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dossiê
CINEMA BRASILEIRO

Cinema goela abaixo
Por Fernando Masini

Pesquisadora resgata a antropofagia de Oswald de Andrade para entender o cinema dos anos 70 no Brasil

A antropofagia dos modernistas é recuperada pela professora de cinema Guiomar Ramos para entender alguns filmes produzidos no país entre 1970 e 1974, um período de turbulência cultural e mordaça política. Após o fracasso da esquerda e a desilusão do Cinema Novo hasteado por Glauber Rocha, entrou em cena, naquela época, um cinema anárquico, repleto de referências e altamente pessimista no teor geral. São produções que têm em comum o recuo no tempo, rumo à época colonial em busca de respostas à situação do país, e que encontram no ritual canibal dos índios uma metáfora pertinente.

É o que interessa Guiomar na sua análise. A pergunta que fica é a do título de seu livro _“Um Cinema Brasileiro Antropofágico?”, lançado pela Annablume (161 págs., R$ 32), resultado da tese de doutorado defendida por ela na USP. Quatro filmes são examinados pela autora: “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1970), de Nelson Pereira dos Santos, “Orgia ou o Homem que Deu Cria” (1970), de João Silvério Trevisan, “Triste Trópico” (1974), de Arthur Omar, e “Pindorama” (1970), de Arnaldo Jabor.

A premissa vasculhada é a de que todos fariam referência à antropofagia criada por Oswald de Andrade na década de 20 -a devoração entendida como metáfora de apropriação cultural do colonizador e como bastião de uma nova identidade nacional.

Guiomar explica, em entrevista a Trópico, como o conceito de antropofagia foi retomado nos anos 60: “A devoração alegre proposta por Oswald e reavivada aqui faz referência à alegria tropicalista, em que o deglutir significa poder se apropriar do que não é nosso -da cultura massificada, importada- daquele que é o mais forte: os europeus (na época de Oswald) ou os EUA (na década de 1960)”.

Os quatro filmes ou fazem menção direta ao canibalismo dos índios tupinambás –é o caso de “Como Era Gostoso o Meu Francês”, inspirado às avessas nos relatos do viajante do século 16, Hans Staden– ou adotam o tom preconizado por Oswald, abusando de colagens irônicas, paródias e alegorias. Guiomar dá o exemplo “do canibalismo paródico explicitado pelos índios que devoram o bebê do cangaceiro grávido no filme de João Silvério Trevisan”.

“A presença da antropofagia nesses filmes é significativa de um momento de transição, em que o signo aglutinador de cultura e força nacional, representado pelo canibalismo cultural oswaldiano, transforma-se em algo que não pode mais ser revelador dessa alegria carnavalesca. Por isso, o canibalismo surge de maneira ambígua nas produções analisadas: como a imagem de uma praia vazia, completada pela frase de Mem de Sá que comprova o massacre dos índios antropófagos pelos portugueses no último plano de ‘Como Era Gostoso...’”, afirma a autora.

O sarcasmo entra em jogo para derrubar a esperança da antropofagia oswaldiana. O retorno às origens do descobrimento não serve aqui como libertação do povo ou como marca de batismo. Prevalece na releitura dos anos 60 e 70 um sentimento mais pessimista, menos utópico. Isso, em parte, devido ao contexto histórico, judiado pelo embrutecimento do regime militar e o aniquilamento dos intelectuais.

Em “Triste Trópico”, Arthur Omar constrói uma narrativa que mistura fotografias de época, vinhetas e imagens documentais do carnaval de rua carioca, para exibir a trajetória desoladora de um messias pelo país. A voz que nos conta a história muitas vezes ironiza ou faz paródia das imagens. O protagonista tem no final uma morte trágica e não oferece salvação aos fanáticos seguidores. O sonho revolucionário transforma-se, na obra de Omar, em implacável constatação.

A pesquisadora esclarece: “A presença da antropofagia oswaldiana aqui nem sempre se transforma em riso, em todos os filmes ela acaba por demarcar uma tonalidade negativa. ‘Como Era Gostoso o Meu Francês’ é, dos quatro filmes analisados, o mais carnavalizador, no sentido proposto por Oswald. Ele propõe a devoração de forma alegre e provocativa do europeu, invertendo o próprio relato do viajante Hans Staden que conseguiu a proeza de escapar do ritual indígena. O significado da metáfora da antropofagia (alegria e renovação) se soma a uma outra metáfora que é a do corpo empestado de Artaud, que também aponta para outro viés do devorar o outro, o comer a si próprio –a autofagia. Nos filmes que analiso, o paradigma da devoração aparece como um desfile de corpos torturados, representativo do horror da ditadura do início dos anos 1970”.

A professora e crítica Lúcia Nagib reserva um dos capítulos do seu livro “A Utopia no Cinema Brasileiro” (ed. Cosac Naify) justamente para discutir a antropofagia no cinema nacional. Ao discorrer sobre o filme “Como Era Gostoso o Meu Francês”, ela aponta para a rachadura entre o elemento nativo e o conquistador europeu na tentativa de apaziguar uma convivência. E destaca como isso reverbera na formação da identidade nacional: “A utopia antropofágica fracassa do mesmo modo que, no Brasil dos anos 60, as esperanças revolucionárias, que uniam elite intelectual a camponeses e operários, eram liquidadas pelo golpe militar”.


A morte do intelectual

O intelectual fragilizado é outro elemento encontrado por Guiomar nos filmes em estudo. A coesão do discurso dá lugar a um monólogo tresloucado, muitas vezes representado por personagens caricatos, que se perdem em sua própria fala. O espírito revolucionário é arruinado tanto pela incompreensão do povo, quanto pela rigidez inflexível do poder. Guiomar enumera os tipos pensantes dos filmes, destacando que eles representam a ruína da esquerda no Brasil, justificada pela destruição de qualquer expectativa revolucionária.

“No filme de Nelson Pereira dos Santos, essa figura pode ser identificada pelo protagonista Jean, sendo o povo representado pelos índios antropófagos. Seu interesse didático e antropológico pelos índios é totalmente destruído, pois ele é irremediavelmente devorado. Em ‘Triste Trópico’, o tipo intelectual fica evidente no protagonista: um médico, com interesses no povo e na cultura de seu país, a ponto de, ao voltar da Europa, deixar o consultório para se embrenhar no mato, assimilando os hábitos mais estranhos dos nativos, como o de comer carne humana. Ele é perseguido e martirizado”, analisa.

Sobre “Pindorama”, a estréia de Arnaldo Jabor em longas de ficção, Guiomar diz que “o personagem do intelectual é apresentado por meio da figura do poeta rebelde Gregório, que também é apedrejado e morto. Em ‘Orgia...’, o tipo intelectual aparece de maneira breve, mas impactante, vivido por um intelectual na vida real, Jean-Claude Bernardet. Ele nos é mostrado em um estado de não comunicação absoluta (não consegue se fazer compreender nem para os espectadores), fala uma língua inexistente, come as páginas do próprio livro e por fim se enforca. Todos são personagens políticos, tentando intermediar um diálogo entre o colonizador e o colonizado”.


A antropofagia sem Macunaíma

O desfalque na análise de Guiomar é o filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, realizado em 1969. Sintoma imediato da clausura política decretada pelo AI-5 no ano anterior, a obra extrapola a antropofagia ligada aos nativos da época colonial e usa o livro de Mário de Andrade para estender o canibalismo como imagem das relações sociais predominantes no país. E exagera no seu potencial destrutivo, apontando-o como o mal dos países subdesenvolvidos. Aqui não há esperança possível, estão todos condenados.

Nosso “herói sem caráter” incorpora a miscigenação étnica e anda à solta pelo Brasil. Nasce negro, vive como índio no meio da mata e torna-se branco no decorrer da história. A referência à devoração de carne humana é recorrente. Ocorre quando Macunaíma tenta beliscar um pedaço da perna do Curupira; há uma feijoada humana dentro da piscina, na casa do ogro; e, na sequência final, o protagonista é devorado no rio, cujas águas ficam manchadas de sangue. A cena foi descrita por Lúcia Nagib como uma “apoteose antropofágica”.

O próprio Joaquim Pedro corroborou na época essa noção inexorável do país. “Todo consumo é redutível ao canibalismo. As relações de trabalho, como as relações entre as pessoas, as relações sociais, políticas e econômicas, são ainda basicamente antropofágicas. Quem pode come o outro, por interposto produto ou diretamente, como nas relações sexuais. A antropofagia se institucionaliza e se disfarça (...) É uma forma de consumo que os subdesenvolvidos usaram de maneira exemplar”.

Guiomar reconhece a antropofagia em “Macunaíma”, mas explica a ausência do filme em seu livro por ser este uma colagem de mitos indígenas que não faz referência aos rituais da tribo dos tupinambás, nem ao contexto do Brasil colonial, que seria, segundo ela, “a fonte da metáfora oswaldiana”.

A autora defende sua posição: “A escolha dos filmes analisados no livro leva em conta um determinado tipo de imaginário canibal, que não ‘bate’ com o canibalismo utilizado por Mário e também pelo filme. No filme de Joaquim Pedro, temos o comer sexual, na cena do encontro de Macunaíma criança com Sofará, quando esta tenta mordê-lo embaixo d’água. Também a presença do canibalismo lendário e literal, com a citação de Curupira que come sua própria perna. E, finalmente, a antropofagia citada dentro de um contexto moderno, da década de 60, quando temos uma piscina que se transforma no local de uma grande feijoada, onde os convidados são servidos como comida”.


Os índios melancólicos de “Hans Staden”

Alguma produção atual se encaixaria dentro da hipótese do cinema antropofágico? Guiomar cita o caso de “Hans Staden” (1999), de Luiz Alberto Pereira, como um candidato que chega perto mas decepciona no resultado final.

A história é a mesma contada por Nelson Pereira em “Como Era Gostoso...” –o viajante que em 1554 vira prisioneiro dos tupinambás-, embora a perspectiva seja completamente invertida. Nelson opta por contradizer os relatos de Hans Staden, usando imagens para desmenti-lo, enquanto Luiz Alberto segue à risca o diário, reproduzindo fielmente o olhar estrangeiro que às vezes exagera ou deforma a realidade.

“O filme aborda o texto do viajante alemão sem as possibilidades carnavalizantes propostas por Oswald. ‘Hans Staden’ conta a história que Nelson Pereira dos Santos se recusou a apresentar em ‘Como Era gostoso...’: a história dos índios antropófagos tupinambás do ponto de vista dos vencedores europeus. No filme ‘Hans Staden’, os índios são claramente retratados como ingênuos e melancólicos, que se satisfazem com um baú cheio de especiarias; estas chamadas pelos índios de “Como Era gostoso” de quinquilharias”, diz Guiomar.

A pergunta que dá título ao livro é respondida pela autora com algumas ressalvas. O cinema antropofágico existe e fez parte desse momento histórico em que boa parte dos artistas tinha o discurso artístico amordaçado. Para contornar a repressão, usaram alegorias e fábulas. No entanto, como completa Guiomar, “a tonalidade os afasta da ‘alegria’ tropicalista e introduz um mal-estar que diz muito bem da relação entre eles e o Brasil da época”.


Publicado em 9/3/2009

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Fernando Masini
É jornalista.

1 - O depoimento está no livro “Macunaíma: Da Literatura ao Cinema”, de Heloísa Buarque de Holanda, e foi reproduzido em “A Utopia no Cinema Brasileiro”, de Lúcia Nagib.

 
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