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dossiê
LITERATURA

O interior como fortaleza
Por Christina Stephano de Queiroz

O chinês Gao Xingjian defende que os escritores devem se dissociar de causas políticas e atuar como vozes da "consciência humana"

Até onde vai o papel dos intelectuais e artistas no que diz respeito a interferências práticas na realidade social e política? Para o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, os escritores devem fazer literatura associada a uma causa _conforme defendeu em palestra proferida no final do ano passado em Barcelona, durante o festival Kosmopolis.

De outro lado, está o chinês Gao Xingjian, que também participou do evento. Para ele, o autêntico escritor deve trabalhar livre de interesses políticos e encarar a literatura como "forma de contemplação interna".

Ganhador do Prêmio Nobel em 2000, Xingjian, que vive há 20 anos em Paris, assegurou, durante entrevista coletiva, que, na arte, é necessário sacrificar a ideologia, pois caso contrário o escritor ficará a mercê dela. Ele classifica como "desgraça" quando o intelectual orienta o trabalho movido por causas exteriores à literatura, cujo papel fundamental, na sua opinião, é atuar como "voz da consciência humana".

Nascido em Ganzhou, China, em 1940, Xingjian é novelista, dramaturgo, diretor teatral, tradutor e artista plástico, autor, entre outros livros, de "A Montanha da Alma" (ed. Alfaguara). Foi educado por sua mãe, que era atriz, e, durante a Revolução Cultural chinesa, trabalhou no campo durante quase dez anos. Ele contou que, por causa de seus escritos, o governo chinês o acusou de “contaminador espiritual”.

Por isso, em 1988 exilou-se na França. Hoje, disse, se sente cidadão francês. “A França é um país que acolhe bastante bem aos imigrantes, tem uma história de mais de cem anos de receber artistas refugiados de todo o mundo. Eu confio na história recente”, declarou o escritor.

Na China, tudo que escreve é censurado, e seu nome foi apagado da lista de ganhadores do Prêmio Nobel. Ele lembra que, neste ano, muitos foram seduzidos pela beleza dos jogos olímpicos, mas que não se pode esquecer que "os fogos de artifício são algo passageiro, enquanto a vida é permanente". E que "uma festa nunca pode explicar a verdade de um lugar, pois é algo efêmero".

O artista classificou como utopia a idéia de que os intelectuais podem mudar o mundo. “Como o escritor pode mudar o mundo? Seu papel é justamente falar do que não falam os políticos”, argumentou. Na sua visão, o regime democrático tem a capacidade de tolerar opiniões diferentes e, por isso mesmo, necessita da escrita política. No entanto, a autêntica literatura é livre de ideologias e o papel do intelectual deve ser outro. Este precisa "expressar-se com sua própria voz e, assim, analisar as diferentes dificuldades do homem". "Sua função fundamental é ser a voz da consciência na sociedade, testemunhar a condição humana e a complexidade da existência."

Xingjian acredita que o século 20 foi caracterizado pela literatura política, como se ela fosse algo obrigatório. “Mas um homem sozinho não pode fazer política, que é algo coletivo. Então, ou se sacrifica a ideologia, ou o indivíduo ficará a serviço dela”, analisou. Ele aludiu à imagem criada por Miguel de Cervantes, de um homem lutando contra moinhos de vento, como retrato do intelectual da nossa época. “Não somos super-homens, e o escritor deve ser consciente de sua verdade pessoal”, reiterou.

Para o escritor chinês, a condição humana em sociedade não mudou muito em essência ao longo dos séculos. “O testemunho da consciência humana é mais eterno do que a história escrita pelo poder. Por esse motivo, as pessoas ainda lêem William Shakespeare e a mitologia grega, por exemplo, que resistem ao tempo justamente por seu caráter humano. Por outro lado, ninguém se interessa pela história política, além dos historiadores”, completou.


Publicado em 16/1/2009

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz mestrado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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