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Eu tinha uma timidez em lugares mais fechados, mas tinha uma coisa muito livre nas festas de rua, nesse movimento da vida. Mesmo em situações precárias, difíceis, caóticas, você se reinventa. Eu comecei a perceber que eu estava ali me nutrindo de memórias. É uma força que tem a ver com a herança africana, reinventada no Brasil de uma maneira particular. Sou fruto desse casamento todo.
Miguel: Com 18 anos. Eu fui office boy de uma agência de publicidade, de 16 para 17 anos. Comecei a fazer trabalho de produção gráfica, percebendo que eu podia crescer na agência. Trabalhava como um condenado, parecia que eu estava pagando pecado. Virei assistente de produção gráfica. Até que um dia percebi que estava colocando todo o meu tesão artístico de lado. O teatro já era um espaço que eu tinha como exercício quando adolescente. Com 14 anos, fazia parte de um grupo que viajava no interior da Bahia. O primeiro espetáculo que eu protagonizei foi “A Viagem de um Barquinho”, da Sylvia Orthof. Eu tinha aquela energia adolescente, saltava no palco, pulava. Para mim aquele espaço sempre foi sagrado. Eu era um menino normal, jogava bola em Salvador, mas tinha o teatro como lugar sagrado. Não sabia o que significava, nem achava que ia seguir fazendo isso. Quando comecei a trabalhar, um dia me veio um pensamento: é melhor eu fazer isso logo, porque, senão, com 40 anos, vou parar tudo para querer fazer. Aí fui para o Rio, fazer CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), no começo dos anos 90. Comecei a trabalhar com o Luiz Carlos Vasconcelos, num exercício mais voltado para o ator. Ali eu encontrei o palhaço, que foi uma novidade incrível para mim.
Miguel: A gente fazia saídas de palhaço, ia para a feira de palhaço. Todo sábado íamos para a mesma feira, na hora da xepa. Cada um voltava para casa com sua sacola, era quase uma doação. Essa coisa, que começou muito cedo, passou a ser meu ganha-pão. Eu percebi que o espaço da criação é um espaço de busca de si próprio. É um espaço para você não cair numa loucura que seja destrutiva. Quando eu encontrei o “Bispo”, foi um divisor de águas. Eu passei a questionar muito: por que eu faço isso? Para quem eu estou fazendo isso?
Miguel: Sempre. Não no sentido chato, pernóstico, mas no sentido investigativo. Eu não acredito no artista que se acomoda. Acho que você pode ganhar dinheiro e também não se acomodar. Não pretendo ter verdades sobre essa coisa do mercado. Acredito no diálogo. Prefiro não me posicionar de uma maneira militante, mas ser eu mesmo, ser coerente com meus anseios. Hoje estou fazendo um trabalho e amanhã posso fazer outro e continuar sendo coerente. Tenho um amigo africano que diz que a gente não pode plantar feijão e colher arroz. Não importa o tamanho ou a forma desse feijão. Nesse sentido, eu acredito na pluralidade. Tem que existir o cinema comercial e o cinema autoral, por exemplo. Acho que isso pode se conversar.
Miguel: Foi algo que aconteceu. Saí da Bahia várias vezes e voltei. Da segunda vez, eu me casei. Criei laços, fiz o “Bispo” na Bahia. De repente, me separei e tive vontade de sair de novo. Sou sempre um estrangeiro. Mesmo na Bahia, eu nunca estou morando lá. Em São Paulo, tenho a mesma sensação. O “Bispo” estava em cartaz e eu vim para São Paulo com a peça. A cidade me acolheu de uma maneira muito orgânica. Um amigo meu, o Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, poeta maravilhoso, diz que São Paulo é igual a uma mãe ossuda: não tem muita carne, mas te acolhe. Achei aquilo maravilhoso, é isso mesmo. Eu gosto dessa cidade de imigrantes, que reúne diferentes pessoas.
Miguel: Claro, é um aspecto que vem do palhaço e eu quis desenvolver de outra forma dentro do roteiro do filme. Eu levo o palhaço para todo lugar. E quando não rola, fico bastante angustiado. O palhaço para mim é o estado do patético, é o estado em que o homem pode se desnudar com todo o seu ridículo. A gente tem grandes atores-palhaço na história do cinema, como Grande Otelo, Oscarito, Dercy Gonçalves. É maravilhoso. Nonato (protagonista de “Estômago”) é um presente, posso passar pela caricatura sem deixar de ser humano.
Miguel: Ele é um personagem antropofágico. Engole os patrões a partir do talento para a comida e a partir de sua fragilidade. Isso diz respeito à realidade. Quantos códigos de poder existem como esse no filme? De um empregado que olha para o patrão de maneira simpaticíssima, mas na verdade quer matá-lo.
Miguel: É um cara que não sabe amar. Apesar de ser um personagem difícil, foi muito gratificante para mim. Fiquei quatro meses em Minas, dois filmando e dois preparando o personagem com as crianças. Eu precisava de um afunilamento da realidade, porque é um filme que tem essa relação do homem com o espaço. “Mutum” pediu esse mergulho no lugar. Sandra Kogut (diretora do filme) quis um tom documental, quase invisível de representação. O estado do pai é muito duro e triste. Ele tenta, mas não consegue amar.
Miguel: A profissão de ator é difícil, você tem que acreditar muito. Tem que estar sempre se revisitando, se perguntando. Até hoje eu me faço as mesmas perguntas: por que eu estou fazendo isso? Me interessa exercitar esse ofício não como fim, mas como meio. Faz com que eu possa ter encontros e me permite dialogar com outros universos. Televisão é um universo a se dialogar, o teatro é outro universo, mais profundo, de busca. Eu gosto muito de escrever também. Acho que algum dia vou potencializar isso. A premissa do trabalho de um ator é o envolvimento, o mergulho. Eu procuro não ter preconceitos com qualquer meio, mas tento ser coerente com o que eu estou buscando ali na hora, com o que se apresenta na hora. Nós não temos respostas para tudo. É um quebra-cabeça que vai se montando. É uma profissão em que muitas vezes o chão não é firme. Você vive numa areia movediça. Mas há retornos maravilhosos como resultado dessas buscas.
Miguel: A nossa realidade econômica é muito instável em si. O nosso país é instável. Eu não diria que eu não sou afetado por ela. Mas vivo do que eu faço, vivo com dignidade. A partir do momento que a indústria se consolida, há espaço para o ator sobreviver a partir da demanda de trabalho que se tem. Hoje, em tudo, o nível de competição é muito maior. A televisão, por exemplo, é um espaço mais industrial. Acho isso legítimo, que tenha um espaço industrial para os atores, como é o cinema nos EUA, como é o teatro em outros países. O que vai fazer a diferença é você ter o que dizer. Eu acredito no aspecto artesanal do homem.
Miguel: O Brasil tem excelentes atores. No cinema, por exemplo, os diretores ainda vão detonar seus próprios processos com os atores. Isso faz parte de um amadurecimento. A gente já tem, e ainda vai ter mais, o não medo de encontrar o ator, que é encontrar a si próprio. Essa simbiose do ator com o diretor é muito particular. Você entra numa intimidade de descoberta que é muito bacana. Uma preparação de ator deve servir para potencializar isso. José Dumont falou um dia uma coisa genial: que o brasileiro é tragicômico. Eu concordo plenamente. As duas coisas andam muito juntas, e isso tem a ver com a juventude do nosso país, com a nossa mistura, com a nossa complexidade. E, quando a gente quer se enquadrar demais, não dá certo. Nós somos subversivos, naturalmente desobedientes. Às vezes, olhamos demais para fora de uma maneira meio cega, religiosa, querendo agradar. Mas, por dentro, temos uma puta contradição.
Miguel: Se vier um convite que seja sugestivo em todos os aspectos -artístico, financeiro também-, eu não tenho preconceito nenhum. Mas preciso me apaixonar pelo personagem, vislumbrar que ali dentro eu posso buscar alguma coisa. Alguma hora eu vou experimentar isso, sim. Posso dizer uma coisa tranquilamente: de todos os trabalhos que fiz, nenhum era a fórmula do sucesso. Acho bacana o fato de ser relativamente conhecido sem fazer muitos programas de televisão. Isso faz com que as pessoas tenham um carinho pelo meu trabalho. Na semana passada, uma senhora que estava vendo “Só” pela terceira vez, esperou o final da peça para conversar comigo. Chegou e falou de uma maneira muito singela: "Eu só queria dizer que gosto do seu trabalho". Se meu trabalho a tocou, é porque se abriu um canal ali que para mim é sagrado. Eu gostaria de tocar os 70 espectadores, mas se eu toco apenas um de verdade, quer dizer que tem alguma coisa que preciso continuar descobrindo. Essa empatia do ator com o público é mágica.
. Fernando Masini |