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Pode-se notar, ao analisar estes dados, que os homens justificam suas traições por meio de uma suposta essência ou instinto masculino. Já as mulheres infiéis dizem que seus parceiros, com suas faltas e infidelidades, são os verdadeiros responsáveis por suas relações extraconjugais. Ou seja, no discurso dos pesquisados, a culpa da traição é sempre do homem: seja por sua natureza incontrolável, seja por seus inúmeros defeitos (e faltas) no que diz respeito ao relacionamento.

Se é inquestionável que, nas últimas décadas, houve uma revolução nas relações conjugais, pode-se verificar que, na questão da infidelidade, ainda parece existir um “privilégio” masculino, isto é, ele é o único que se percebe e é percebido como sujeito da traição. Enquanto a mulher, mesmo quando trai, continua se percebendo como uma vítima, que no máximo reage à dominação masculina.


No artigo em que coloca sob suspeita os projetos de lei da senadora Patrícia Saboya (PDT-CE), que prevêem o aumento de 4 para 6 meses do período de licença-maternidade e de 5 para 15 dias do período de licença-paternidade, você recoloca em termos bastante novos e ousados o direito e o dever à maternidade, mais legitimados socialmente que o direito e o dever à paternidade. Algumas das respostas de leitoras e leitores ao artigo me chamaram a atenção pelo argumento naturalista, ao acharem que o aleitamento materno legitima o privilégio do papel da mãe na formação dos filhos. Hoje em dia, quando todo um vocabulário fisicalista, ancorado em saberes biomédicos, prolifera pela mídia, que papel adquire a natureza na implementação de novas formas de dominação de gênero?

Goldenberg: Não critiquei o projeto da senadora. Ao contrário. Acho uma excelente iniciativa. No entanto, quis revelar como a paternidade tem sido colocada, culturalmente, em segundo plano na vida do homem e do casal. Como o espaço masculino ainda é restrito ao mundo público e como as mulheres exercem poder no mundo doméstico utilizando exatamente a ideia de uma natureza feminina.

Nas respostas que recebi, o que mais me chamou atenção foram os inúmeros depoimentos de homens que não conseguem exercer a função de pai, pois são impedidos pela mãe, pela sogra ou até mesmo pelas empregadas ou babás. Homens que querem ser pais e não podem, pois a cultura legitima apenas as mulheres como as que sabem as necessidades das crianças.


Você encerra "Coroas" com um artigo no qual resgata a potência dos movimentos pela liberdade e igualdade sexual que tiveram lugar em Maio de 68. Que vetores vêm operando na contenção da marcha rumo à igualdade de gênero inaugurada pelo movimento francês?

Goldenberg: A igualdade está cada vez maior, nada pode conter sua marcha. O discurso é de não-liberdade, mas os comportamentos tendem a uma igualdade cada vez maior.


"Coroas" é um livro que se constitui a partir de uma pluralidade de formatos, possui capítulos que se aproximam de um modelo mais tradicional de artigo, mas também conta com uma carta, com um diálogo via e-mail, com uma entrevista, com um texto de jornal acompanhado dos comentários de leitores. Você acredita na necessidade de adesão a novos formatos para dar conta das dinâmicas sociais contemporâneas e para fazer circular o pensamento crítico forjado no âmbito da universidade?

Goldenberg: Tenho procurado, com meus textos e livros, provocar os meus leitores a refletirem sobre questões que afetam diretamente suas vidas. Minha preocupação é atingir um público que sofre com questões que pensam ser só suas, mas que são, na verdade, culturais. O exercício de escrever tem sido, para mim, uma forma de militância política. No entanto, estou inserida no meio acadêmico e não posso perder de vista a dimensão científica e o rigor exigidos pelo meio.

Assim, busco combinar o rigor das minhas pesquisas acadêmicas com um texto que possa ser compreendido e apreciado tanto pelo leitor do mundo acadêmico como por aquele que não está nele. Não é tarefa fácil, apesar de parecer quando as pessoas lêem o produto final.

Na verdade, muitos escritores já falaram sobre “a dificuldade de escrever de forma fácil”. Tenho um projeto científico e político, ao mesmo tempo. Científico, pois sou uma professora e pesquisadora apaixonada pelo que faz, e político, pois quero que os meus leitores percebam como a cultura brasileira produz determinados modelos de dominação-submissão que cada um de nós reproduz.


A partir da percepção de seu esforço em produzir um texto sobre temas tão complexos como corpo, envelhecimento e (in) fidelidade, com uma linguagem acessível, mas que não abre mão da complexidade dos problemas, da densidade dos aportes teóricos ou do viés político, pergunto: você tem acesso ao perfil de seus leitores e leitoras e às ressonâncias sociopolíticas de sua obra?

Goldenberg: Tenho um site (veja o link no final desta entrevista) e todos os dias recebo e-mails de leitores dos meus livros ou de alguém que esteve presente em um debate ou assistiu a alguma entrevista. É um material maravilhoso, que me faz refletir sobre o impacto do meu trabalho. Posso dizer que são os meus leitores, meus alunos e meus pesquisados que mostram a verdadeira relevância do que faço.

São eles que, de certa forma, orientam minhas reflexões e minhas escolhas temáticas. Posso dizer também que os temas que tenho pesquisado se impõem a partir do que observo como relevante culturalmente. Tenho uma curiosidade infinita e uma obsessão permanente: compreender homens e mulheres, em suas diferenças e semelhanças culturais. São mais de 20 anos dedicados a esta obsessão e, tenho certeza, que ainda tenho muito a pesquisar e a aprender.



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Site de Mirian Goldenberg - www.miriangoldenberg.com.br


Publicado em 15/4/2009

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Icaro Ferraz Vidal Junior
É graduado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense e cursa o mestrado em Comunicação e Cultura na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 
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