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dossiê
CLÁSSICOS

A renovação de Euclides da Cunha
Por Carlos Alberto Dória

A idéia de que o autor de "Os Sertões" é “cientificamente ultrapassado” esconde aspectos originais do seu pensamento no contexto da ciência do século XIX

Alguém que estuda raças não é necessariamente um racista. Darwin estudou as raças humanas para combater o racismo, particularmente a tendência de se atribuir diferentes origens às raças (poligenia) e hierarquizá-las de modo a, por comparação de caracteres secundários (cor da pele, feições, conformação do cabelo, etc), legitimar a dominação de umas sobre as outras. O pensamento racista é um pensamento selecionista: visa eliminar ou submeter os “inferiores” como forma de triunfo dos “superiores”. O racialismo é o estudo da diferenciação dos caracteres secundários da espécie humana ao longo de sua história evolutiva.

A confusão é muito comum na historiografia, especialmente onde as ciências sociais carecem de maior aprofundamento. Entre nós, por exemplo, o conde de Gobineau é normalmente apresentado como campeão do racismo quando, desde os anos 1940, o insuspeito filósofo Ernst Cassirer demonstrou, de forma incontestável, o quanto este juízo sobre Gobineau é errôneo –jamais tendo ele associado racismo e nacionalismo.

Entre nós, Euclides da Cunha sofre, há um século, sob o mesmo equívoco. Ele foi um estudioso das raças, não um racista. Mesmo assim, na tentativa de salvar a sua “boa literatura” de sua “má ciência” (uma ciência que, à época, não poderia ser muito melhor), a crítica submete sua obra a uma análise mirabolante.

De fato, ele não é um “ensaista” à maneira de Silvio Romero, por exemplo, face à tendência de tomá-lo essencialmente como ficcionista. Mas esse tipo de leitura bipartida vem enfraquecendo ultimamente, fazendo “Os Sertões” reemergir como um texto que estabelece vínculos entre as ciências e a ficção, em parte desfazendo o processo de destituição de cientificidade da análise que Euclides da Cunha procedeu.

A bipartição da sua obra pela crítica literária começa com José Veríssimo, que apontava em Euclides o mesmo defeito “de quase todos os nossos cientistas que fazem literatura”. Também Silvio Romero apontara a dualidade na obra de Euclides, lembrando que ele ficará célebre pelo “estilo imaginoso, brilhante, marchetado de metáforas”, mas que também nela se podia identificar “o vinco de certas doutrinas sérias acerca de questões brasileiras, e o interessse pela genuína população nacional”.

Numa edição crítica de “Os Sertões”, a destituição de Euclides do campo das ciencias fica ainda mais clara nas palavras de Alfredo Bosi. Para esse crítico, “Os Sertões” é obra “irremediavelmente datada”, que é “naturalista no espírito, acadêmica no estilo”. Essa datação permite, paradoxalmente, salvar Euclides e sua obra do efeito da desatualização científica: “Euclides não se teria tornado um dos nomes centrais da cultura brasileira pelo determinismo estreito das ideias nem pelo rebuscado da linguagem: ele nos afeta apesar desses caracteres postos em crise pela ciência e pelo gosto do século XX”; ou seja, a estilização da ciência afeta o leitor moderno ao colocá-lo diante de um saber inútil porque desatualizado.

Mas como é possível separar aquilo que o autor intencionalmente amalgamou, salvando-o de si próprio? A resposta de Bosi é simples: “Entende-se a tônica posta no fator racial em ‘Os Sertões’ quando se remete o modo de pensar que enforma o livro à mente positivista que permeou a cultura de Euclides, engenheiro e militar na segunda metade do século XIX em um país culturalmente preso à França”. Em outras palavras, nada haveria de original e digno de nota no cientificismo datado de Euclides e estaríamos, mais uma vez, diante de um intelectual que é vítima do modismo de macaqueamento da cultura francesa.

Mas será que, “despolpado”, o texto de Euclides não nos apresentaria um “caroço” cheio de interesse para conhecermos a espécie de escritor que era?


Um Euclides moderno

De fato, bem distinto é o modo dos estudos euclidianos modernos, buscando “as relações existentes entre um dos discursos científicos euclidianos, o das Ciências Naturais, e as atividades e teorias nesse campo do conhecimento”, quando autor e obra servem “como elementos para reflexão sobre a prática científica no país”.

Nas letras brasileiras, o racialismo de Euclides da Cunha destaca-se não pelo macaqueamento de modas francesas, mas pela busca original de formulações que, de resto, permitiram que construisse uma metáfora nova sobre o processo de formação do povo brasileiro –bem distinta daquelas correntes, como é o caso de Silvio Romero e os demais autores que apostaram na miscigenação como o mecanismo natural de produção de um novo tipo físico e social.

Um exemplo notável no seu percurso é a consideração da obra de Luis Gumplowicz, um tipo bastante marginal na sociologia de então. Na bibliografia brasileira, ele é um verdadeiro “achado” de Euclides da Cunha. Sua dívida intelectual confessa com "A Luta de Raças", de Gumplowicz, é enorme. Por outro lado, esse era um autor que, segundo a apreciação de Durkheim, representava o esforço mais consistente de “transformação da sociologia francesa numa disciplina alemã”, ao passo que, para a crítica mais recentemente, tanto ele como Gaetano Mosca passaram a responder por uma concepção original de pessimismo numa sociedade predominantemente agrária que observa o processo evolutivo como um acontecimento histórico mundial.

A admiração por Ludwig Gumplowicz deve-se em parte à clareza com que ele expõe suas idéias em "A Luta de Raças" (1883) –que, no seu próprio entender, talvez devesse se chamar “história natural da humanidade”. Para ele, a sociologia era o estudo de grupos em conflito com vistas a produzir um conhecimento que, indo além do meramente descritivo –típico da antropologia, da etnografia e dos estudos arqueológicos–, pudesse atingir o plano das “leis científicas”.

O evolucionismo, ao qual se filiava Euclides da Cunha, servia de suporte “científico” às teses pessimistas sobre o futuro do país, considerado do ponto de vista de sua formação racial ou étnica. Essa atitude é notável em Euclides da Cunha, já então consagrado escritor, quando define nossa perspectiva histórica, em artigo de 1902 intitulado “Olhemos Para os Sertões”: “Realmente, considerando o nosso meio, os vários aspectos de nossa cultura, os indecisos traços da nossa atividade e da nossa iniciativa, e a nossa debilidade étnica ante o incomparável vigor desdobrado nos últimos tempos pelas nacionalidades que pleiteiam o domínio da terra, fizera-se pouco animadora a miragem dessa civilização centrípeta em que mal colaboramos. O embate das raças é a força motriz da história (...). Ora, temos acaso vitalidade nacional que nos faculte enterrar o estrangeiro nesse duelo formidável?”.

Sua preocupação é o expansionismo alemão a partir de Bismarck e nossa “pouca chance” diante dele. Essa a sua metáfora do enfrentamento mundial no massacre dos sertanejos com armamentos alemães. Ora, a narrativa euclidiana tem o inegável sentido de investigação acerca de um possível lugar que poderíamos ocupar, como nação nova, na história universal e, nesse particular, é um diálogo com a filosofia da história de Hegel que, apesar de fora de moda, era ainda a elaboração mais consistente deste gênero narrativo que dominou o século XIX.

Logo na “Nota Preliminar” de “Os Sertões”, Euclides assume a perspectiva do historiador do futuro, situando o seu relato num tempo no qual as “sub-raças sertanejas do Brasil” talvez já não existam, visto que “destinadas ao desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização”.

A esse historiador do futuro, contudo, cabe a tarefa presente de rever a filosofia da história de Hegel, pois o conhecimento que produzirá ao longo de “Os Sertões” indica a necessidade de corrigir as categorias geográficas que o filósofo alemão estabeleceu. “Hegel delineou três categorias geográficas como elementos fundamentais colaborando com outros no reagir sobre o homem, criando diferenciações étnicas (as estepes, as savanas e os desertos). Aos sertões do norte, porém, que à primeira vista se lhes equiparam (aos desertos), falta um lugar no quadro do pensador germânico”.

Silvio Romero preferiu, na sua "História da Literatura Brasileira" um outro contendor: a filosofia da história de cunho naturalista de Henry Thomas Buckle. Euclides da Cunha, que também toma Buckle em conta, em “Os Sertões” e nos textos sobre a Amazônia, busca evidenciar as “chances” de escaparmos aos destinos lá traçados para os povos que habitam desertos (no nosso caso, o sertão), bem como avaliar a possibilidade de inaugurarmos um novo ciclo civilizatório a partir da colonização racional das florestas.

Em outros textos seus, cabe à engenharia preparar a civilização de modo condizente com as nossas necessidades de povo em formação, atuando ela uma “reação contra o clima singular (...) porque para esses desastrosos desvios da natureza só vale a resistência organizada, permanente e contínua”.


A necessidade de isolamento e a esperança amazônica

Na Amazônia, já sob a pressão da exploração da borracha, Euclides identifica “um dos melhores capítulos da nossa história contemporânea”, pois o que ali está se realizando, é a “seleção natural dos fortes”, para a qual concorre “uma constituição física privilegiada”; para lá convergiram os “destemerosos de todos os quadrantes”, sobrepujando-se “os admiráveis caboclos do Norte, que os absorverão, que lhes poderão impor a nossa língua, os nossos usos e, ao cabo, os nossos destinos, estabelecendo naquela dispersão de forças a componente dominante da nossa nacionalidade”.

Na Amazônia, portanto, pode se dar a inversão da tese de Gumplowicz, pois o “conquistado”, por sua adaptação mais perfeita, absorverá o estrangeiro. Através da política de ocupação racional da Amazônia, o pessimismo histórico pode se converte em otimismo. Mas não é possível entender essa inversão de expectativa se não mergulharmos na ciência racialista de Euclides da Cunha –justamente o que não fazem os que preferem vê-lo como simples macaqueador de modismos europeus. O estudo dessas referências, ao contrário, nos mostra sua originalidade na medida em que ele dialogou com as teorias européias e as arranjou de novo modo, produzindo explicações originais sobre a formação brasileira.

Para ele, os tipos humanos que se formam no Brasil surgem a partir da “heterogeneidade de elementos ancestrais” combinados num modelo matemático, isto é, como possibilidade de “todas as variáveis de uma fórmula intricada”: os três elementos formadores –o negro banto, o indo-guarani e o branco– não nos dizem quais os reagentes que podem atenuar o influxo da raça mais numerosa ou mais forte e, assim, apenas servem para dirigir a nossa indagação. Desse modo, Euclides introduz um elemento que não se vê em Darwin, Haeckel ou Spencer, que é a idéia de proporção dos caracteres a serem transmitidos, herdados de cada componente, no momento mesmo de formação do novo ser.

“Os elementos iniciais não se resumem, não se unificam; desdobram-se; originam número igual de subformações –substituindo-se pelos derivados, sem redução alguma, em uma mestiçagem embaralhada onde se destacam, como produtos mais característicos, o mulato, o mamaluco ou curiboca, o cafuz”. A complicação que advém dessa situação de múltiplas combinações é que os seus produtos acabam substituindo as raças elementares na base do cálculo e em “dosagens variáveis do sangue”. Os tipos expressam, então, realidades multiplas e, em geral, instáveis. Nesse ponto Euclides dirá que erra a nossa sociologia ao perseguir a formação de um tipo étnico único no Brasil, “quando há, certo, muitos”.

Essa posição contraria o pensamento miscigenista que prevaleceu em nossas letras, especialmente após Gilberto Freire, e que via na história uma força diluente e tendente a produzir o homogêneo. Como não via a possibilidade de estabilização através da miscigenação, achava que a formação nacional só se daria em longo prazo. “Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo da vida nacional autônoma. Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social.”

Euclides acredita que, se ficássemos isolados um bom tempo na Amazônia, sem a pressão do elemento estrangeiro, certamente formaríamos a raça nacional ou nacionalidade. Essa a aplicação que ele faz do conceito de “raça histórica”, utilizado por vários autores –Ernest Renan, Gustave le Bon, Gumplowicz– e rejeitado por Silvio Romero.

1 - Ernest Cassirer, "O Mito do Estado", São Paulo, Códex, 2003.


2 - Alfredo Bosi, “Introdução” a "Os Sertões": edição didática preparada pelo professor. São Paulo: Cultrix/INL, 1973. p. 20.


3 - José Carlos Barreto de Santana, "Ciência & Arte: Euclides da Cunha e as Ciências Naturais". São Paulo: Hucitec/ Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001. p. 188.


4 - Luis Gumplowicz, "La Lucha de Razas". Madrid: La España Moderna, s/d. p. 5.


5 - Euclides da Cunha, "Obra Completa". vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1955. pp. 546-8.


6 - Euclides da Cunha, “Os Sertões”. In: "Obra Completa", vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1995. p. 99.


7 - Euclides da Cunha, “Plano de Uma Cruzada”. In: "Obras Completas", vol 1, p. 156.

 
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