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dossiê
VELHICE/CONTO

O velho encastoado
Por Carlos Alberto Dória

Dentre os mortos conhecidos, era o que melhor se comportava. Não dava trabalho algum. Não exigia flores, nem visitas

A julgar pela aparência de velho, o que as roupas confirmavam, estava lá fazia bem uns vinte anos. Como o corpo não se deteriorou, ficou sobre a mesa de jantar.

Com o tempo, o incômodo que era colocá-lo sobre o étagère no momento das refeições foi contornado por um engenhoso marceneiro, que o prendeu ao tampo da mesa que girava num eixo horizontal, de modo a voltar o corpo para baixo enquanto se comia o almoço ou jantar. Seu peso ajudava mesmo a firmar o tampo. Depois, mesa limpa, girando sobre o mesmo eixo, voltava o corpo para cima, firmando-o com pequena trava, sem sequer amassar o terno com o qual jazia. Estabeleceu-se que de duas a três vezes por semana seria espanado e, nos dois dias úteis sobrantes, um aspirador limpava sua roupa. Nos sábados e domingos, em geral ficava diretamente voltado para baixo da mesa, pois era maior a atividade na casa, incluindo um lanche entre o almoço e o ceia.

Dentre os mortos conhecidos, era o que melhor se comportava. Não dava trabalho algum. Não exigia flores, nem visitas. Contentava-se com o movimento da casa e tomava como suas as flores eventuais nos vasos.

Como estava à mão, era comum ouvir-se: “Jura pelo morto?”, o que emprestava maior veracidade ao que se falava e se fazia à sua volta.

Mas nem sempre fora assim. No início, quando saía, a viúva o levava consigo. Sempre falava por ele. Narrava a vida comum, tendo-o como personagem principal. Tudo parecia normal, exceto as conjugações no pretérito mais que perfeito. Mas, quando começou a ir mais longe, a realizar os seus cruzeiros marítimos, teve que deixá-lo em casa. Foi quando ele mais se aderiu à mesa, frequentando apenas as refeições. Depois, quando as crianças cresceram e se mudaram, a casa ficou muito grande para ela e teve que abandoná-la. Foi quando o morto não quis ir. Ela se sentia só no novo e pequeno apartamento.

Os novos inquilinos da casa impuseram uma condição: que com ele ficasse a mesa engenhosa que permitia virá-lo para baixo. Rapidamente se enfronharam em sua história, e ele passou a ser familiar, pois não tinham mortos daquele tipo na ascendência. Depois, nas sucessivas locações da casa, o morto passou à condição de cláusula contratual. Era a forma de a viúva cuidar tanto do seu passado quanto do presente do morto e do seu próprio futuro.

A consequência foi converter-se em um morto sábio –coisa muito comum, quando se ouve sem poder falar. Todos os que se aproximavam dele sentiam isso: tinha expressão inteligente, e o seu silêncio oracular era denunciador. Mas bastava olhar sua serenidade para ver que o tempo não vale nada.

Depois, a sala contígua à de jantar deixou de ser ocupada. Parecia que o morto a preferia fechada, porque quando estava fechada tudo estava bem e, quando era utilizada, certo mal-estar abreviava as conversas, as visitas logo encontravam o pretexto para partir, e a sensação de normalidade em seguida se restaurava. Por dedução, os moradores chegaram à conclusão de que o morto reivindicava para si a sala de visitas. E foram ter à viúva para pleitear uma redução no aluguel, o que ela achou justo e natural. E ficou claro que o morto estava usando as pessoas da casa.

Mas a empregada, Maria dos Prazeres, que não sabia de nada, adorava ocupá-la quando a família saía aos domingos. Ficava nua à cavaleira num braço de poltrona, enquanto Jonas, o jardineiro, vinha conhecê-la por trás. Até que, um dia, sentiu um olhar frio em suas partes.

— Alguém está olhando pelo buraco da fechadura!

Mas não havia qualquer pessoa do outro lado da porta, conforme Jonas se certificou. Apenas a mesa da sala de jantar e seu encastoado habitante.

— Não dou mais procê na casa! De jeito nenhum! Credo...

Jonas, até então indiferente, ficou com raiva do morto, a quem atribuía o infortúnio sexual. Até que, um dia, deixou cair água sobre a roupa do falecido. De propósito. Queria vê-lo desandar, feder, ser enterrado, livrar-se dele.

Mas a inquilina descobriu a tempo de enxugar a tragédia. E descobriu que as formigas haviam liquidado a roseira, o pessegueiro. Jonas foi embora.

O morto, mais sólido do que nunca, parecia sorrir satisfeito. Finalmente conquistara o jardim.


Publicado em 15/4/2009

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Carlos Alberto Dória
É doutor em sociologia, pesquisador-colaborador do IFCH-Unicamp e autor de "Com Unhas, Dentes e Cuca" (em co-autoria com Alex Atala), "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

 
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