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novo mundo
POLÌTICAS

Rebelião na internet
Por Eugenio Tisselli

Protestos espontâneos, como os ocorridos no site Flickr, politizam o uso das tags em redes sociais

O crescimento, tanto em quantidade quanto em diversidade, das comunidades online em toda a World Wide Web, em conjunto com uma série de novas tecnologias que aprimoram tanto a interação social quanto a administração de conteúdo, deram origem a um conjunto de práticas cada vez mais participativas.

Os usuários estão envolvidos em ambientes fervilhantes, nos quais podem se expressar e interagir com outros usuários, criando e mantendo todo tipo de relacionamento, enquanto consultam os sites e compartilham conteúdos multimídia.

Tais ambientes se transformam em territórios vitais para muitos de seus usuários, que podem se tornar extremamente sensíveis e protetores daquilo que acreditam ser seus direitos. Assim, até mesmo uma pequena e desfavorável mudança na estrutura do site ou em suas políticas de uso, pode precipitar descontentamento e oposição ativa.

As ações tomadas pelos administradores do site, como a exclusão de conteúdo ou a suspensão de contas de usuários, podem ser percebidas pela comunidade como abusivas e causar indignação. Em tais situações, muitas formas não-coordenadas de protesto espontâneo podem emergir da rede de usuários.

A criatividade e a eficácia dessas iniciativas podem variar muito, com protestos que vão de discussões em fóruns e blogs até boicotes para bloquear sites, como ocorreu com o Digg, uma comunidade de compartilhamento de notícias, quando tentou impedir a divulgação de um programa para desbloquear DVDs de alta-definição..

Este artigo analisa uma estratégia de protesto em particular, adotada recentemente por vários usuários do Flickr, um site popular de compartilhamento de imagens: o uso de tags anticensura para tornar o protesto visível dentro do próprio site. O texto faz parte de um projeto de pesquisa em curso sobre redes sociais baseada em ''data mining'' (processo analítico para exploração de grandes quantidades de dados com o objetivo de definir padrões e modelos que são aplicáveis a outros subconjuntos de dados). A íntegra do estudo, em inglês, pode ser acessada no “link-se” no final deste artigo.


Sobre o uso de tags

Vários sites Web 2.0, como Flickr, del.icio.us, de compartilhamento de "bookmarks", ou Last.fm, de música, oferecem aos seus usuários a possibilidade de colocar tags em seu conteúdo online. A colocação de tags pode ser definida como o enriquecimento de conteúdos digitais com informação semanticamente significativa na forma de legendas, ou tags, livremente escolhidas (Cattuto et al, 2006).

A liberdade implícita nesta atividade vem do fato de que a colocação das tags não se prende a um vocabulário controlado ou uma estrutura taxonômica predefinida, mas é antes um ato essencialmente individual de classificação (Golder e Huberman). A colocação de tags está fundamentalmente relacionada a fazer sentido e pode ser vista como um filtro definido pelo usuário (Marlow et al, 2006).

Uma possível razão que explique porque a colocação de tags se tornou um meio tão popular de classificação online é a sua simplicidade: quem coloca as tags precisa apenas selecionar ou subir conteúdo para uma base de dados centralizada, e designar palavras (tags) para este material.

Ainda que a colocação de tags possa ser considerada principalmente como uma atividade individual, a combinação de tags produzidas por uma comunidade online evolui e se torna um vocabulário comum conhecido como "folksonomy" ("companheironomia", em tradução livre).

Cattuto e outros autores observaram que o surgimento de uma "folksonomy" exibe aspectos também observados em linguagens humanas, tais como a cristalização de convenções de denominação, competições entre termos ou o surgimento de neologismos amplamente utilizados.

Já Steels (2006) vê o uso de tags como um exemplo de cognição distribuída, com base no argumento de que a linguagem deve ser vista “como um complexo sistema de adaptação no qual um grupo distribuído de agentes coletivamente inventa e alinha sistemas compartilhados de símbolos". Ele também observa que tags, no contexto da web, funcionam mais como futuros auxílios para a navegação em grandes fontes de informação, do que como marcadores referenciais para descrever e discriminar objetos. A colocação de tags, em geral, pode ser descrita como uma atividade altamente subjetiva de denominação.

No Flickr, a colocação de tags não é obrigatória e, diferentemente de outros sites de compartilhamento de recursos, lida exclusivamente com contextos gerados pelo usuário, cujas tags só podem ser colocadas por quem os possui.

O modo de tags oferecido pelo Flickr é “visível”, ou seja, os usuários poderem ver as tags uns dos outros e, assim, compartilhar modos de denominação. Este modo pode levar à convergência de companheironomias locais, ou alinhamento de vocabulários.

Existe uma expectativa de que tais convergências localizadas possam resultar em efeitos semânticos globais se grandes números de usuários estiverem envolvidos. O Flickr mostra esse dicionário emergente em um formato que se tornou bastante popular, a “nuvem de tags”, uma lista de tags realçadas de modo proporcional a diferentes critérios, como a frequência de uso.


O uso de tags como estratégia de protesto

Foi justamente a arquitetura de tags do Flickr a plataforma utilizada para um protesto dos usuários que, de modo não-coordenado, responderam à mudança em sua política de filtros na Alemanha. O protesto se realizou pela criação e disseminação de uma nova tag anticensura criada para a ocasião: "thinkflickrthink" (pense, Flickr, pense).

Este evento apresentou-se como uma oportunidade única para analisar, desde suas origens, a dinâmica semiótica de uma palavra específica dentro de uma rede social. A criação desta e de outras tags anticensura competidoras aponta para um uso estratégico, até subversivo, do próprio sistema.

Os usuários inundaram o Flickr com as tags recém-criadas, buscando fazê-las populares e, assim, visíveis dentro da “nuvem de tags” e também em outros locais de destaque dentro do site.

Em 12 de junho de 2007, o Flickr anunciou novas restrições para seus usuários alemães, que os impediriam de visualizar conteúdo marcado (pelos próprios usuários do Flickr) como inapropriado ou “perigoso”. As primeiras reações no fórum do Flickr e em outras mídias baseadas na internet foram um misto de assombro e raiva. Muito rapidamente, os usuários começaram a protestar de diferentes maneiras, uma das quais foi a criação e o uso de várias tags anticensura. Em pouco tempo, A tag “thinkflickrthink” se destacou entre as outras.

Em 13 de junho, a tag “thinkflickrthink” foi colocada em 381 fotos. No dia seguinte, este número havia aumentado para 953. No dia 14, 157 manifestantes diferentes usaram esta tag, e no dia seguinte mais 163. Em 17 de junho, o número total de fotos com a tag “thinkflickrthink” era de 2.183. Esta atividade atingiu seu pico em 20 de junho, com 60 usuários colocando a tag em 1.854 fotos em um único dia.

Picos sucessivos, o primeiro dos quais em grande parte atribuído à colocação maciça de tags por um único usuário, aconteceram nos dias 27 de junho, com a tag em 1.535 fotos, e em 8 de julho com 330 fotos com a tag “thinkflickrthink.

Desde aquele dia, o protesto com as tags continuou, embora tenha diminuído significativamente, com uma média estável logo abaixo de 100 tags colocadas por dia. O número total de fotos com a tag “thinkflickrthink”, em contagem de 30 de julho, é de 7.815. A tag foi colocada nestas imagens por 1.339 usuários diferentes.

Entre 13 e 15 de junho, três tags anticensura forma criadas: “thinkflickrthink” “censr” e “againstflickrcensorship". Embora todas ainda estejam em uso (assim como outras tags menores anticensura), “thinkflickrthink” tornou-se claramente a mais popular.

É interessante notar que, em 14 de julho, a tag “againstflickrcensorship” foi, na verdade, usada em mais postagens (1.511) que a “thinkflickrthink” (1.334). No entanto, foi usada por um número menor de usuários (26 contra 170).

Em muitas imagens, várias tags anticensura foram usadas simultaneamente: um total de 16 tags explicitamente anticensura foi detectado. As principais tags usadas ao mesmo tempo que “thinkflickrthink” foram “censorship” (1.457 co-ocorrências), “zensur” (899) e “protest” (818).

Um fato interessante que emerge da análise da dinâmica das tags é que nem todas as fotos com tags foram subidas ao site no mesmo momento em que foram usadas para protestar. A maioria delas já estava no site e apenas tiveram as tags anticensura colocadas depois da data crítica, 13 de junho.

Se analisarmos as datas em que as fotos com a tag “thinkflickrthink” foram transferidas para o site, descobriremos que, de um total de 7.815 fotos, 5.701 (72,94%) foram colocadas no Flickr antes de 13 de junho.

Isto aponta claramente para um uso estratégico da colocação de tags: não para descrever, mas para rapidamente inundar o sistema e transformar a tag recém inventada em uma tag popular (portanto, visível). Os usuários simplesmente colocaram a nova tag em muitas de suas imagens anteriores.

Se percorrermos o Flickr procurando imagens com a tag de protesto, encontraremos imagens criadas antes do início dos protestos que fazem uma explícita declaração anticensura, ao lado de muitas outras cujo conteúdo visual não tem relação alguma com a tag.

Além disso, a análise dos padrões de postagem mostra que são praticamente os mesmos depois de 27 de junho, sugerindo que a estratégia de colocar a nova tag em fotos antigas só foi usada durante as primeiras duas semanas de protestos. Foram encontrados 34 (2,53%) manifestantes diferentes que usaram a estratégia de colocar a nova tag em fotos antigas.


A rede de manifestantes

A alta velocidade com que a tag “thinkflickrthink” se alastrou pelo Flickr imediatamente sugeriu a existência de uma rede de usuários fortemente conectada. Para que estudássemos como os usuários das tags de protesto estavam interconectados dentro do Flickr, a lista pública de contatos de cada usuário foi obtida.

Já que uma das características mais populares do Flickr é a possibilidade de formar novos grupos de usuários com interesses comuns, também foi feita uma busca para obter os grupos anticensura aos quais estes usuários pertenciam.

Durante os protestos anticensura, os usuários se uniram em grupos de protesto recém-formados. Em especial, o grupo “Against Censorship at Flickr!” apresentou um crescimento impressionante: na primeira semana da campanha anticensura, o número de membros passou de 0 para quase 12.000. Além deste grupo principal, outros 11 grupos anticensura foram detectados. Os usuários do “thinkflickrthink”, pelo simples uso da tag, podem ser considerados como um grupo, ainda que um grupo emergente, no qual seus “membros” compartilham o uso comum de uma estratégia.

De todos os usuários envolvidos, 1.115 (83,27%) têm pelo menos um contato dentro deste grupo espontâneo. O número reflete o total de usuários que “conhecem” ou “são conhecidos por” outro usuário, independentemente da reciprocidade.

Os contatos no Flickr são unidirecionais: o usuário A está na lista do usuário B, mas isto não significa que B esteja na lista de A. O fato de que a maioria dos usuários estão interconectados sugere que a nova tag possa ter se disseminado principalmente através do contato entre “vizinhos próximos”, embora os grupos anticensura também tenham desempenhado um importante papel.

Ao contrário do que se poderia esperar, há pouca reciprocidade nesta rede. O número de relacionamentos bidirecionais (pares de manifestantes em que ambos estão na lista de contatos do outro) é bastante baixo: somente 46 dos 4.320 (1,06%) contatos são bidirecionais.

A maioria (76,23%) dos 1.115 usuários interconectados do “thinkflickrthink'' pertence a pelo menos um grupo anticensura. Respectivamente, 63,83% dos 244 usuários não-interconectados também são membros de um grupo anticensura. Ao levar em consideração os parâmetros “interconexão” e “filiação a um grupo anticensura”, podemos propor a seguinte classificação de manifestantes: “ativistas”, “amigos”, “recém-chegados” e “espectadores-simpatizantes”.

Os “ativistas” não são apenas a maioria neste grupo, são também os mais ativos. Não obstante, sua atividade é altamente desigual: 72,98% das postagens foram feitas por apenas 5 usuários (0,58%), enquanto 621 usuários (73,05%) fizeram exatamente uma postagem (9,06%).

O padrão de postagem dos “amigos” é muito mais regular que o dos “ativistas”: 25 usuários (9,43%) fizeram 132 postagens (35,48%), enquanto 240 deles (90,56%) postaram uma imagem cada um (65,51%). Os usuários deste grupo podem ser considerados como de “postagem única”.

 
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