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Pizzini: Ele vai apertar a mão do Figueiredo. Zuenir Ventura conta que o Glauber blefou. Chegou para o Figueiredo e disse: “Estou adorando o seu governo”. Aí o Figueiredo respondeu: “Eu adoro seus filmes”. Um mentindo para o outro. Porque ele queria fazer um gesto teatral para criar um compromisso público de abertura. Uma coisa é dizer: “A abertura vai sair”; mas, será? Então vai lá o Glauber e diz: “Parabéns, a abertura vai sair”. Ele cria um gesto teatral para não se recuar na intenção...


Na edição de 2007 do Festival de Veneza, 27 anos depois, ocorreu novamente a exibição de “A Idade da Terra”. Você esteve lá, com “Anabazys”. Passado todo este tempo, como foi a reação do público?

Pizzini: A recepção foi incrível. Isso, aliás, foi uma mea culpa fantástica por parte do Festival de Veneza. "A Idade da Terra” foi reexibido no último dia, mas tinha muita gente representativa. Não era uma exibição de muito público, mas havia pessoas reagindo em cena aberta.

“Anabazys” teve uma sessão mais procurada, porque num horário mais favorecido. Paulo César Sarraceni disse uma coisa que me deixou pasmo: “Se ‘Anabazys’ tivesse sido exibido em Veneza na época, Glauber não teria morrido, porque os italianos compreenderiam o filme”. Adriano Aprà, que é um grande crítico italiano e foi diretor do Festival de Pesaro, adorou o filme e creio que compreendeu melhor “A Idade da Terra” a partir de “Anabazys”.


Desde o início, Glauber foi visto como um artista hermético. Sobre “Terra em Transe”, Nelson Rodrigues disse ser mais difícil que um ideograma chinês de cabeça para baixo. “A Idade da Terra”, por sua vez, talvez seja o seu filme que mais gera incompreensão e controvérsia. Para você, a que se deve a dificuldade de aceitação deste último filme de Glauber?

Pizzini: “A Idade da Terra” se aproxima da idéia de um filme aberto, de uma instalação. Porque chega uma hora em que Glauber desencana da idéia de que o filme tem que ter um ritmo “rigoroso”, no sentido clássico. De repente, tem uma entrevista com o jornalista Carlos Castelo Branco. Celso Amorim, que era o diretor da Embrafilme na época, sugeriu a ele colocar como prólogo o Castelo Branco. Dentro de uma lógica, se ele colocasse como prólogo, não teria uma interrupção no fluxo. Porque aquilo é uma interrupção deliberada. É como se ele falasse: “Agora esse cara vai dizer um pouco da história contemporânea”. Está acontecendo um filme mítico ali, e de repente entra o jornalista.

Ele não estava mais preocupado com a dinâmica do filme, como talvez em “Terra em Transe”. Se ele colocasse a fala de Castelo Branco no início, talvez o filme fluísse melhor na seqüência. Mas “A Idade da Terra” é uma missa bárbara.

Agora, não é um filme hermético. Nisso eu discordo de muita gente. Se você pensar, tem todos os mitos ali: Adão e Eva, a criação do mundo... Se a gente olhar com olhos livres, com espírito desarmado, vai ver um filme que tem um desdobramento simples. “A Idade da Terra” talvez não tenha uma condensação que tornasse mais “fluente”. Exige talvez um expectador mais ativo, completando o filme. Não é um filme de espetáculo acabado, nem de identificação.

Tem um dado que é interessante. Antonioni achava que “A Idade da Terra” causou a mesma reação que “A Aventura”, em Cannes, pois neste seu filme tem a seqüência em que a Lea Massari desaparece. Você vai acompanhando e o personagem desaparece... Isso foi uma ousadia, porque até então, no cinema clássico, você tem o desdobramento do personagem –se ele some é preciso toda uma explicação. “A Idade da Terra” é assim: aparece um personagem que, de repente você não vê mais, ou que ressurge de uma outra maneira, ou, então, o próprio Glauber entra dentro do filme, como ator de si mesmo.


Glauber se frustrou com a recepção de “A Idade da Terra”. Há um descompasso de expectativa entre o que ele esperava e o que crítica e público receberam. Para você, ele não tinha a dimensão de como o filme seria recebido?

Pizzini: Geneton Moraes Neto, jornalista da rede Globo, que era correspondente em Paris, conta que Glauber chamou uma série de amigos e fez, em Paris, uma exibição de “A Idade da Terra”. Terminada a sessão, Glauber, ao invés de perguntar se os amigos tinham entendido e gostado, virou e disse: “E aí, fizeram as ligações?”. Não queria saber se gostaram, mas se fizeram ou não as "ligações".

Quer dizer, era um outro tipo de recepção que ele esperava. Só que o púbico esperava um novo “Deus e o Diabo”, um novo “Terra em Transe”. Mas, para ele, não tinha sentido fazer um novo “Deus e o Diabo”, no final dos anos 70. Em cada filme ele estava colocando dúvidas, questões, assimilando. Afinal, como diz o Pasolini, o roteiro do mundo piorou.

[Em “A Idade da Terra” há referência a Pasolini. Pela temática, pode-se dizer que Glauber teve em vista “O Evangelho Segundo São Matheus”?

Pizzini: Ele tinha uma relação tensa com o Pasolini. Tem entrevista em que ele diz: “O que me interessa no Pasolini é o mito do Pasolini”. E o que é o mito dele? Em “A Idade da Terra” ele tentou filmar o Cristo no Terceiro Mundo. Então, não é necessariamente aquele cinema do Pasolini que está interferindo. Na verdade, os dois estão fazendo cinema em que tem o Evangelho. Mas não apenas o cinema que está influenciando. Às vezes, é o mito, é a atitude, é o personagem. Glauber era muito ligado à história mítica. Os dois têm, talvez, trajetórias coetâneas; estão fazendo coisas parecidas ao mesmo tempo. Há quem diga que Pasolini foi influenciado por “Deus e o Diabo”. Essa discussão é interminável.


Sobre “Di Cavalcanti Di Glauber”, que inclusive ganhou prêmio em Cannes em 1977, em que ponto está o processo movido pela família de Di Cavalcanti, que proíbe sua exibição?

Pizzini: “Di” foi o único curta que ganhou um prêmio da dimensão do Especial do Júri em Cannes. O prêmio foi dado por Roberto Rossellini, e é curioso que, no miolo do “Di”, um dos acontecimentos do filme é o encontro que Glauber teve com Rossellini. É o comentário que ele faz do encontro com o diretor italiano, na Bahia, quando ele, jovem repórter do "Diário de Notícias", viu o Rossellini filmar.

Glauber diz que ele fez o “Di” para experimentar o som. “Di” tem uma narração meio de locutor de turfe, de futebol. Agora, a cena que realmente chocou foi a que Glauber levanta o véu do rosto do Di e ele está sorrindo realmente. Esta cena a família não perdoou. As pessoas ligam para saber a opinião de Elizabeth (Di Cavalcanti), que é a filha adotiva que proibiu o filme, e ela pede para que não falem mais disso. Quer dizer, a coisa está sendo conquistada pelo cansaço: ela já está liberando...
É possível ver “Di” pela internet, no YouTube...

Pizzini: Na internet! Mas sabe por quê? Está num site americano. Foi um drible aéreo territorial. Foi até uma sacada de João Rocha, sobrinho do Glauber, que trabalha no Tempo Glauber. Ele colocou num site americano, que não está no território nacional. Aí o filme entra num outro espaço aéreo.

Elizabeth não agüenta mais dar entrevistas sobre a proibição. E tem histórias absurdas. Carlos Augusto Calil contou que, quando o filme foi proibido, ele tinha que lacrar o negativo. Ele tirou o negativo e lacrou só a lata. Então o “Di” está começando a ser exibido publicamente, mesmo proibido.


Publicado em 9/2/2009

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Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
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