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cosmópolis

Três histórias
Por Noemi Jaffe e Leda Cartum

Escritora e sua filha contam viagem a Auschwitz, o campo de concentração de onde sua mãe e avó foi resgatada

Em março de 1945, depois de ter sido resgatada de Auschwitz pela Cruz Vermelha, Liwia Jaffe, então com 19 anos, foi levada para Marmo, na Suécia, junto com milhares de outros sobreviventes.

Ali, em quarentena, ela escreveu uma espécie de diário retrospectivo, lembrando dos principais acontecimentos do ano anterior, desde sua captura e a de sua família pelos alemães, em Senta, na ex-Iugoslávia, passando pela guerra até a Libertação.

Convidada a permanecer morando na Suécia, com todas as regalias possíveis, minha mãe se recusou, porque queria voltar para sua cidade, para ver se ainda havia algum parente vivo. Em Senta, ela e suas três primas sobreviventes não encontraram mais ninguém. Numa cerimônia religiosa na cidade, Liwia veio a conhecer um rapaz que se apaixonou por ela. Ele iria para a Hungria, para de lá vir ao Brasil, onde tinha uma família numerosa. Convidou-a a ir junto com ele, mas ela novamente se recusou. Queria ir para os Estados Unidos.

Não foi, mas deu a ele seu diário como lembrança. Na Hungria, meu pai escrevia cartas de amor para ela nas páginas brancas do caderno. Alguns meses depois, Liwia acabou se juntando a ele na Hungria, onde ele acabou convencendo-a a se casar só com a finalidade de conseguir documentação para vir para o Brasil.

O trajeto até aqui durou dois anos; durante esse tempo, os dois se apaixonaram e, chegando a São Paulo, casaram-se novamente. Durante a década de 90, ajudei minha mãe a traduzir seu diário para o português e, atualmente, ele se encontra no Museu do Holocausto, em Jerusalém.

Em fevereiro de 2009, depois de 64 anos, eu e minha filha estamos indo para a Alemanha e para a Polônia para percorrer novamente o caminho feito por ela e descrito em seu diário. Duas gerações mais tarde, estamos indo atrás de algo que não conhecemos. Minha mãe escolheu esquecer, e estamos buscando compreender o que é esquecer e o que é lembrar. O que é ir para um campo vazio, um museu, uma lembrança estática do horror.

Eu quero ser testemunha do que não vivi, quero lembrar o que nem esqueci. Minha filha, mais distante ainda, tem medos e sensações bem diferentes das minhas. Como resultado dessa viagem, estamos planejando a publicação de um livro, um diário de uma outra viagem.

Minha mãe esqueceu, mas sabemos que ela quer que nós façamos a reconstrução de uma outra lembrança. Como diz Camus, em “O Mito de Sísifo”, o homem absurdo é “rebeldemente ativo”. Esta viagem faz parte do repertório do absurdo; sei que o campo é um vazio. Mas acredito que esse vazio, encontrando a rebelião ativa que guardo comigo, deve criar algo que nem eu sei o que é. Mas que está por aí.


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O texto a seguir é um excerto das reflexões de minha filha, Leda, antes de nossa viagem, realizada em fevereiro último.


 Em meio à bagunça dos últimos preparativos da viagem –a escolha dos casacos mais quentes, das botas mais impermeáveis; o planejamento dos percursos e a leitura de um ou outro guia turístico; pequenas despedidas, possibilidades de lugares para conhecer e dicionários de línguas que não entendo–, percebo-me de repente respondendo à pergunta sobre para onde vou de forma quase convicta: que, sim, eu realmente estou indo para Auschwitz.

As palavras saem fluentes e razoáveis da minha boca, como se soubessem mais do que eu: afora todas as repercussões inimagináveis que essa viagem já causa e ainda virá a causar em mim, independentemente delas, estou arrumando as malas para ir a Auschwitz.

Oswiecim, em polonês –a cedilha que colocam no "e" me faz entender (talvez de maneira mais real do que qualquer foto ou enciclopédia faria) a enorme distância que me separa desse lugar, já que para mim as cedilhas só são concebíveis na letra "c"; esse lugar, que, no entanto é uma das causas da minha existência.

Não sei descrever o vazio que tem me invadido nesses dias recentes, com a iminência da hora de ir embora. Cada objeto, conversa ou encontro acontece como que me direcionando para esse denso desconhecido, e mesmo assim sinto que ainda não encontrei em mim a razão para ir.

Talvez ela só se realize no momento da chegada: será preciso apreender o lugar como um todo, para só então perceber o motivo da minha visita (se é que posso chamar assim). Se tudo isso faz parte da minha história, como construir com esses elementos a história que estou fazendo?

As sensações que se sobrepõem nessas preliminares são obviamente contraditórias. Numa ponta do nó, vejo-me cética: sei por princípio que não encontrarei nada ali, e que não posso me deixar acreditar que conhecer a cidade de Auschwitz será conhecer qualquer coisa do que aconteceu lá; sei que fetichizamos os lugares, tornando-os casas mal-assombradas, e que o que existe ali agora se configura de maneira abismalmente diferente do que se configurou um dia.

Ao mesmo tempo, desenroscando um pouco do nó, encontro outra ponta difusa, escondida, em que me vejo supersticiosa: temo com todas as partes do corpo os fantasmas de Auschwitz e sinto pequenos calafrios ao pensar no que me espera; receio quebrar alguma casca invisível indo para lá, e me pego muitas vezes antecipando a aflição de pisar naquele chão.

Meu ceticismo se torna absurdo, quando percebo que ele convive com minha superstição –da mesma forma, a superstição parece se desfazer, quando contraposta pelo ceticismo. Como preciso manter-me ainda íntegra, justifico a presença de um com a ausência de outro, alternando as possibilidades de sobreposição e explicação.

A verdade, difícil de confessar diante de um emaranhado tão indefinível, difícil mesmo de reconhecer ou admitir (eu, que tenho duvidado cada vez mais da palavra "verdade", e que preciso de alguns segundos para escrevê-la) –a verdade é que tenho medo. E que ainda não encontrei um lugar para este medo: ele flutua desnorteado, perdido, dispersando os meus contornos. Às vezes penso em segredo que é por causa desse medo que vou: vou para superá-lo, conhecê-lo, perdê-lo e, mais do que tudo, afirmá-lo.


*


Na volta da viagem, no final de fevereiro, um provável trecho do futuro livro:


Depois da viagem feita, descobrimos que Auschwitz não é só Auschwitz. Que a guerra e, mais importante do que ela, agora, é a memória da guerra. E, mais importante ainda, as memórias dela, que estão por toda parte. No musgo que cresceu sobre os restos de uma lápide de um cemitério destruído pelos nazistas, preenchendo perfeitamente o baixo relevo das letras hebraicas; num freqüentador da sinagoga de Berlim , que é sueco, fala português porque gosta, mora na Alemanha e escreve sobre o fado; num jornalista búlgaro que mora em Varsóvia, defende os direitos dos homossexuais, é crítico de comida e praticante ortodoxo; na biblioteca subterrânea e perdida, no centro de Berlim, que homenageia a Kristalnacht, ocultando-se perdida como uma biblioteca em negativo: vazia, branca e com o vidro que dá a acesso a ela totalmente embaçado.

Em Cracóvia, propriamente, nas proximidades do campo, Auschwitz está também nas propagandas espalhadas por toda a cidade: “Conheça Auschwitz-Birkenau e as Minas de Sal num só dia! Economize dinheiro! Contrate nossos serviços para Auschwitz!”.

É como se o estereótipo do próprio judeu negociante tivesse sido apropriado por aqueles que fazem das visitas ao campo também o seu negócio. É o cerne mesmo do absurdo: Auschwitz ter, em parte, se tornado fonte de renda; algum tipo de espetáculo.

Mas nós quisemos ir além da crítica retórica, da rejeição intelectual à construção turística. Tentamos incorporar o próprio preconceito a esse tratamento e levá-lo conosco, mas não permitir que ele nos impedisse de olhar o campo de nossa maneira.

Recusamos guias e roteiros prontos e fizemos nossa própria trajetória, com o tempo e as necessidades que eram nossas, não dos outros, ou do grande outro, que fizemos questão de ignorar.

Não quis assumir a gravidade imponente dos que olham para os terrores do campo e não admitem mais sorrir durante a visita. Não fui somente conhecer o mal, a morte. Fui também levar minha memória, ver com olhos de quem está viva; fui em busca de histórias.

Não estou atrás do mal em si, do mal transcendente, externo, que acaba esvaziando-se em seu próprio nome e que permanece suficiente na contingência de ser pronunciado. Esse mal se mantém eternamente externo e acaba por aliviar os visitantes, limpando sua consciência. Estou atrás da narrativa, de narrativas. Não quero só silenciar diante do horror. Quero olhar para ele e dizer: eu sou. Nós somos. Agora. Jetzt.


Publicado em 30/3/2009

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Noemi Jaffe e Leda Cartum

Noemi Jaffe
é escritora, doutora em Literatura Brasileira pela USP e colaboradora da "Folha de S. Paulo". Publicou "Folha Explica Macunaíma" (Publifolha, 2001), "Todas as Coisas Pequenas" (Hedra, 2005) e "Do Princípio às Criaturas" (USP, 2008).<br><br>

Leda Cartum é aluna do curso de Letras da USP e autora do blog caixinhadefosforos (verbeat.org/blogs/caixinhadefosforos).

 




1 - Por razões técnicas, não foi possível reproduzir o "e" com cedilha a que se refere a autora.

 
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