nos entendermos como povo.


Publicado em 12/8/2008

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Carlos Alberto Dória
É doutor em sociologia, pesquisador-colaborador do IFCH-Unicamp e autor de "Com Unhas, Dentes e Cuca" (em co-autoria com Alex Atala), "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

1 - Silvio Romero, "História da Literatura", Rio, Livraria José Olympio, 1943,. vol. 1, p. 295.

 
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