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Se o desejo curatorial (ou da artista?) era ter uma peça onipresente, com função de integrar os demais trabalhos de modo “orgânico”, não seria o caso de se pensar em desenho capaz de estabelecer um contato mais produtivo, investindo em vazios e encontros? Ou mesmo que Gabriel Sierra desempenhasse diálogo efetivo –isto é, dialogismo, trocas, em que ambos se deixam contaminar– com cada artista? Pois é inevitável a impressão de que a conversa se estabeleceu mais entre Sierra e a curadoria do que entre Sierra e os artistas por ele servidos. O que a princípio apontaria para uma fina afinação entre as demandas curatoriais e as poéticas propostas pelos artistas, converte-se literalmente em uma gigantesca instalação a estender-se por todo o terceiro andar.

Como argumentei acima, vejo como extremamente instigante e positiva a transparência do gesto curatorial –traço de uma conquista importante, a se desenvolver desde a 27ª Bienal; mas, ao literalizar-se de modo excessivamente veemente, provoca a retração das poéticas em jogo, produzidas a partir da singularidade das obras: há homogeneização de um conjunto de diferenças que deveria ser potencializada para que a exposição tenha a força de um impacto sensorial necessário.

Nesse conjunto, os trabalhos que se lançam para fora do espaço acabam por funcionar de maneira importante, ao levar o visitante para além daquela arquitetura unificadora –como o “Extensor”, de João Modé, que estabelece ligação direta entre uma coluna do pavilhão e árvores do parque do Ibirapuera. Do mesmo modo, todas as obras que se localizam em outros espaços do prédio conseguem construir uma presença mais interessante e mais clara (Rubens Mano, Carla Zaccagnini, Alex Pillis etc.), funcionando com certa indepedência do projeto curatorial –e, nesse sentido, reforçando-o de maneira mais efetiva e menos literal.

E torna-se especialmente significativa a programação de eventos e o “jornal 28b”: também aí parece que o projeto curatorial se efetiva de fato, ao viabilizar ações que apontam para diferentes direções e multiplicam vozes, em interessante polifonia –torna-se de fato um instante de alegria verificar que das últimas páginas do “jornal 28b” saltam notícias de âmbito cotidiano (eleições brasileira, norte-americanas, crimes, esportes); subitamente o mundo real aparece lado a lado com as questões e provocações trazidas pelo evento.

Ainda uma última pergunta: por que a presença tão pregnante de obras já bastante conhecidas de certos artistas emblemáticos, como Sophie Calle e Allan McCollum (assim como Carsten Höller)? Há aí certo didatismo que poderia ser evitado, uma vez que é na produção de obras novas, concebidas especialmente para o evento, que este se faz mais agudo e provocador.

Quanto à temática do "vazio", tão necessária à construção desta "parada reflexiva" –pois se vislumbram frestas, áreas de escape, linhas de fuga, configurando afinal outro fluxo de energias para o atual evento, apontando para necessárias mudanças de organização e gestão–, vejo aí também um gesto que poderia se efetivar de modo menos literal, não-ilustrativo: expor o segundo andar na crueza de sua arquitetura é um gesto que produz forte impressão e impacto; mas, à medida que esta imagem se dissipa, percebe-se que foi oferecido ao público sobretudo o emblema de uma arquitetura modernista cheia de promessas idealizadas e utópicas, pouco a pouco desconstruídas por intervenções críticas que repolitizaram, sobretudo a partir da metade final do século XX, tais premissas enquanto resistência não-asséptica, híbrida e múltipla.

O vazio real pós-utópico deixa de se posicionar como emblema ou bandeira de luta, para revelar-se nas membranas de contato, no espaço entre locais diferentes, em conflito e choque. Nesse sentido, a fotografia de Rubens Mano, exibindo o pavilhão desocupado, é mais produtiva e interessante –porque imagetica e inteligentemente mediada– do que a exibição de modo direto de sua arquitetura, gesto que parece trazer à superfície uma aura intimidatória quase hospitalar –pureza, assepsia, descontaminação, são temas que a 28ª Bienal procura deliberadamente enterrar, mas que ao mesmo tempo parece perigosamente oferecer através do esvaziamento sumário do segundo andar.

Entretanto, não tenho dúvidas de que a 28ª Bienal de São Paulo concretiza um excepcional e ousado projeto que, em continuidade com a edição anterior, vai aos poucos recuperando a credibilidade do evento enquanto plataforma de investigação e experimentação: a fórmula “em vivo contato” deveria, a partir de agora, tornar-se emblema permanente das próximas edições, no sentido de forçar que o evento se abra ao mundo real e procure, aí, produzir intervenções e provocações, buscar outros modelos e formatos.

Esta edição se propõe a produzir mudanças e avanços e é nesta direção que deve ser percebida, mesmo que, como qualquer evento de grande porte, tenha se efetivado de maneira desigual na materialização de suas propostas. Se há uma forte reação negativa, isto também deve ser celebrado, uma vez que, quando o contato é vivo, a vaia é viva: quando não se produz qualquer reação, algo está em repouso ou sob forte anestesia –é preciso festejar que as coisas estejam em movimento.


Publicado em 24/11/2008

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Ricardo Basbaum
É artista, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Expõe regularmente desde 1981. Participou da 25ª Bienal de São Paulo (2002), documenta 12 (2007) e 7ª Bienal de Xangai (2008). É autor de "Além da Pureza Visual" (Zouk, 2007) e professor-adjunto do Instituto de Artes UERJ.

 
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