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MICROFONE

Poesia em movimento
Por Fernando Masini

Febre na França, "poetry slam" chega ao Brasil para tirar os versos dos livros e colocá-los na boca dos poetas

Com a frase “só é livre quem se livra dos livros”, o porto-alegrense Fabio Godoh, 30 anos, que não gosta de ser chamado de poeta, condensa sua filosofia impiedosa: para ele, a poesia deve ser pulverizada de uma vez por todas. E tirá-la do seu lugar canônico, as páginas de um livro, é o primeiro passo. Foi isso que ele tentou com outros amigos em 2007, num torneio de poesias mal-sucedido, que marcou data como o primeiro "poetry slam" do Brasil.

O nome gringo "poetry slam" vem de Chicago e consiste em uma batalha de poetas da qual sai um vencedor avaliado por um corpo de jurados. É praticado desde 1987 nos EUA, em bares, cafés, escolas e até na rua. A modalidade virou febre por lá, com festivais internacionais e convidados vindos da Europa. A moda pegou também em Paris e se espalhou pelo mundo.

E, 20 anos depois, Fabio tentou emplacar o evento na capital gaúcha. Organizou tudo na Assembleia Legislativa da cidade, em parceria com o poeta Marcelo Noah. Eles convocaram os jurados responsáveis pelas notas dos poemas, escreveram as regras aos participantes e, no fim, foram expulsos do local porque, segundo ele, a anarquia emotiva do pessoal "extrapolou". A solução foi organizar o torneio em frente ao prédio, na calçada e com um sistema de som improvisado.

A ideia seria aproveitar o evento para lançar o disco-poema “Trinta em Transe”, uma amostra da poesia falada de 33 jovens poetas de Porto Alegre. “O slam apareceu como uma solução para o espetáculo de lançamento do disco. Juntar esse pessoal tão heterogêneo numa competição nos pareceu algo sedutor, tanto sob o ponto de vista da dessacralização literária quanto sob o aspecto de oferecer uma oxigenação aos tediosos ‘saraus’, infelizmente muito comuns aqui na cidade”, explica Fabio.

No final de 2008, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, um teatro dedicado ao hip-hop que fica no bairro Pompeia, em São Paulo, trouxe a ideia para a capital paulista. Sob o nome Zap (Zona Autônoma da Palavra), as diretoras e atrizes Roberta Dalva, 30, e Claudia Schapira, 44, abriram o microfone do espaço para poetas subirem no palco e disputarem prêmios –nas primeiras edições foram livros– falando textos próprios. A fórmula deu certo e, desde fevereiro deste ano, passou a ser realizada regularmente _na segunda quinta-feira de cada mês, a partir das 19h.

O espaço vira ambiente de bar durante o evento. Mesas são espalhadas na frente do palco, onde há um microfone e uma lousa repartida em cinco colunas: nome do poeta, as três rodadas que formam a disputa e o campeão. O clima é bem descontraído. No cardápio do bar, pode-se pedir vinho, cerveja a dois reais, refrigerante, água e mix de castanhas. De sobremesa, brigadeiro. O cenário é proposital. Roberta, que ficou um mês e meio em Nova York atrás de informações sobre a disputa, diz que a maioria é realizada em bares e pubs.

Ela já fazia um espetáculo de "spoken word" (poesia falada) antes de criar o Zap. Desenvolveu o projeto depois de perceber a boa reação da platéia que assistiu seu monólogo. Resolveu estender o hábito a outros poetas. “Tem muito jovem procurando um lugar para se expressar nas metrópoles. Vejo a necessidade de as pessoas se reunirem e ouvirem uns aos outros. Esse é o espírito do slam”, diz Roberta.

O torneio começa com um aquecimento entre os participantes. Para fazer parte do jogo, basta levar sua poesia, no papel, ou na cabeça, e se inscrever na hora com um mesário. Na primeira rodada, qualquer um pode se levantar e falar sua poesia no microfone. As regras são básicas: os poemas devem ser de autoria própria, ter no máximo três minutos e não pode haver acompanhamento, cenário ou figurino.

Além de organizadora, Roberta é a mestre de cerimônias. Ela anuncia as regras do jogo e pede o apoio da galera. O público é formado por cerca de 100 pessoas de uma diversidade que salta aos olhos: rappers que soltam o verbo sobre questões sociais, garotas de 15 anos, crianças acompanhadas pelos pais, artistas plásticos, estudantes universitários e idosos. O que mais Roberta pede é para que a platéia se manifeste após cada apresentação.

“Mais do que a competição, o importante é a diversidade. A mistura é a alma do negócio. É a poesia de volta nas mãos das pessoas, fora da academia”, afirma a apresentadora. Um dos mais engraçados e talentosos ali é Alex, um senhor de boina e barriga saliente, que ocupa o microfone para contar em versos um sonho que teve com Dick Farney. Após as três rodadas, ele foi um dos finalistas. O júri é formado na hora, de improviso, convocando gente da platéia para dar notas, que vão de 0 a 10. São cinco jurados e as duas notas mais extremas são descartadas.

Outro finalista foi o estudante de letras e ator André Cidão, 22 anos, que ouviu de uma amiga sobre a oportunidade de falar seus poemas. De estilo mais trágico e uma atuação que dá peso a cada palavra que sai da sua boca, ele declamou “Amor de mãe e fome de filho” numa das fases eliminatórias. O poema termina com os versos:

"Atende, a velha fome da nova menina
Entende, que deitar em precisão é sua sina
Ás seis, a igreja de Nossa Senhora toca o sino
Ocêis, boceja, ora e dorme essa fome de menino".

“O que o slam possibilita é um deslocamento do espaço habitual do poema, o livro, para o confronto artístico onde o resultado interessa menos do que o processo. A atmosfera de um confronto pacífico e artístico, de fases e notas, instiga a curiosidade e o interesse. Abre a possibilidade de troca e acesso entre os poetas e um público variado. O slam é uma forma de unir o poder poético com a performance do próprio autor”, destaca André.

Desde sua fundação em Chicago, quando Marc Smith deu forma às primeiras batalhas de poesia no Green Mill Tavern, o slam tem se caracterizado por deixar a poesia menos engessada e por promovê-la em ambientes menos eruditos. “É uma forma de arte e diversão aberta a todos –jovens e adultos, ricos e pobres, gays e héteros, padres e prostitutas. Uma mistura multicolorida que reúne pessoas que gostam de falar e ouvir”, diz Smith.

A arte de falar em público, o ritmo das palavras, os gestos e a entonação da voz tornam-se elementos mais importantes do que o próprio texto escrito. A forma como o poeta encadeia cada verso, faz pausas e interage com a platéia são os quesitos mais avaliados pelos jurados. Não à toa, o vencedor da última edição de São Paulo foi o cantor de rap, Dugheto, que usou o espaço para passear entre as pessoas como se estivesse num show e fez de suas letras um libelo contra as injustiças. Dizem os mais entendidos que o slam tem um pé no jeito que os Mc´s se apropriam das palavras, outros enxergam uma ponte com os beatnik, em escritores como Jack Kerouac e o porto-riquenho Miguel Piñero.

“É como se fosse um jogo na boca do poeta e as palavras dançando. É a encenação da palavra na performance do artista. E cada um tem seu ritmo”, diz Claudia Schapira, uma das fundadoras do Núcleo Bartolomeu. Ela vai buscar mais longe as origens e acredita que a modalidade remonta aos trovadores e a uma tradição oral muito antiga.

Hoje a modalidade conta com mais de 500 eventos espalhados pelo mundo, e Paris virou um dos epicentros. Isso se deve a um cara chamado Fabien Marsaud, também conhecido como Grand Corps Malade. É um jovem poeta francês, nascido em 1977, em Saint Denis, no norte da França. Ele foi responsável por difundir o conceito de slam em bares franceses. Passou a fazer workshops em escolas e lançou dois álbuns com poemas musicados, “Enfant de la Ville” e “Midi 20”.

Outro reduto do slam ainda na ativa é o Nuyorican Poets Cafe, no East Village, em Nova York. Foi ali que poetas de origem porto-riquenha se agruparam para contar seus escritos e encenar seus poemas. Um dos mais atuantes foi Marcelo Piñero, poeta e dramaturgo que escreveu a premiada peça “Short Eyes”, enquanto cumpria pena na prisão por roubo e tráfico de drogas. Piñero vivia declamando poemas no gueto e nos cafés que frequentava. Foi um dos pioneiros do "spoken word", a poesia falada que influenciou rappers como Public Enemy e Tupac Shakur. Morreu de cirrose em 1988.

“Muito do seu trabalho foi feito sob a atmosfera sócio-política das prisões, absorvendo a cultura negra e latina dos guetos”, diz o parceiro de Piñero, Miguel Algarin, o único sobrevivente do grupo de fundadores do Nuyorican. Desde 1989 promovendo competições de poesia, o café é um dos mais antigos pólos de slam nos EUA.

Enquanto isso, aqui no Brasil, a modalidade busca sua afirmação de boca em boca a fim de dar voz a novos poetas e juntar talentos.


Publicado em 28/6/2009

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Fernando Masini
É jornalista.

1 - Veja o clipe de “Je Viens de Là”, faixa do seu último álbum “Enfant de la Ville: http://www.youtube.com/watch?v=FYhDtJNhLAI

 
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