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dossiê
CINEMA BRASILEIRO

A ressurreição de Glauber
Por Humberto Pereira da Silva


Glauber Rocha (à esq.) durante a filmagem de "Terra em Transe"
Acervo Tempo Glauber/Divulgação

O diretor Joel Pizzini fala sobre a complexa restauração dos filmes do cineasta de "A Idade da Terra"

“Barravento”, o primeiro longa-metragem de Glauber Rocha, de 1961, levou o prêmio Opera Prima, no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na antiga Tchecoslováquia. Seu último filme, “A Idade da Terra”, exibido no Festival de Veneza de 1980, chocou o público e dividiu a crítica. Após a premiação, revoltado com o lobby dos grandes estúdios, Glauber fez uma passeata no Lido, na qual denunciou a corrupção e decadência do festival.

Entre esses dois momentos, uma trajetória marcada por polêmicas, posições controversas, prêmios e pelo menos três obras que ficarão para a história do cinema: “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Por isso, mais que qualquer outro cineasta brasileiro, Glauber é um divisor de águas em praticamente todos os debates sobre cinema que se travam no Brasil.

No entanto, trata-se de um cineasta muito mais discutido do que visto. Sua vida errante (foi para o exílio logo após o AI-5 e passou seus últimos meses de vida em Sintra, Portugal) contribuiu em muito para a dispersão de sua obra pelo mundo. Cópias de seus filmes foram destruídas num incêndio em Paris, outras nem sequer chegaram a ser exibidas comercialmente no Brasil.

Preocupada com a preservação da obra do filho, Lucia Rocha criou o Tempo Glauber. A partir de 2003, com direção de Paloma Rocha, filha de Glauber, o Tempo Glauber responde pelo “Projeto Coleção Glauber Rocha”. Este projeto visa recuperar e restaurar a filmografia completa do diretor. Como resultado, foi lançada recentemente uma caixa de DVDs com os seguintes filmes restaurados: “Barravento”, Terra em Transe”, “O Dragão da Maldade” e “A Idade da Terra”.

O cineasta Joel Pizzini divide com Paloma Rocha as direções dos documentários “Depois do Transe”, “Milagrez” e “Primerydade”, que acompanham respectivamente os DVDs de “Terra em Transe”, “O Dragão da Maldade” e “A Idade da Terra”. Ambos assinam também a direção de “Anabazys”, documentário sobre a gênese, a erupção e a ressonância de “A Idade da Terra”.

Pizzini, que participou como curador, pesquisador e supervisor técnico de restauração nessa primeira fase do projeto, responde em entrevista abaixo sobre as dificuldades para recuperar filmes perdidos de Glauber. “Eu estive agora em Madri, na Filmoteca Espanhola, e soube que os negativos de ‘Cabeças Cortadas’ haviam sido retirados de lá. Deste filme, 50% dos direitos são da família Rocha e 50% de um produtor espanhol. O produtor se desentendeu, retirou o filme e levou ‘Cabeças Cortadas’ para a produtora dele”, conta.

Ele fala também da dificuldade de aceitação de “A Idade da Terra”. “Este filme exige talvez um espectador mais ativo, completando a obra. Não é um filme de espetáculo acabado, nem de identificação”, analisa. E revela como o anda o processo movido pela família de Di Cavalcanti, que proibiu o documentário “Di Cavalcanti Di Glauber”: “No momento as pessoas ligam para saber a opinião de Elizabeth, que é a filha adotiva que proibiu o filme, e ela pede para que não falem mais disso. Quer dizer a coisa está sendo conquistada pelo cansaço: ela já está liberando...”.

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Nos últimos cinco anos, você, Paloma Rocha e o Tempo Glauber têm se empenhado na recuperação, restauração e divulgação da obra de Glauber. Como resultado dessa iniciativa, tivemos recentemente o lançamento da caixa de DVDs “Coleção Glauber Rocha/fase1”, com os filmes “Barravento”, “Terra em Transe”, “O Dragão da Maldade” e “A Idade da Terra”. Nos filmes dessa fase 1 do projeto, quais foram as dificuldades encontradas no processo de restauração e recuperação?

Joel Pizzini: O maior desafio foi como restaurar os filmes que não tinham negativos originais no Brasil. Tanto “O Dragão da Maldade” como “Terra em Transe” tiveram os negativos originais destruídos num incêndio no laboratório GTC, que fica nos arredores de Paris. Glauber, na época da ditadura, com medo de deixar os negativos aqui, os levou para a França. Aí chegou essa notícia, já nos anos 80, do desaparecimento dos negativos do “Dragão” e de “Terra em Transe”. Nem o Glauber soube. Foi Carlos Augusto Calil, na época diretor da Cinemateca Brasileira, que recebeu o informe oficial e repassou essa informação do governo francês.

Assim, perderam-se os negativos. Por sorte, existia uma prática nessa época: quando o distribuidor vendia um filme para um determinado país, ele não vendia a cópia, mas uma espécie de contratipo, do qual se faziam várias cópias que seriam distribuídas no circuito daquele país. E havia um contratipo de Claude Antoine, que é produtor do “Dragão”, que o levou para a Cinemateca de Munique. Então, Peter Schuman, que é um grande interlocutor do Cinema Novo na Alemanha, foi acionado pelo Calil e conseguiu localizar esse contratipo.

O problema é que esse contratipo, no caso do “Dragão”, tinha as legendas em francês, quando eram executadas as canções, porque os filmes nessa época eram dublados. Então o que acontecia? Eles não tinham como dublar as canções, que são canções do “folclore brasileiro” – são letras muito dialetais. Eles respeitavam as canções e colocavam legendas.

O resto do filme era dublado. A gente teve acesso a esse contratipo alemão, mas dublado. Então, o som não servia; só servia o som das canções. Aí recorremos a uma cópia localizada em Cuba, que tinha o som original. Foi feito um mix do som cubano com uma imagem que estava na Alemanha, para criar um novo negativo, graças à tecnologia digital.

Preservamos as legendas em francês. Houve até uma tentativa, porque o filme foi restaurado por João Sócrates, que é uma das maiores autoridades do mundo hoje em restauração. A tentativa foi feita no Prestech Film Laboratories, em Londres. E João Sócrates até tentou limpar as legendas dessas cenas que têm as canções. Só dava para tirar quando era plano fixo, mas com a cena em movimento demoraria muito tempo; seria um processo caríssimo, inviável. Mas num futuro isso pode ser feito. Eu acho que esse filme pode voltar a ser restaurado.


O “Dragão” é de 1969, ganhou o prêmio de direção em Cannes, mas no Brasil já estávamos no AI-5. Como se deu a exibição do “Dragão” aqui, naquele momento?

Pizzini: No caso do “Dragão”, tem um episódio interessante. Antonio Leão, que é um colecionador de 16 mm, nos procurou um dia e disse que tinha uma cópia em 16 mm do “Dragão”.

O filme havia sido censurado no Brasil, e eles tiraram vários diálogos do filme, pois faziam alusões metafóricas que incomodavam a ditadura. Nessa cópia em 16 mm, tem a versão pré-censura, com os letreiros originais. É que o Glauber, nas cenas dos diálogos que foram censurados, colocou música de Luiz Gonzaga. Na cópia que foi censurada, quando entra o Luiz Gonzaga, é porque havia um diálogo que foi suprimido. Essa cópia em 16mm, então, ajuda a conhecer o filme, porque no futuro, se quiserem restaurar os letreiros originais, sabe-se como eles são. A cópia é precária, mas ela tem uma informação. No documentário “Milagrez” a gente mostra cenas dessa cópia em 16 mm.

Por tudo isso, é interessante falar de um dado curioso sobre o “Dragão”. Uma vez, fazendo uma entrevista com o Arrigo Barnabé, sobre cinema e música, para o Canal Brasil, eu perguntei qual era o momento do cinema brasileiro que tinha a música mais marcante para ele. Ele disse que era o “Dragão”, com “Assum Preto”. Mas essa música não existe na cópia que a gente conhece.

“Assum Preto” foi colocada na cópia censurada em cima de um diálogo. Na cópia que circulou no Brasil, censurada, as pessoas viram o filme com esta música de Luiz Gonzaga. Agora, na cópia não censurada, que a gente teve acesso, isso não existe, porque os diálogos estão lá normalmente.


O “Dragão” foi o filme que ofereceu maiores dificuldades para a restauração?

Pizzini: A história do filme é fascinante. Você revolver isso é descobrir como se vai contando a história política do Brasil, com a censura e tal... Esse filme foi o mais problemático também porque tinha no “Dragão” o conceito de Tropicolor, que o Glauber desenvolveu e que é a saturação das cores: apenas trabalhar com cores vibrantes.

Como os negativos já estavam muito danificados, optamos por ir à Inglaterra, para o Prestech Film Laboratories, porque lá João Sócrates estava trabalhando na tecnologia 4k (4.000 pixels). O “Dragão” é provavelmente o primeiro filme latino-americano clássico restaurado pela tecnologia 4k, que permitiu trazer de volta as cores originais.

Tem um outro dado também interessante. É sobre o som, a reconstituição que José Luiz Sasso fez da música “Carinhoso”. Quando Odete Lara canta “Meu coração...” etc., não tinha a letra “m” e a Paloma (Rocha) foi encontrar na internet, em um site na Itália, uma cópia pirata que tinha o som inteiro. A pirataria aí ajudou a recompor esse fonema. É um milagre, hoje, você ouvir o filme. Foi um trabalho incrível de José Luiz Sasso, junto com a Cinemateca Brasileira. Porque ele foi até a origem fotoquímica para poder chegar ao máximo da qualidade original do som.


E como foram as restaurações de “Barravento”, “Terra em Transe” e “A Idade da Terra”?

Pizzini: Os negativos de “Terra em Transe” também desapareceram no incêndio em Paris. Tivemos que fazer um mix de várias fontes. Fomos localizando várias origens. Durante esse processo, foi encontrada, também em Berlim, uma cópia do filme destinada à TV alemã, que originou a matriz que serviu de base para a confecção do contratipo combinado que está na Cinemateca Brasileira e que, por sua vez, foi a referência de imagem e de som para esse restauro. Outras cópias que estavam no Brasil também serviram para complementar o restauro da imagem e do som, em trechos nos quais o contratipo já estava muito danificado.

“Barravento” e “ A Idade da Terra” tinham negativos. Por isso o processo foi um pouco mais fácil. Embora na restauração de “A Idade da Terra” tenha uma conquista que eu acho muito sutil, mas que dá para ver como faz diferença. Os laboratórios, na época, não estavam preparados para colar um plano no outro, planos muito curtos.

Por exemplo, em “A Idade da Terra” há planos de três fotogramas, quatro fotogramas. O que acontecia? Quando a gente via o filme, eles não conseguiam colar os fotogramas de modo a conseguir tirarem a marca da cola. Na verdade, quando você tem três fotogramas, o que se vê mais é a sujeira da cola, colando três em três. Com o trabalho de restauração, conseguimos extrair toda essa sujeira. Agora, no filme, os efeitos fluem da maneira como Glauber queria.


Para os apreciadores da obra de Glauber Rocha, chama a atenção o fato de “Deus e o Diabo”, talvez seu filme mais conhecido, mais apreciado e de maior fortuna crítica no Brasil, não fazer parte da caixa. Por que “Deus e o Diabo” não está na caixa lançada agora? Por que foi lançado separadamente?

Pizzini: “Deus e o Diabo” até hoje não foi restaurado. O que aconteceu? Para aquele primeiro DVD que saiu, não havia tecnologia na época. Foi um DVD pioneiro, feito pela RioFilme com a Versátil. Mas, na verdade, foi uma remasterização.

A partir dos negativos que estavam em estado preocupante, foi feita uma telecinagem. Não foi feito um trabalho como se deveria, porque o DVD de “Deus e o Diabo” ainda deixa a desejar. Ele está acima da média, cumpre a função, satisfaz o desejo das pessoas de verem o filme, mas ainda tem problemas sérios no som –o som é péssimo ainda– e as nuvens ficam fritando ali. O próprio Fábio Fraccarolli, que é o restaurador, não assina embaixo do resultado.

Foi feito o que era possível na época, e foi importante, porque, se não tivesse havido o lançamento desse primeiro filme, provavelmente não haveria espaço para os demais. Só que ele precisa ser restaurado. E também não continha um documentário, com um trabalho narrativo, que depois a gente desenvolveu.

Agora, por exemplo, a Paloma foi a Salvador, porque o governo baiano se dispôs a restaurar tanto “Deus e o Diabo” quanto o “Pátio” _que também precisa ser restaurado, pois o negativo está em péssimo estado.


“Amazonas, Amazonas” e “Câncer”, outros filmes de Glauber feitos aqui no Brasil, terão lançamento em DVDs? E “O Leão De 7 Cabeças”, “Cabeças Cortadas”, “História do Brasil” e “Claro”, existe projeto de restauração para esses filmes feitos no exílio?

 
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