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Os “recém-chegados” também apresentam desigualdades: 1 usuário (0,69%) fez 306 postagens (63,48%). O número de usuários com uma postagem cada é de 119 (83,21%); isso corresponde a 24,68% do total de postagens deste grupo. Os “recém-chegados” também parecem ser usuários de “postagem única”, com um único caso que se distingue pela hiperatividade.

Os “espectadores simpatizantes” podem ser considerados como usuários de “postagem única” também, com 90,12% deles (73 usuários) colocando 64,60% das imagens com uma postagem cada. Entre eles, não há casos extremos.

Considerando os “ativistas” e os “amigos” como uma maioria, é possível pensar que “conhecer” alguém que usou a tag de protesto é um fator mais decisivo para se engajar no uso estratégico das tags, que pertencer a um grupo anticensura. A lista de contatos pode então ser considerada como a fonte primária de consenso.

De acordo com Watts e Strogatz, esta relação sugere uma estrutura de rede que pode ser potencialmente caracterizada como sendo um “mundo pequeno”. Tem sido observado que redes do tipo “mundo pequeno” são estruturas altamente eficientes para a propagação de informação (Kleiberg, 2000).

Assim, o “thinkflickrthink” pode ter se beneficiado desta característica topológica em especial da rede de manifestantes, ao se alastrar rapidamente por suas listas de contatos.

É importante observar a presença de usuários não-conectados no grupo. Ainda que pareçam isolados ou separados, o fato de estarem localizados na periferia do grupo faz com que sejam potenciais disseminadores do protesto –e, portanto, do “thinkflickrthink”– para outras sub-redes “remotas” formadas por suas próprias listas de contatos.

Uma análise mais profunda dos usuários mais ativos mostra que, de 1.339 usuários, apenas seis deles (0,44%) colocaram mais de 67,68% do número total de postagens. Todos esses manifestantes hiperativos usaram o meio estratégico de colocar a nova tag em imagens antigas e produziram focos limitados de atividade.

A maioria das imagens deles recebeu a nova tag de uma só vez. É interessante notar que nenhum deles pertence ao grupo dos usuários com “mais contatos”, que são, todos, “ativistas”. Apesar de seu impacto sobre os resultados gerais, eles não são vitais para a existência da rede em si, já que não são conectores de um número significativo de usuários.

Além desta taxonomia dos usuários, também propomos uma categorização sobreposta diferente, que descreve seus papéis no protesto. Esses papéis são: “estrategistas”, ou usuários que colocaram novas tags em suas imagens antigas, “iniciadores”, usuários que estavam entre os primeiros a usarem o “thinkflickrthink”, e “seguidores”, que são os usuários que não são “estrategistas” nem “iniciantes”. Do ponto de vista da distribuição dos papéis, a rede de manifestantes se concentra no grupo dos seguidores (1.143, ou 87,45%)


Uso estratégico de tags

Uma tag pode ser criada e disseminada com fins estratégicos. Uma estratégia é um plano de ação de longo prazo elaborado para atingir uma meta específica. Ao tentar obter visibilidade, os usuários que colocaram tags estrategicamente foram além da mera descrição, anotação ou mesmo da expressão. Eles tentaram subverter o sistema através da exploração de suas próprias características e expandir os limites do contexto lingüístico do uso de tags, para que pudessem falar clara e diretamente para aqueles que administram o site.

A análise dos dados mostra que os manifestantes provavelmente disseminaram o uso estratégico das tags entre seus contatos, em vez de fazê-lo entre um grupo em particular com interesses específicos. Uma lista de contatos está muito mais próxima de um conjunto de amigos escolhidos a dedo que de um dos grupos mencionados e, portanto, representa uma influência maior sobre o proprietário da lista.

As categorizações de usuários propostas podem ser ferramentas práticas para aplicar em outros casos semelhantes e usadas para analisar os diferentes padrões de atividade em subgrupos que emergem espontaneamente das redes.

O fato de que a maior parte do uso coletivo de tags de protesto foi feito por uma minoria de manifestantes reflete um fenômeno que precisa ser reconhecido quando lidamos com comunidades: as ações de alguns poucos podem ser mais importantes que as de um grande número. Coletivamente, nesse caso, não significa necessariamente proporcionalidade, pelo menos em termos quantitativos.

O estudo da dinâmica de estratégias semânticas não-coordenadas dentro de densas comunidades online é de enorme importância para obtermos um maior entendimento do modo como a interação social e lingüística ocorre em um ambiente tecnológico, e como pode aumentar o potencial dos usuários para ação direta.


Referências:

C. Cattuto, V. Loreto, L. Pietronero, "Collaborative Tagging and Semiotic Dynamics". PNAS, 104 (5): 1461-1464, 2006.

S. Golder, B. Huberman, "The Structure of Collaborative Tagging Systems". Information Dynamics Lab, HP Labs. (http://www.hpl.hp.com/research/idl/papers/tags/tags.pdf)

C. Marlow, M. Naaman, D. Boyd, M. Davis, "Position Paper, Tagging, Taxonomy, Flickr, Article, ToRead". Collaborative Web Tagging Workshop at WWW 2006. Edinburgh, Escócia, 22 de maio de 2006.

L. Steels, "Collaborative Tagging as Distributed Cognition. Pragmatics and Cognition", 14 (2) : 275--285, 2006.

D. J. Watts, S. H. Strogatz, "Collective dynamics of 'small-world' networks". "Nature", vol. 393, 4 de junho de 1998


link-se

Eugenio Tisselli. "thinkflickrthink": a case study on strategic tagging: http://motorhueso.net/text/thinkflickrthink_pdf.pdf

DVD DRM row sparks user rebellion: http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/6615047.stm

Flickr - http://www.flickr.com

del.icio.us - http://del.icio.us

last. FM - http://last.fm

Folksonomy - http://www.vanderwal.net/folksonomy.html

flickr now censoring all moderate and restricted photos from Germany - http://www.flickr.com/help/forum/en-us/42597/

Flickr API: http://www.flickr.com/services/api

Projetos de Eugenio Tisselli: http://www.motorhueso.net


Publicado em 28/2/2009

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Eugenio Tisselli

É artista, ensaísta e pesquisador. Foi pesquisador associado do Sony Computer Science Lab, em Paris, e atualmente é co-director do mestrado em arte digital da Universidade Pompeu Fabra em Barcelona. Seus projetos artísticos e pesquisas podem ser acessados em: http://www.motorhueso.net



 
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