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cosmópolis
DITADURA

Buenos Aires, meu amor
Por Wilson Bueno

Uma viagem pela capital argentina e pelas memórias da cinza e do espanto

Uivos & arrepios

A lúgubre Esma (Escuela de Mecanica Armada), sinistro centro de tortura durante a sanguinária ditadura argentina (1976-1983), fica, ironicamente, na avenida Libertadores, no bairro de Núñez. Ali foram assassinados, de maneira vil, milhares de pessoas, segundo estatísticas oficiais. A maioria jovens, movidos por qualquer ideologia –desde que estranha aos (hórridos) cânones vigentes.

Num intervalo da apertada agenda que cumpro em Buenos Aires, levam-me a visitá-la. Foi transformada numa espécie de “museu dos desaparecidos”, memória das cinzas...

Não tenho nada de esotérico, leitor, mas ao ultrapassar as grades que cercam a Esma, onde artistas pregaram recortadas figuras de lata, inúmeras, umas deitadas, outras de ponta cabeça, brilhando como se gritassem ao sol, senti um arrepio que debitei, claro, aos frios ventos vindos do Rio da Prata.

O curioso, leitor, é que, num exercício quase chapliniano, comecei a sair e a entrar –ora na calçada da avenida Libertadores, ora no pátio da Esma. Acredite, se quiser: ao entrar, os pelos todos se eriçavam; ao sair e ganhar o passeio, aquietavam. E assim de um modo absurdamente intermitente e obsessivo.

Lembrei os companheiros mortos pelo Horror Médici, lá atrás, nos meus vint’anos cariocas. Uma lágrima furtiva me pegou o canto dos olhos. De dentro da Esma, como se vindo de masmorras imemoriais, ouvi, acho que ouvi, os gemidos e os estertores das noites sangradas até o último cão.


A ironia e o medo

Agustín Dias possuía uma barba negra e imponente. Protegido nos anos 70 da ditadura argentina, em Saquarema, pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados, costumava iludir os entardeceres, invariavelmente melancólicos do litoral fluminense com estórias que nunca jamais hei de esquecer. Estórias, umas de horror; outras, de arrebatada epifania.

Marquei encontro com ele, na Galeria del Este, em Maipu, 971, a fim de aproveitarmos a oportunidade para visitar a charmosa “libreria” La Ciudad, que pertenceu a don Luis Alfonso, e é hoje tocada por sua viúva. A livraria, bem como a galeria, são famosas por ser o local onde Jorge Luis Borges assinava ponto todas as tardes. Lá está a escrivaninha atrás da qual o mais importante escritor argentino de todos os tempos costumava sentar-se para receber amigos e leitores.

Agustín foi um ativo “montonero” em Buenos Aires. Bem extensa a sua ficha de serviços prestados na resistência aos regimes discricionários, sobretudo ao do famigerado general Videla, da família do não menos famigerado Augusto Pinochet. Agustín não mencionava o nome de nenhum deles, mesmo quando isto se fazia indispensável.

Tratava-os, aos generais Videla e Pinochet, assim como a todo e qualquer ditador, de “X”, pronunciado com o indefectível sotaque portenho que era dele o seu maior charme e encanto. “X” está promovendo um banho de sangue em Santiago ou “X” promete fechar o La Nación... Pelo contexto, e só pelo contexto –ou pela geografia–, sabíamos quem era quem, e onde.

Entre as estórias de horror de Agustín Dias, uma não me saiu nunca da memória –barbaramente torturado, quase até a morte, o montonero Alfonso Rosas, que comandou por muito tempo uma facção armada contra a ditadura argentina, nem assim abriu a boca para dar qualquer serviço à caterva do serviço secreto.

Isto, segundo garantia Agustín, obrigou a que o próprio Videla, em carne e osso, comparecesse ao quartel onde Alfonso (provavelmente nome fictício...) estava preso, clandestino e incomunicável, para proceder, ele mesmo, ao interrogatório do legendário montonero. A tudo o que o ditador perguntava, Alfonso respondia com um aparatoso “Seguro que su madre sabe, senhor”.

Depois de algumas horas de interrogatório, e de muita violência, Alfonso Rosas continuou insistindo, não sem bravura, que com certeza a mãe do ditador devia saber tudo sobre o que lhe perguntava.

Exausto e imensamente frustrado, tendo que retornar à Casa Rosada, contava Agustín Dias que Videla não se deu por vencido e foi capaz do mais cínico dos sorrisos debaixo do bigodinho escroto de cantor de boleros: “Vou conferir com 'mamá' se ela sabe mesmo. Em contrário, volto aqui amanhã e juro que termino pessoalmente com a vida deste vagabundo”.

Videla felizmente não voltou no dia seguinte. Gargalhava Agustín Dias, cofiando a barba imponente, na varanda da casa frente ao mar de Saquarema. E ria-se mais ao explicar o inusitado: “Sabem por que X não voltou 'en el dia' seguinte? Porque 'la madre daquel hijo de una puta assessino morió”.

Ajuntávamos que, tendo feito a ela as mesmas perguntas que fizera a Alfonso, Videla não teria resistido a um rápido e ligeiro matrícidio...

Envelhecido, a barba quase toda branca, e bastante adoentado, Agustín Dias mesmo assim aceitou meu convite para um capuccino com os soberbos croissants de um “hermosíssimo” café de “la calle” Florida. E ali ficamos a lembrar os Anos Loucos e o mar azul do litoral fluminense.


Recuerdos en San Martín

O medo foi uma constante também na ditadura militar brasileira (1964-1985). Hélio Oiticica, o revolucionário artista plástico e agitador cultural, telefona a Glauber Rocha, antes deste ganhar a simpatia dos ditadores de plantão.

- E aí, Glauber, está com muito medo do que podem fazer os milicos?

- Medo eu tenho sempre, ô Hélio. Mas deles não tenho não.

- Como não? A barra tá pesando, meu caro. Até dom Hélder Câmara corre o risco de ser preso ou mesmo banido do território nacional...

- É justamente por isso que não estou com medo, ô Hélio. Porque, junto com dom Hélder, qualquer um de nós vai pro céu...

Esta eu fui saber pelo “brasilianólogo” Anastácio Quiroga, num dourado entardecer na cobertura da franco-carioca Silvie Ajens, debruçada sobre a praça San Martin, no centro de Buenos Aires. Encantadora “charla” regada a mate “dulce” e pontuada por lembranças, também dos (raros) sonetos ingleses de Bioy Casares.


Plaza de perros

No canil público, circular, defendido por uma cerca de arame, bem no centro da praça Barrancas Belgrano, cães de todas as raças e tamanhos latem e latem, alguns uivam, os focinhos espetados contra o céu azul da tarde de Buenos Aires.

Pelos vastos gramados –a praça é enorme– ,à sombra das grandes árvores, esparramam-se velhos e crianças, senhoras, moças, rapagões. Uns dormem, outros lêem, alguns só observam o movimento, num sossego dificilmente encontrável em qualquer metrópole.

Em São Paulo ou Nova York, em Bogotá ou no Rio de Janeiro, está claro que a cena é improvável. Estamos sempre com medo –do assalto, da polícia inoportuna, dos cada vez mais agressivos pedintes das ruas das grandes cidades.

Em Barrancas Belgrano, no coração de Buenos Aires, não. É só uma tarde morna e azul, marcada pelo insistente escarcéu que fazem os cachorros; o ruído regular do metrô com sua estrepitosa urgência. Perfeitamente sentado em um dos bancos da praça, um desses loucos que não se fazem mais, abre e fecha, inúmeras vezes, uma sombrinha azul.

No dia de folga, de meu pedaço de grama e sombra, lembro Piazzola e a canção do louco rasgando seu desespero a unhas, chutando postes e pombos, "hasta el derradero trapo" (até o último farrapo), no domingo portenho feito uma angústia a azinhavre e sal.


Publicado em 17/3/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor de "A Copista de Kafka" (ed. Planeta), da reunião de tankas  "Pequeno Tratado de Brinquedos" (ed. Iluminuras) e do recém-lançado "Pincel de Kyoto" (Lumme Editor).

 
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