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dossiê
LITERATURA

O continente poético
Por Alfredo Fressia

Conheça os dez principais poetas hispano-americanos em atividade, na seleção do escritor e crítico uruguaio Alfredo Fressia

Era uma brincadeira, claro. Eleger os dez poetas hispano-americanos vivos que “devem” ser lidos e que eu fizesse uma espécie de introdução –“autoral”, pedia a Trópico. Só podia ser um jogo, desses com livros e ilhas desertas, e confesso que foi tentador.

A primeira etapa da tentação, já efetivo pecado, era a seleção dos dez poetas. Saudades dos tempos em que havia poetas centrais e periféricos. Havia os poetas que nos representavam, eram nossos “maîtres à penser”, mestres em poetizar também. Havia um cânone indiscutido, lembram-se? Neruda reinava absoluto no continente. Falo do tempo em que todos esperávamos a Revolução -ou alguma forma de Revolução- e o último livro de Neruda ou de Octavio Paz.

Certamente era emocionante encontrar um poeta –da Nicarágua? da Venezuela?- e dar a conhecer essa obra num jornal, numa revista, mas tudo era feito num mundo hierarquizado, acho que hierarquizado também por grandes editoras de Buenos Aires, do México e eventualmente de Caracas, com a nossa adesão, porque estávamos acostumados com um mundo sempre “vertical”.

Depois veio a desmontagem desses relatos (falando em “relatos”, o Sartre também deixou de ser nosso filósofo obrigatório, “central”), o mundo da poesia se partiu em estéticas várias e sem princípio de autoridade plausível. As academias, que nunca brilharam pela originalidade, aderiram aos estudos culturais, e aqui estou eu, em 2009, tentando escolher dez poetas (“canônicos”) entre os bons poetas hispano-americanos espalhados pelo continente.

Preciso excluir os mortos, e isso é uma catástrofe. Porque há mortos que para mim estão poeticamente vivíssimos (e vice-versa, claro) O que eu faço, se não posso incluir a argentina Olga Orozco, o peruano Jorge Eduardo Eielson, ou minha velha e querida Josefina Plá, a espanhola-paraguaia, a quem dediquei vários ensaios. Para mim, repito, eles estão vivíssimos.

Há poetas que eu acho importantes nas minhas leituras, mas eles são excessivamente jovens para incluí-los sem mais. A biografia –e seu tamanho...- não será garantia de nada, de acordo, mas uma vida longa (com uma obra muitas vezes idem) me tranqüilizam na hora de desenhar um cânone, ainda que só aos efeitos deste jogo.

Dirão que a minha seleção incluirá idades avançadas demais? Pode ser, mas junto com as hierarquias também sumiram deste mundo aqueles meteoritos, aqueles jovens que apareciam ex nihilo e criavam obras poéticas rimbaldianas, e viravam um-antes-e-um depois. Tenho 60 anos, por isso me permitam a amargura: terei visto demasiados autores-esperança que naufragaram, depois de alguns poemas, com ou sem elegância.

Mas também, a mostra (me esqueci de dizer: “a escolha não pretende ser uma mostra”, mas sempre é, já sabemos, liliputiana esta) deveria cobrir o continente todo e, os tempos e as qualidades poéticas obrigam, devia incluir poetas mulheres, pelo menos eu entendo assim.

Apresento minha lista, que não cobre todo o continente, nem poderia, e que só inclui três mulheres:

Ida Vitale (Montevidéu, Uruguai, 1924)
Blanca Varela (Lima, Peru, 1926)
Carlos Germán Belli (Lima, Peru, 1927)
Eduardo Lizalde (Cidade do México, 1929)
Juan Gelman (Buenos Aires, Argentina, 1930)
José Emilio Pacheco (Cidade do México, 1939)
Jotamario Arbeláez (Cali, Colômbia, 1940)
Juan Manuel Roca (Medellín, Colômbia, 1946)
Raúl Zurita (Santiago, Chile, 1950)
Damaris Calderón (Havana, 1967)

Como se vê, fui eclético. Predominam vidas provectas. Mas incluí a jovem Damaris -porque ela é boa, antecipo. Acho que deixei meio vazio o campo na altura da América Central (mas meus poetas amados dessas bandas –o salvadorenho Roque Dalton, por exemplo- já morreram, e o nicaragüense Ernesto Cardenal eu não coloco).

Botei dois colombianos e dois peruanos? Sim, mas Colômbia e Peru são países centrais na poesia. Só não sei por quê. O mesmo acontece com os sempre “estranhos” uruguaios (“los raros”). É difícil deixá-los de lado, porque sempre tem mais um estranho (“un raro”) para chamar nossa atenção. Também coloquei dois mexicanos, mas disso eu sei o porquê.

Percebo agora, com a seleção já feita, que, com exceção da Blanca Varela, conheço a todos pessoalmente. Mas esclareço: amizade, assim, amizade, eu não tenho com nenhum deles. Estive com alguns uma só vez –um encontro num centro cultural no México com Lizalde, um jantar com Gelman e outros amigos num restaurante também da Cidade do México, conversas com Belli em Montevidéu, por ocasião de um encontro de poetas, com Pacheco em Cidade Juárez, com Arbeláez em Fortaleza, em 2008, na Feira do Livro. A Damaris, eu conheci em Montevidéu e revi rapidamente há pouco no Chile. Ida Vitale, conheço melhor, somos patrícios, mas juro que só levei em conta a obra destes poetas, e não as pessoas.

Outra coisa. Quem chamar por Altavista ou Google, achará dezenas de milhares de entradas para cada um destes poetas. Há fichas biobibliográficas excelentes, e também brilhantes ensaios sobre eles. Em alguns casos, o leitor achará também ensaios meus sobre alguns deles (e meus ensaios não estarão entre os mais brilhantes).

Esta exuberância de materiais era uma vantagem e um problema para minha modesta “mostra”. O problema, ou o perigo, digamos, era repetir fichas e até ideias que outros formularam melhor. Tratei de resolver o impasse explicando em cada caso somente o motivo por que escolhi o poeta em questão, sem repetir nem parafrasear ninguém (quase que nem a mim mesmo).

Enfim, são estes os poetas os que eu levaria para a tal ilha deserta? Nem sempre nem todos. Mas todos entram com uma estética, fragmentária talvez. É o que nos resta, a nostalgia de um todo perdido, autores espalhados em busca de um cânone. Viaje o leitor pelo labirinto.


1. IDA VITALE

Ida Vitale nasceu em Montevidéu em 1924. Foi professora de literatura e, em 1973, ano do golpe de estado uruguaio, teve de deixar o país. Refugiou-se no México, junto com seu marido, o também poeta, e originalíssimo, Enrique Fierro (que não está na presente seleção por mera falta de espaço). Depois ambos se estabeleceram em Austin (EUA), onde Fierro deu aulas muito tempo na Universidade do Texas.

Por idade, Vitale pertence ao que os uruguaios chamamos “geração de 45”, junto com Mario Benedetti, Idea Vilariño, Amanda Berenguer. Essa informação não deve significar nada para um leitor brasileiro. Traduzo: Vitale pertence a uma geração que pretendeu fundar uma república letrada com um pé no velho positivismo uruguaio e outro na certeza de uma revolução libertadora. Uma geração que fez da lucidez histórica um valor estético (incluindo nisto uma vasta literatura engajada politicamente). Uma geração que não vacilou perante os parricídios, arredia frente a muitas vanguardas (a lucidez e a sobriedade não podiam simpatizar com os pós-surrealistas, por exemplo), que fez muito bem e muito mal à literatura nacional. Uma das coisas que fez bem foi dar a conhecer bons poetas, Vitale entre eles.

Publicando desde 1949, Vitale fez da poesia um modo de conhecimento, de compreensão do mundo. Por isso poucos temas lhe são alheios, por isso ela vem experimentando, em formas diferentes, em versos livres, em metros fixos ou na mesma prosa poética.

O leitor interessado, e é provável que se chegou a esta altura o leitor esteja efetivamente interessado, pode encontrar vários ensaios meus sobre a obra de Vitale na “Banda Hispânica” do “Jornal de Poesia”. Mas quero dizer uma coisa que poucas vezes se diz: talvez o segredo dessa adesão que a poesia de Vitale pede e suscita ao mesmo tempo, esteja na beleza do seu idioma. Nessa viagem pela língua à procura do mundo (e sua ética implícita, por exemplo, de natureza ecológica) o que mais seduz é, creio eu, a pesquisa da língua.

Vitale não imagina que só os “modernistas” (hispano-americanos) pudessem fazer essa pesquisa, não se resigna a um idioma padronizado, logra ressonâncias do melhor pré-barroco espanhol -penso no idioma dos neo-platônicos do “Siglo de Oro”- que convive na obra desta poeta com os belíssimos textos em prosa ou a dura denúncia da barbárie histórica dos dias que correm. Não penso que os poemas que seguem dêem uma imagem completa da obra da autora. São só um começo, porque tudo é um começo quando se fala de Vitale.


PATRIMONIO

Sólo tendremos lo que hayamos dado.
¿Y qué con lo ofrecido y no aceptado,
qué con aquello que el desdén reduce
a vana voz, sin más,
ardiente ántrax que crece,
desatendido, adentro?

La villanía del tiempo,
el hábito sinuoso
del tolerar paciente,
difiere frágiles derechos,
ofrece minas, socavones, grutas:
oscuridad apenas para apartar
          vagos errores-

El clamor, letra a letra,
del discurso agorero
no disipa ninguna duda;
hace mucho que sabes:
          ninguna duda te protege.


PENITENCIA

¿Mirar atrás será pasar
a ser de sal precaria estatua,
un perecer petrificado
preso en sí mismo, parte
del roto encanto de un paisaje
cuya música no logro más oír?

¿Debo matar lo que miré,
el mito que minuciosa
pliego y despliego,
grava para mi paso solo?
¿ Ciega borrar lugares,
playas, vientos, el tiempo?

Sobre todas las cosas,
anular horas que se han vuelto inútiles
como lluvia que cae
sobre el mar implacable,
como mis propios pasos
si no son penitencia.


AGRADECIMIENTO

Agradezco a mi patria sus errores,
los cometidos, los que se ven venir,
ciegos, activos a su blanco de luto.
Agradezco el vendaval contrario,
el semiolvido, la espinosa frontera de argucias,
la falaz negación de gesto oculto.
Sí, gracias, muchas gracias
por haberme llevado a caminar
para que la cicuta haga su efecto
y ya no duela cuando muerde
el metafísico animal de la ausencia


2. BLANCA VARELA

Blanca Varela nasceu em Lima em 1926. Estudou letras na Universidade San Marcos, de Lima, onde conheceu outros criadores e artistas: Sebastián Salazar Bondy, Javier Sologuren, Jorge Eduardo Eielson, Francisco Bendezú e aquele que seria seu marido, o pintor Fernando de Szyszlo.

A partir de 1949, viverá alguns anos em Paris, onde estará em contato com Octavio Paz e com os intelectuais franceses de então, Sartre e Simone de Beauvoir entre eles. A tradução e o jornalismo serão seu ganha-pão durante um período em Florença e em Washington (de 1957 a 1960). De volta ao Peru, será secretaria do centro local do Pen Club e representará até 1997 a editora mexicana Fondo de Cultura Econômica.

Eu gosto disto que diz Octavio Paz da poesia de Varela: “Blanca Varela es una poeta que no se complace con su canto. Con el instinto del verdadero poeta, sabe callarse a tiempo. Su poesía no explica ni razona. Tampoco es una confidencia. Es un signo, un conjuro frente, contra y hacia el mundo, una piedra negra tatuada por el fuego y la sal, el amor, el tiempo y la soledad. Y, también, una exploración de la propia conciencia".

Era tudo que eu queria dizer, só que já está belamente dito. Acrescentaria que, se fosse um jogo, eu diria (ousaria dizer) que o centro da poesia de Varela está na “patita de cangrejo” (patinha de caranguejo) do poema “Monsieur Monod No Sabe Cantar”. É nesse grão de sal existencialista (e daí o interesse das informações sobre suas amizades em Paris) que se pode começar a sentir o sabor desta poesia.

De resto, concordo com essa parte de silêncio que Paz atribui a Varela. Poderia atribuí-la a toda boa poesia. As estéticas loquazes não são impossíveis, existem, mas são de construção difícil e de digestão muito lenta. Saber calar é tão importante quanto saber dizer. Varela sabe ambas coisas. E ela jamais é autobiográfica nem faz confidências, efetivamente, o que é uma prova de sabedoria poética.

“Polvo seré mas polvo enamorado”, dizia o soneto de Quevedo. E Varela transformaria o verso clássico em: “porque ácido ribonucleico somos/ pero ácido ribonucleico enamorado siempre”. Por falar de amor, eu conheci a poesia de Varela numa antologia –há anos- e foi um deslumbramento. Lembro que ela trazia os três poemas que coloquei aqui: “Canto Villano”, “Curriculum Vitae” e “Monsieur Monod...”. E me senti transformado. Saiba o leitor de antemão que não se lê Varela impunemente.


CANTO VILLANO

y de pronto la vida
en mi plato de pobre
un magro trozo de celeste cerdo
aquí en mi plato

observarme
observarte
o matar una mosca sin malicia
aniquilar la luz
o hacerla

hacerla
como quien abre los ojos y elige
un cielo rebosante
en el plato vacío

rubens cebollas lágrimas
más rubens más cebollas
más lágrimas

1 - Peter Sloterdijk

 
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