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dossiê
VELHICE

A ditadura da juventude
Por Icaro Ferraz Vidal Junior

A antropóloga Mirian Goldenberg examina em seu livro "Coroas" como a pressão para que pareçam sempre jovens é uma fonte de sofrimento para as mulheres brasileiras

Numa sociedade em que o corpo jovem, magro e sarado é um capital pronto a ser negociado nos mais diversos mercados (afetivo, social, profissional etc.), cabe indagar se é possível uma relação com a passagem do tempo que não seja entendida exclusivamente como perda (de capital).

É com essa suspeita que a pesquisadora Mirian Goldenberg examina em seu novo livro, "Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade" (ed. Record), o modo como as mulheres brasileiras vem experimentando o processo de envelhecimento. Em contraponto, ela se debruça sobre outras culturas (como a alemã e a francesa) e esmiúça formas outras de envelhecer, cujos valores não estão exclusivamente ancorados nesse modo de entender o “corpo”.

O pensador italiano Massimo Canevacci escreveu sobre "Toda Mulher é Meio Leila Diniz", livro de Goldenberg sobre a atriz: “Pode-se ouvir, ao longo do texto, o murmúrio de um diálogo constante entre essas duas mulheres”. Em "Coroas", podemos ver uma nova inflexão deste profícuo diálogo entre a antropóloga e a atriz que, falecida em um trágico acidente de avião no início dos anos 70, presentifica-se em um livro politicamente comprometido com a emancipação da mulher brasileira deste início de século.

Uma pluralidade de formas –artigos, cartas, conversas via e-mail, entrevistas– constitui "Coroas". Comparecem Leila Diniz e Simone de Beauvoir, pensadores do porte de Pierre Bourdieu, Marcel Mauss e Gilberto Freyre, além do jornalista e pesquisador Alexandre Werneck e do antropólogo catalão Jordi Roca. Mas, sobretudo, estão presentes os leitores de Goldenberg, que compartilham inquietações e são afetados pelos problemas abordados, aproximando-se, neste sentido, da própria pesquisadora, professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, e autora de "Os Novos Desejos", "Nu e Vestido" e "De Perto Ninguém é Normal", entre outros vários livros.

De tantos diálogos resulta um trabalho polifônico e elucidativo da complexa rede de contradições que delineiam o tecido social contemporâneo, que nos é generosamente apresentada através de um estilo que prima pela clareza.

Mas não é apenas o corpo que é importante na cultura brasileira. Em suas pesquisas sobre casais, Goldenberg constatou que entre as mulheres na faixa etária dos 50 aos 60 anos, o marido mostrou-se ele próprio como um "capital" até mais desejável do que o “corpo”. Daí a idéia de “capital marital” que a pesquisadora desenvolve em "Coroas".

Na entrevista a seguir, a antropóloga fala de corpo e relações conjugais, interessada na desestigmatização dos "coroas", categoria na qual se inclui afirmativamente. "Todas as brasileiras, consciente ou inconscientemente, submetem-se a inúmeras pressões para serem jovens, magras, em boa forma. O que tem provocado muitas angústias e sofrimentos em mulheres que não conseguem corresponder a este padrão _praticamente todas", diz.

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Simone de Beauvoir, no fragmento que você escolheu como epígrafe de "Coroas", propõe que "não há, para a mulher, outra saída senão a de trabalhar pela sua libertação”. Ao descrever a criação do grupo Coroas, composto por mulheres com mais de 50 anos, que lutam contra a estigmatização do envelhecimento feminino, você apresenta uma série de argumentos que foram utilizados por suas amigas para não aderirem ao grupo. Baseada em suas pesquisas, a quantas anda este trabalho pela libertação entre as mulheres brasileiras?

Mirian Goldenberg: Acredito que muitas brasileiras já assumem sem tanto medo suas escolhas, mesmo quando fogem dos padrões. Se Leila Diniz é percebida até hoje como uma pioneira na luta pela liberdade das brasileiras, é porque muitas já podem viver mais plenamente a própria sexualidade, a escolha entre casar ou não, ter filhos ou não, opções que não seriam legítimas até muito recentemente.

No entanto, ainda me surpreende a extrema valorização que as minhas pesquisadas apresentam pelo fato de terem um marido, uma família, filhos. O centro de grande parte das mulheres que entrevistei é o fato de terem _ou não terem_ um homem “para chamar de seu”.

Portanto, posso dizer que encontro dois fenômenos paradoxais, aparentemente. A extrema valorização da liberdade e, ao mesmo tempo, a extrema valorização do casal, da família, do marido. Daí ter criado a idéia de que, no Brasil, o marido é um verdadeiro capital.


O sentimento de culpa pelo próprio envelhecimento que você descreve parece ser indissociável do desenvolvimento de novas tecnologias médicas e cosméticas, que se apresentam como instrumentos de contenção da ação do tempo sobre os corpos. De que modo se relacionam, nesse contexto em que o corpo jovem representa um "capital", a indústria da beleza e a auto-percepção do envelhecimento?

Goldenberg: O que desejei mostrar no livro "Coroas", e em outros estudos anteriores, é que no Brasil o corpo é um capital fundamental em diferentes mercados, não só no afetivo e no sexual. E que todas as brasileiras, consciente ou inconscientemente, submetem-se a inúmeras pressões para serem jovens, magras, em boa forma. O que tem provocado muitas angústias e sofrimentos em mulheres que não conseguem corresponder a este padrão _praticamente todas.

Também mostro como se produz a ideologia de que cada uma de nós pode ser _ou parecer_, se fizer tudo como prescrito, “dez anos mais jovem”, slogan deste mercado publicitário.

Até que um dia, pesquisando mulheres na Alemanha, elas me disseram de forma indignada: “Por que você gosta de parecer mais jovem do que é? Por que você não gosta de ter a idade e a experiência que tem? E ser uma mulher atraente por ter a idade que tem?”

As alemãs acham uma falta de dignidade este desejo de ser mais jovem, sexy, em boa forma. Acham que as mulheres podem ser atraentes por outros quesitos que se aprimoram com a idade: inteligência, maturidade, poder, realização profissional, conhecimento, cultura, independência etc. Para elas, as brasileiras se comportam de uma forma muito infantil, o que lhes parece uma falta de dignidade e, também, uma falta de liberdade.


Leila Diniz e Simone de Beauvoir são onipresentes em "Coroas". Costurando a trajetória dessas mulheres, temos um trabalho em prol da liberdade ou da emancipação. Parece, no entanto, que a "liberdade" transformou-se em um imperativo agenciado pelos mercados publicitário e da moda, por exemplo, e certas práticas libertárias ganharam novos sentidos. Assim, o corpo nu de Leila Diniz sofre uma inflexão: ele já está prescrito, “desde que seja um corpo sexy, jovem, magro e em boa forma”. De que modo a potência destas mulheres transgressoras, como Leila Diniz e Beauvoir, pode ser atualizada?

Goldenberg: Hoje, acho muito difícil apontar o que seria uma transgressão feminina. Desde os anos 60, tudo está dado como possível: o corpo nu, a sexualidade livre, a opção pela maternidade fora do casamento, o não-casamento, a invenção de novas conjugalidades etc. É muito difícil apontar o que seria uma transgressão hoje, como foi a de Leila Diniz nos anos 60. No entanto, o imperativo “seja livre!” convive com outros, como “seja magra!” ou “tenha um homem!”.

Mais do que transgredir, acredito que devemos ser cada vez mais críticas e independentes do que nos obrigam a ser como mulheres. Assumir que as escolhas são possíveis e que o corpo magro, jovem, perfeito, além do marido não são as únicas, nem talvez as mais desejáveis, opções femininas no mundo de hoje. Investir em outros capitais me parece uma saída mais satisfatória, pelo menos para aquelas que não querem se preocupar tanto com o corpo e com o homem.


Na carta endereçada ao Arqueólogo do Futuro, você apresenta uma cartografia dos modos de se relacionar com o corpo nos séculos XX e em inícios do XXI e indaga acerca das transformações do corpo feminino no futuro. O culto ao corpo, a insatisfação com o próprio corpo e patologias, como a anorexia e a bulimia, comparecem como inquietações. Que horizonte você vislumbra para as mulheres do futuro?

Goldenberg: Acredito que ocorrerá uma maior liberdade de modelos. A crítica ao atual mercado de consumo, à ditadura da juventude e da magreza, às padronizações de um tipo de corpo moldado pela cirurgia plástica e pelas academias, tem gerado uma consciência maior e também um elogio da singularidade, da particularidade do que é único em cada um. Acho que isso levará a uma flexibilização maior e uma escolha mais ampla.


Você escreve que, quando se fala em fidelidade, é mais importante parecer do que ser. E nas passagens de "Coroas" em que trata da percepção do próprio envelhecimento pelas mulheres brasileiras, parece que a aparência é a principal causa de sofrimento. Existe diferença entre o modo como a aparência é compreendida nas relações conjugais e na auto-percepção de si?

Goldenberg: O que me parece interessante destacar, nos meus 20 anos de pesquisa sobre a infidelidade, é a diferença do discurso de homens e de mulheres no que diz respeito à traição. Parece que as diferenças de gênero se perpetuam muito mais no discurso do que nas práticas correntes. O que quero dizer é que homens e mulheres hoje marcam suas diferenças muito mais pelo que dizem sobre o que fazem do que pelo que efetivamente fazem.

Um exemplo: na minha pesquisa, com 1.279 indivíduos das camadas médias da cidade do Rio de Janeiro, quando perguntei: “Quais os principais problemas que você vive ou viveu em seus relacionamentos amorosos?”, homens e mulheres responderam, em primeiro lugar: ciúmes e infidelidade.

No entanto, a principal queixa masculina foi, basicamente, falta de compreensão. Já as mulheres responderam egoísmo, incompatibilidade de gênios, falta de segurança, falta de confiança, falta de sinceridade, falta de diálogo, falta de liberdade, falta de paciência, falta de atenção, falta de companheirismo, falta de maturidade, falta de amor, falta de carinho, falta de tempo, falta de tesão, falta de respeito, falta de individualidade, falta de dinheiro, falta de interesse, falta de reciprocidade, falta de sensibilidade, falta de romance, falta de intensidade, falta de responsabilidade, falta de pontualidade, falta de cumplicidade, falta de igualdade, falta de organização, falta de amizade, falta de alegria, falta de paixão, falta de comunicação, falta de conversa etc.

Algumas ainda afirmaram que falta tudo. Enquanto os homens foram extremamente objetivos e econômicos em suas respostas, algumas mulheres chegaram a anexar e grampear folhas ao questionário para acrescentar mais e mais faltas.

Outro dado interessante é o diferente posicionamento de homens e mulheres no que diz respeito à traição. Os homens se justificam por terem uma “natureza”, uma “essência” propensa à infidelidade. Eles dizem trair por “atração física”, “vontade”, “tesão”, “oportunidade”, “aconteceu”, “galinhagem”, “é um hobby”, “testicocefalia”, “é da natureza masculina”, “instinto”.

Nas respostas femininas encontrei “insatisfação com o parceiro”, “falta de amor”, “para levantar a auto-estima”, “vingança”, além de um número significativo de mulheres que traem porque não se sentem mais desejadas pelos parceiros. As mulheres culpam os maridos ou namorados por elas serem infiéis.

Encontrei, também, a ideia de que o importante é acreditar na fidelidade, muito mais do que ser efetivamente fiel. O depoimento de um dos meus pesquisados é exemplar para se compreender o paradoxo da infidelidade: o cafajeste, o homem que é mestre em ser infiel, pode ser considerado “o homem mais fiel do mundo”, porque sabe representar muito bem o papel de homem fiel com diferentes mulheres (e não apenas com uma). Este depoimento diz o seguinte:

"Sabe qual é o maior paradoxo? O cafajeste é o cara mais fiel do mundo. Ele é o único que faz com que as mulheres se sintam únicas. Cada mulher com quem ele se relaciona se sente especial na vida dele. E é isso o que uma mulher quer ser: especial, única, ou melhor, ela quer acreditar que é a única. O cafajeste é o único cara que consegue transar com dez mulheres e fazer com que cada uma das dez se sinta a única na vida dele. Não é isso o que as mulheres querem? Serem únicas? Então o cafajeste é o cara mais fiel do mundo. É o único que faz com que dez mulheres acreditem que ele é fiel e que elas todas são únicas. Moral da história: é melhor ser cafajeste do que um cara fiel, porque elas acreditam mais no cafajeste do que em nós. Não é um paradoxo maluco?”.

Apesar de muitos comportamentos masculinos e femininos não estarem mais tão distantes, inclusive no que diz respeito à traição -como mostram os dados da minha pesquisa em que 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem sido infiéis–, os discursos femininos e masculinos são extremamente diferentes.

 
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