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novo mundo
INTERNET

Respostas para YouTube
Por Gabriel Menotti

Evento Vídeo Vortex reflete os impasses da criação audiovisual na era das redes sociais de imagens

Termos como “contemporaneidade” e “novas mídias” são práticos por causa da sua falta de precisão. Fôssemos definir exatamente do que estamos falando, o momento teria passado, e as mídias já não seriam tão novas.

Por isso, seu uso indiscriminado não é simples falta de prudência e poderia ser encarado como metodológico: um esforço de calcar no presente as reflexões futuras, que nos abre a possibilidade de nos engajarmos com uma história que ainda fervilha.

Mas esse campo de especulação se reconfigura constantemente, conforme as práticas que ele envolve se consolidam ou são esquecidas. E, se já não faz sentido falar em internet como nova mídia, quanto mais em “vídeo”. Uma alternativa para continuar investigando esses suportes é apertar o foco e criar especialidades.

Um evento que se empenha nessa concentração temática é o ON_OFF, cuja quarta edição será realizada no Instituto Itaú Cultural, no fim de julho. A mostra busca reunir práticas audiovisuais baseadas na edição e composição de imagens ao vivo.

Mas ainda mais avançado na discussão dos novos formatos audiovisuais está o Video Vortex, uma plataforma para a discussão de vídeo online organizada pelo Institute of Network Cultures holandês.

Inaugurado em 2007, o Video Vortex já se mostrava muito bem focado, encarnando uma crítica quase pragmática: ele buscava literais “responses to Youtube” –ou seja, reações a esse site que rapidamente havia se tornado sinônimo de vídeo na internet e que possivelmente anunciava outras direções para o formato audiovisual.

Os tópicos dessa mudança de paradigma foram sumarizados por Geert Lovink, cabeça do Institute of Network Cultures, no artigo que abre a coletânea de textos do Video Vortex publicada recentemente em livro e disponível para download na internet (acesse a coletânea no Link-se, no final deste artigo).

Em primeiro lugar, diz Lovink, pesa o fato de não mais assistirmos cinema ou televisão, mas bancos de dados. As programações pré-definidas de outrora estão sendo substituídas por “playlists” pelas quais navegamos.

Nesse quadro, buscar uma imagem se torna quase tão relevante quanto vê-la, e o procedimento de espectação está submetido à dispersão cognitiva própria da internet: vídeos são assistidos enquanto conversamos no MSN ou editamos fotografias.

Se por um lado essa situação coloca por terra a idéia de atenção total –um dos mitos fundadores do cinema–, por outro ela abre espaço para todo o potencial da câmera-caneta do cinéma-vérité: o vídeo como ferramenta para “rabiscar” impressões de mundo.

No YouTube, esse conjunto de mudanças se estabiliza, transformando-o tanto em um objeto quanto em um campo de pesquisa muito apropriados. Ao favorecê-lo como tema, o Video Vortex agilizou sua própria expansão, evitando o beco sem saída das contra-hegemonias mais ingênuas.

Depois da primeira conferência em Bruxelas, em 2007, seguida de uma exposição em Amsterdã, no Instituto de Novas Mídias da Holanda, outras três foram organizadas, em ritmo semestral: ano passado, em Amsterdã (Holanda) e Ankara (Turquia); e mais recentemente, entre 21 e 23 de maio, em Split, na costa da Croácia.

Essa última edição foi aberta com uma palestra de Lev Manovich, que apresentou o trabalho que tem desenvolvido na Universidade da Califórnia: analítica cultural. Aparentemente, Manovich tem feito turnê para propagandear o tema, coletando as mais diversas reações. No final de julho, ele ministrará um workshop sobre o tema no File, em São Paulo.

A idéia principal por trás de sua nova metodologia de pesquisa é usar o crescente poder computacional para dar conta da produção desenfreada de objetos culturais (“mais mídias”), obtendo mapas de informação totais.

Ao invés de analisar apenas uma amostra do campo de estudo, como os cientistas normalmente fazem, ele se propõe a abarcá-lo em sua totalidade –digamos: não 20, 30 ou 100, mas todos os vídeos do YouTube. E em tempo real.

Não deixa de ser uma proposta impressionante. As plateias de Manovich ou questionam em que isso é diferente de outros métodos quantitativos, alienados de um engajamento crítico com o campo de estudos, ou simplesmente ficam de queixo caído ante seu poder de fogo.

Seu laboratório acaba de obter meio milhão de dólares para construir um primeiro sistema inteiramente funcional de “cultural analytics”. Talvez seja possível acompanhar a produção da interface no blog de Manovich, que é bastante generoso com resultados de pesquisa.

Por mais que essa confusão entre mapa e território possa ser criticada, não há duvidas de que as idéias de Manovich novamente serão objeto de ampla discussão e trabalhos escolares.

Isso ficou evidente no próprio Video Vortex, visto que sua fala de abertura foi citada por vários pesquisadores que se apresentaram no evento –e alguns até alteraram suas apresentações por conta dela.

No entanto, essa dinâmica também diz muito a respeito ao próprio Video Vortex. Novamente, a concentração temática parecia ser um ponto positivo, animando os painéis. Uma apresentação frequentemente citava outras, seja como forma de embasamento ou de estabelecer diálogo –afinal, estavam todos ali falando da mesma coisa, por ângulos (bem) diferentes.

As pesquisas se iluminavam mutuamente, e o objeto do evento, ainda que parecesse predefinido, era construído nesse cruzamento de fachos de luz.

Andreas Treske, professor da Universidade de Bilkent-Turquia, ponderou sobre os diferentes enquadramentos do vídeo online: da composição dentro do quadro à página em que a obra está incrustada e lhe serve de moldura.

Essas idéias ecoavam silenciosamente na apresentação performática do videomaker italiano Albert Figurt, que chamava a atenção para o descompasso de resolução entre as câmeras caseiras e os monitores HD.

Em outro painel, Jan Simons dava seu veredicto sobre vídeos de celular: longe de serem legítimos produtos de uma cinematografia portátil, o grosso dessas obras é resultado de pós-processamento computacional.

“Na prática, os ‘pocket films’ não parecem ser definidos por seus meios técnicos de produção ou exibição”, afirmou Simons. Ao que eu respondia indiretamente, na minha própria apresentação, falando que um “vídeo de internet” deve ser encarado não como uma obra estável, mas como o resultado colateral de suas dinâmicas de circulação; um vídeo de celular passar a ser encarado como tal a partir do momento em que ele participa do festival apropriado.

O evento também possibilitou o engajamento orgânico das pesquisas com os seus objetos. Ao mesmo tempo em que a curadora Vera Tollmann, de Berlin, apresentava um panorama de trabalhos de videoarte no YouTube, explicando como “videoarte no YouTube diz tanto sobre o próprio YouTube quanto sobre as tendências em videoarte”, tínhamos uma exposição dessas obras acontecendo no saguão.

Entre as obras expostas, é interessante destacar “88 Constelations for Wittgenstein”, de David Clark, e “Mass Ornament”, de Nathalie Bookchin, que representam duas formas distintas de empregar a estrutura dos bancos de dados na produção audiovisual.

O trabalho de Clark é uma enciclopédica animação navegável, em que tópicos díspares –o World Trade Center, Carmen Miranda e pianos, entre outros– são amarrados em um sistema aparentemente fechado.

Já o de Bookchin é um “mashup” de assombrosas proporções, sincronizando vários trechos de pessoas dançando encontrados no YouTube em uma única e enorme videodança. Enquanto o primeiro usa a estrutura do banco de dados para produzir coerência, o outro revela a coerência inerente a um arquivo online como o do YouTube.

Desde que surgiu, o Video Vortex cresceu lenta e gradativamente, acumulando participantes. Boa parte do público em Split havia estado presente nos eventos anteriores –a exemplo do próprio organizador desta edição, o documentarista Dan Oki.

Entre os encontros presenciais, os participantes mantêm contato por uma lista de discussão aberta, que é a forma mais direta de integrar-se à plataforma. De todo modo, seu foco são mesmo as conferências, e não é surpresa que o próximo Video Vortex já estivesse marcado antes deste terminar. Em novembro, ele volta a Bruxelas, dessa vez com uma finalidade ainda mais prática em vista: repensar sua organização.


link-se

Video Vortex: http://networkcultures.org/wpmu/videovortex

Fotos do Video Vortex em Split: http://www.flickr.com/photos/networkcultures/sets/72157618644983756/

Institute of Network Cultures: http://networkcultures.org

Cultural Analytics: http://lab.softwarestudies.com/2008/09/cultural-analytics.html

Critica da apresentação de Manovich em Paradiso: http://mastersofmedia.hum.uva.nl/2009/05/26/lev-manovich-cultural-analytics-lecture-at-paradiso

Blog Lev Manovich: http://www.manovich.net

Workshops FILE 2009: http://va-grad.ucsd.edu/~drupal/node/957

Andreas Treske: http://www.bilkent.edu.tr/~treske

Albert Figurt: http://www.youtube.com/albertfigurt

Jan Simons: http://jaasi.blogspot.com/

Objets Propagés (versão 2006, em português): http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/menotti/rants/objets/

Vera Tollmann: http://www.v2.nl/archive/people/vera-tollmann/view

David Clark: http://www.chemicalpictures.net/

Mass Ornament, Natalie Bookchin: http://rhizome.org/editorial/2653

Lista de Discussão Video Vortex: http://listcultures.org/mailman/listinfo/videovortex_listcultures.org

Video Vortex Reader: Responses to YouTube (PDF): http://networkcultures.org/wpmu/portal/files/2008/10/vv_reader_small.pdf

Video Vortex - Netherlands Media Art Institute's response to the Web2.0 phenomenon: http://www.montevideo.nl/en/agenda/detail_agenda.php?id=224

Cimatics Festival, anfitrião do Video Vortex 5: http://www.cimatics.com


Publicado em 13/7/2009

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Gabriel Menotti
É mestre e doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e PhD candidate no Goldsmiths College, Universidade de Londres. Atua como produtor e curador independente.

 
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