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Creio que essa é uma forma de fazer com que este mundo entenda que povos como os Marubo não são imbecis, isto é, que detém conhecimentos ricos com os quais se deve travar relações de interlocução criativa e intelectual. E isso precisa ser feito através das nossas instituições (teatro, cinema, livros, debates acadêmicos). Todo esse processo de autorização para circulação dos conhecimentos está devidamente registrado e documentado. O trabalho com a Cia. Livre, no entanto, é uma livre recriação de um material original. Esse é um procedimento corrente nas mais diversas criações artísticas –a reconfiguração de referências para a composição de uma obra. Nesse ponto, eu me torno o autor do texto dramatúrgico, que parte de uma referência determinada: no caso, de uma estrutura narrativa mítica que não se restringe aos Marubo, que pode ser encontrada em outros povos indígenas, mas também na mitologia xintoísta, grega, egípcia, e por aí vai. Ainda que a estrutura seja universal, a narrativa original foi porém "atualizada", ganhou vida em um canto específico, que pertence aos cantadores marubo. Eles devem ser considerados então como "autores" ou "detentores" do conhecimento em questão, mesmo que por critérios distintos daqueles sobre os quais se fundaram as relações de copyright e de propriedade privada no Ocidente (bem como de seu inverso complementar, o pressuposto equivocado do "comunismo primitivo"). O conhecimento referente ao mito original chegou até mim através de um acúmulo de relações, experiências, memórias e compromissos: foi repassado pelas únicas pessoas habilitadas a transmitir aquela narrativa, o que constitui um domínio de autoria, mesmo que o conhecimento mítico seja propriamente virtual. Isso tudo é reconhecido pela Cia. Livre, que reserva direitos aos Marubo. Além de minha porcentagem como autor do texto dramatúrgico (que eu de toda forma escolho dividir com eles), uma cota dos eventuais valores gerados pela produção teatral (endividada no presente momento) é necessariamente reservada aos cantadores marubo, que são considerados como detentores/autores do "material original".
Cesarino: A relação entre teatro e antropologia não é nova, teve um grande impulso das décadas de 1960 e 70 com os trabalhos de Victor Turner, Jerzy Grotowski, Peter Brook, Eugenio Barba, Richard Schechner, entre outros. O encenador inglês Robert Wilson produziu recentemente um grande espetáculo teatral que parte de um ciclo mítico indonésio ("I La Galigo"). Antes disso, Peter Brook adaptou o "Mahabharata" para o cinema. Ainda antes disso, toda a cultura de vanguarda da passagem do século XIX para o XX estava voltada para a recriação de referenciais extraocidentais. Todo esse debate está de certa forma fora de moda na antropologia atual: creio que se torna agora possível reavaliar a relação entre teatro, performance e antropologia, ampliando os horizontes já lançados pelos autores acima mencionados. O trabalho realizado com a Cia. Livre não pretende ser, de toda forma, uma renovação antropológica, não é um trabalho de antropologia, mas de criação artística. Parte de um conhecimento que, infelizmente, ainda se restringe à produção de etnologia e o faz circular em um ambiente artístico. Neste ponto, a Cia. Livre é inovadora, tenta superar os vícios modernistas e evolucionistas do senso comum com relação a povos indígenas, toma conhecimento do que se produz em antropologia e oferece um espetáculo original para a cidade. A circulação de um espetáculo teatral se dá por ambientes bastante distintos do conhecimento antropológico –bastante democráticos no caso da Cia. Livre– e representa portanto uma contribuição importante para a sociedade e a cultura brasileiras.
Cesarino: O espetáculo não busca paralelismos, busca dissonâncias. Ele é, acima de tudo, um laboratório, uma experiência de entrecruzamento de informações. Como eu disse acima, os próprios Marubo fazem reflexões sobre os "modernos" através do pensamento mítico –o vício da oposição entre mito e modernidade é, portanto, nosso. Podemos ter sido mais ou menos felizes com relação à tentativa de explicitar ou de problematizar essas dissonâncias (cosmológicas, no caso) –algo que passa pelas reações e expectativas do público, pelo repertório criativo dos atores, da cenografia, da direção e do dramaturgo. Um material original como esse pode receber diversas opções de interpretação criativa e a aproximação com "o contemporâneo" é sem dúvida arriscada, pode conferir uma inquietação ao espetáculo ou se tornar clichê. Ainda estamos testando e aprimorando essa aproximação, que se tornou necessária quando começamos a perceber que o espetáculo estava ficando delirante demais, construído em cima de referências que seriam imediatamente interpretadas como surreais pelo público, oferecendo, também, uma outra margem para distorções ou enfraquecimentos da "potência de estranhamento" dos referenciais indígenas. Mas vale lembrar dessas duas ressalvas: os índios realizam reflexões sobre o "moderno" ou "não-indígena" que estão presentes no mito original em que se baseou o espetáculo; o espetáculo é uma livre recriação, para a qual decidimos selecionar um eixo que nos parecia premente e capaz de realizar uma comunicação com o público: a relação entre vivos e mortos, a reflexão sobre os limites do humano e as distintas elaborações da finitude por nós e por outrem. Esse foi o ponto de aproximação entre os dois referenciais. A opção pode servir como referencial para outras interpretações futuras que, espera-se, venham a ser realizadas não apenas pela Cia. Livre.
Cesarino: Não me sinto habilitado para responder a essa pergunta, não posso adivinhar a experiência alheia. Eu gostaria, no entanto, que eles pudessem travar contato com a criação teatral e com as outras tantas criações de pensamento e de arte do nosso mundo. Tenho interesse em viabilizar esse encontro, que no entanto depende de recursos e apoios não disponíveis no momento. Um Suruí (de Rondônia) que foi assistir ao espetáculo fez no entanto o seguinte relato à atriz Lúcia Romano: disse que conhecia essa história, que ela aconteceu com seu avô. Falecido, o avô demorou para ser enterrado por seus parentes. Acabou retornando e se transformou em xamã. O rapaz suruí disse, então, que, no teatro, as personagens não haviam deixado Lúcia (isto é, Maya, a sua personagem) se transformar em xamã, já que ela permanece morta, se desfaz, desaparece. Isso mostra que as fronteiras são mais criativas e abertas ao pensamento e ao diálogo do que imaginamos.
. Bia Labate |