1
três palavras

Marcos Siscar

1. Palavra

Tenho gosto por palavras gastas. A palavra “palavra”, por exemplo. “Palavra” é uma palavra gasta, se distingue da palavra rara ou da palavra exata, como preferem filósofos e poetas. Uma palavra gasta, para um poeta, é aquela que o uso tornou impróprio, que a convenção da língua destituiu de sua aderência material. Para um filósofo, parece gasta a palavra que perdeu a agudeza conceitual, que se tornou refém de interpretações vagas.

Normalmente, uma palavra gasta soa abstrata e tem uso corrente. Palavras gastas são traiçoeiras, como a corrente de um rio. Significam sempre mais do que se pode saber delas e, de tanto significar coisas desconexas, nos ameaçam com seu bojo. Com a palavra “palavra” acontece isso. Assim, para resistir (“resistência” é outra palavra gasta) à força da palavra é preciso usar subterfúgios.

As palavras gastas provocam uma sensação de enfado ou de náusea, que se sente como uma onda de calor que vai do esôfago até o estômago. Quando o calor desce é de enfado; quando sobe, é de náusea. Palavras gastas são palavras que artistas evitam, sob alegação de que não são únicas. Digo que não é recomendável querer se livrar de vez das palavras gastas, como não é recomendável se livrar da língua. Para os apressados, elas caem como espinhos de peixe. Mal nos damos conta e elas travam no percurso da garganta.


2. Interior

Desconfio que as palavras gastas são a porta de entrada para algo que não tem dentro, por não ter fundo. Pensando na trajetória de uma palavra gasta, refaço o caminho onde encontrei soluções ilusórias para problemas reais. Faço a genealogia dos erros que me constituem, antigos prazeres que hoje me parecem uma hierarquia de palavras. Refaço o percurso da garganta, no que ela tem de áspero.

A palavra “interior” é uma palavra gasta. Não gostava dela. Quando eu não sabia nadar, a palavra é que boiava. Ao mergulhar na palavra gasta, preciso ir até o fim, e talvez não saia dela, porque foi ali que comecei a entender o que é sair. Se a porta da saída fica no interior, prefiro correr o risco.

Também tenho meus pequenos fetiches, é claro. Às vezes, grandes fetiches. Palavras muito materiais para mim, e mágicas, que soam como para mais ninguém. Por exemplo, “carrapicho”, “pimenteira”, “pietà”. Quando chego perto delas, preciso esquecer que no fundo também já foram palavras gastas, quase por definição, pelo simples fato de já terem sido usadas. Em dias de muita dúvida, fecho a chave os dicionários e não ando descalço; só piso em terra firme.

Mas não quero transformar a recusa do que é gasto, consumido, corroído, em álibi para que me economize. Percebo em mim a ferrugem da palavra gasta e preciso dela, de seu desgaste. Entendo o interesse da “preciosidade” (outra palavra gasta), a exceção daquilo que foi gasto. Entendo a necessidade do brilho, a necessidade de polir. Mas constato também o seu poder de mistificação. Por isso, prefiro começar pelo incômodo concreto, pelo concreto conflito da ferrugem. Daquilo que foi consumido pelo fogo da ferrugem. Pego a palavra gasta com as mãos e percebo que sua lisura é rugosa, oxidada.

Passo as mãos na palavra oxidada, muitas vezes. O gesto é de polimento, mas me machuco. O esfolamento me interessa. Esfolar é polir o interior. O interior da palavra volta.


3. Herança

Palavras são gastas porque outros a usaram. Estão nas roupas de inverno doadas a asilos, nos livros riscados de bibliotecas, no lixo dos condomínios. Na palavra gasta reconheço a “história” (mais uma palavra gasta) dos outros, seus gritos de cólera, suas tramas puídas, seus cuidados e obsessões, impasses de gosto e de pensamento. No vazio em que me deixam, nesta sensação de vertigem e desamparo, sinto que não estou só.

Palavras gastas não são palavras “recicladas” (reciclar é uma falsa palavra rara: é o eufemismo de uma palavra exata). Palavras gastas não podem ser consumidas. Quero dizer, consumidas de novo, como se fossem novas. Na palavra gasta fica sempre o traço do uso do outro. Não são palavras com polidez e brilho. Uma palavra gasta é algo que se esfrega, que se leva aos limites, até brotar um osso. Se é que a medula já não virou ferrugem.

A publicidade detesta palavras gastas, que palavras pareçam gastas. A publicidade dá lustro. Me pergunto se algum dia existiu uma palavra verdadeiramente nova.

Em outras palavras (igualmente gastas), uma palavra gasta é aquela que se recebe como “herança”. Como o barco enferrujado que tenho no quintal. Cada palavra carrega atrás de si uma avalanche de contextos, de vidas, de razões. Quero que minha passagem pela palavra seja hábil o suficiente para que me reconheça nela, e para que não me afunde nela. Que não nos afundemos todos.


Publicado em 24/11/2008

.

Marcos Siscar
É poeta, tradutor e professor de literatura na Unesp, em São José do Rio Preto. É autor, entre outros, de "Metade da Arte" (ed. Cosac Naify) e "O Roubo do Silêncio" (ed. 7Letras).

 
1