1
prosa.poesia

Cinco poemas de amor
Por Wilson Bueno

Do grande Amor as suas quinas/ Amor de âmbar, irresistível pedra / Grudada de conchas e de limo

22

Tão grande o Amor que nos abraça
O tempo, a infância, prados e pinheiros
Agora em que sei que estás morrendo
E morrem contigo as gastas ilusões,
O irmão já morto, vosso útero.
E de mim os sonhos loucos.
Tudo é a antevisão do silêncio longo
Que há, meu Deus!, de separar-nos.
Dissolução da ausência, do corpo, da casa
Morrem bromélias, alamandas e os cactos
De vosso jardim, amor, Mãe, tão casto,
Aqui onde cato de mim caco a caco.


7

Lamber-vos a carne ávida
Ávido de mim e de sus colores.
Ínclita, límbica, lôca de penas
Lunar dar-vos o bico do seio,
Desde onde sugas, ao lábio e língua,
A toda alma minha llena de erros e acenos.
Isto enquanto acontece funda
Vossa fúria, Amor, rangente.
Ali porque entre éguas e anáguas
Relinchas, boca e pistilos, lôca!
Uma, duas, six mil vezes
A sua vez dentro, fora, dentro dentro
Oblíquo cão, nos olhos o poente, lôca!
Cravando-me contra a parede
Coxa contra coxa; dente por dente.


21

Ao grande amor, a luz
Do Amor imenso, sem trégua
Puro Espírito todo brotado de flores
Nem a sombra de Agosto capaz destrua
Do grande Amor a ternura, o gume, o azougue.
Anda o Ser à busca tanta
Do grande Amor as suas quinas
Amor de âmbar, irresistível pedra
Grudada de conchas e de limo.
Do grande Amor, o rasgo da epifania,
O raso onde Amor Demais definha.


4

De Amor o soluçante Enlevo
Perguntou pelo Segredo.
Enleado às suas dobras
Segredo respondeu pronto
Que de Amor andava às tontas
Cada noite
Cada dia
Dia e noite.
Enlevo dobrando a esquina
Voou seus ventos com pressa
Tocando ao de leve a pálpebra
De novo Amor, sua flauta.
Segredo encolheu-se escuro –
Uma sombra contra o muro.


6
Antes de tudo, o começo
Eva, fenda, pássara obscura,
Os teus sexos de menina, Amor
De mulher cinge a curva dos seios
Gozo e glosa, chana e chana.
Chama ao relento a lágrima nua
Esquece nos ombros lentos lábios e dentes
Ao relento de si os caminhos do umbigo
Coxas e clitóris, pêlo contra pêlo
Amor, de tão cortês, é um algodoal de líquens
E plana, suspenso, entre o sonho e o sonho.


Do livro inédito “35. Poemas de Amor”


Publicado em 11/4/2009

.

Wilson Bueno
É escritor, autor de "A Copista de Kafka" (ed. Planeta), da reunião de tankas  "Pequeno Tratado de Brinquedos" (ed. Iluminuras) e do recém-lançado "Pincel de Kyoto" (Lumme Editor).

 
1