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dossiê
LITERATURA EM AÇÃO

O grande teste americano
Por Christina Stephano de Queiroz

O escritor Paul Auster diz que eleições presidenciais nos Estados Unidos vão medir o grau de racismo do país

Defensor aberto de Barack Obama, o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, o escritor americano Paul Auster acredita que o resultado das eleições no país vai medir o grau de racismo de sua população. "Se Obama perder as eleições, será apenas por uma razão: porque é negro", diz.

Para Auster, os EUA vivem hoje uma espécie de guerra civil. "Não falo de batalhas com armas e balas, mas sim com idéias e palavras. Quero dizer que há pouca base compartilhada entre as pessoas", afirma na entrevista a seguir, concedida a jornalistas espanhóis, com a participação de Trópico, em Barcelona, onde o escritor lançou seu novo livro, "Homem no Escuro".

O tema da "guerra civil" americana, aliás, já comparece neste livro, nas elucubrações de um crítico literário, August Brill, acometido por uma insônia incurável. "Homem no Escuro" foi publicado neste ano no Brasil, pela Companhia das Letras.

Considerado um dos principais escritores contemporâneos, Auster, 61, é autor de mais de uma dezena de livros, entre eles "Trilogia de Nova York" e "Leviatã". Também fez alguns roteiros para o cinema, inclusive do filme "A Vida Interior de Martin Frost" (2006), que ele também dirigiu.

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Como é o seu processo de criação?

Paul Auster: Minha mente trabalha de forma associativa, é como uma enorme mesa de bilhar. Assim, da mesma forma que uma bola bate na outra para chegar ao buraco, as imagens que surgem na minha cabeça conduzem a outras.

Meu estilo de escrever reflete minha maneira de pensar e de viver. E a verdade é que nunca fui testemunha dos partos das minhas idéias: em um momento está o nada e, um segundo depois, surge a idéia. Algo ocorre no cérebro, está claro, mas eu não sou consciente desse momento.

No caso desta última obra, “Homem no Escuro”, também não sei explicar exatamente como a comecei. Um dia, imaginei August Brill, o protagonista, mas desconheço de onde surgiu essa imagem. O personagem se fez presente na minha mente e, aos poucos, entrei em sua pele.


O seu personagem tem uma grave insônia. O sr. costuma dormir bem?

Auster: Em geral, sim. Mas é claro que, como todos, tenho minhas noites ruins. E, nesses momentos de insônia, o cérebro se concentra na parte negativa da vida. Acho que isso ocorre devido à escuridão da noite. Nessas noites em branco, costumo pensar em coisas que me causam, depois, arrependimento, e também na futilidade da vida.

O protagonista do novo livro passa por isso. Iniciei muitas das minhas obras com personagens em estado de crise, o que lhes leva a buscar formas diferentes de vida, para seguir existindo. Assim, os personagens têm de se reinventar, explorar novos caminhos e encontrar outras motivações para estruturar seu cotidiano.


Em quem o sr. pretende votar nas eleições presidenciais americanas?

Auster: Em Barack Obama. Nas primárias também votei nele. É uma pessoa de inteligência aguda, reflexiva, que sabe manter a calma em situações de forte pressão. Diferentemente de John McCain, que costuma agir antes de pensar, Obama sempre mantém a compostura e não dá passos em falso, mesmo nas horas de mais tensão.

Tanto nos Estados Unidos como na Europa estamos fascinados pelo candidato democrata. Mas eu acho que os europeus não são conscientes da pressão colossal que há em cima dele. Vivemos com o legado da escravidão, e Obama é o primeiro candidato negro à presidência. Por isso, se for eleito, não lhe será permitido cometer nenhum erro.

De outro lado, se Obama perder as eleições, será apenas por uma razão: porque é negro. Se ele fosse branco, certamente ganharia, já que os norte-americanos jamais escolheriam um candidato do mesmo partido de George W. Bush, depois do fiasco que foi o seu governo. Porém, como é negro, não se sabe se vai ganhar. Eu não estou seguro do que vai ocorrer, pois não sei medir até onde chega o racismo nos Estados Unidos.

O país abriga comunidades muito diferentes, mas somente a africana veio da escravidão, o que não ocorre com os hispânicos, por exemplo, que possuem culturas bastante diversas e a única coisa que têm em comum é o fato de que falam a mesma língua. Já os asiáticos são mais facilmente assimilados e conseguem melhores cargos e salários.

Acredito que os Estados Unidos é um país dividido e hoje presencia uma espécie de guerra civil. Não falo de batalhas com armas e balas, mas sim com idéias e palavras. Quero dizer que há pouca base compartilhada entre as pessoas.

Li por esses dias, no jornal espanhol “La Vanguardia”, uma matéria que falava sobre isso. O artigo dizia que 44% dos norte-americanos não acredita na teoria da evolução de Darwin. E essa divisão afeta todos os temas relacionados com o país, de forma que, assim, é impossível que as pessoas dialoguem. Como eu posso manter conversas com gente que não tem nada em comum comigo?


A escuridão, em seu novo livro, é uma metáfora desse problema?

Auster: Eu não acredito em símbolos na literatura. No livro, me preocupei em desenvolver o caráter dos personagens, em particular do protagonista, e não em discutir a situação dos Estados Unidos. Quis mostrar que cada pessoa tem uma maneira de se expressar, e Brill, por exemplo, demonstra sentimentos por meio dos gestos.

Minha idéia foi mostrar que há uma espécie muito forte de amor entre os personagens e também como se relacionam para poder se manter em pé. Nesse novo livro, em particular, acredito que meus personagens falam mais abertamente de sensações íntimas. Mas é claro que você, como leitora, pode interpretar a escuridão da forma como quiser.

A obra fala ainda sobre uma família que foi afetada pela guerra. Por isso, a dediquei ao escritor israelense David Grossman (autor de "Desvario", lançado no Brasil), um velho amigo e excelente escritor. Há dois anos, seu filho foi morto em um conflito entre Israel e Líbano, um fato que me tocou de maneira horrível. Eu conhecia o rapaz, ele adorava meus livros. Por sua vez Grossman se converteu no promotor da minha obra em Israel e, assim, o projeto virou uma espécie de ação familiar.


Que desfechos enxerga para a atual crise financeira?

Auster: Em primeiro lugar, quero deixar claro que não sou expert em economia. Porém, posso dizer que, nos últimos 30 anos, a idéia de capitalismo selvagem tomou conta dos Estados Unidos. As teorias do economista Milton Friedman (1912-2006), que acredita que o mercado deve ser livre e regulamentar-se sozinho, invadiram o pensamento das pessoas. E a crise mostra que isso está errado.

O colapso no mercado norte-americano resulta justamente da falta de regulamentação e do fato de que os governantes têm colocado em prática muitas de suas idéias ruins. Assim, o capitalismo está se auto-devorando. Se tudo continuar como está, em dois anos, todos vamos morrer de fome.


Depois de "A Vida Interior de Martin Frost", pensa em dirigir um novo filme?

Auster: No momento, estou sem idéias para filmes, e meus editores estão muito contentes com isso (risos). Porém, se me ocorresse uma idéia, tentaria levá-la a cabo. O problema é que, nos últimos 15 anos, passou a ser cada vez mais difícil conseguir financiamento nos Estados Unidos. Mesmo veteranos do cinema independente, como Wayne Wang, sofrem essa dificuldade.

O sistema de financiamento para filmes nos Estados Unidos é diferente da Europa, onde todos os pequenos países têm suporte dos seus governos. Woody Allen, por exemplo, não realiza filmes nos EUA há anos. Ultimamente, optou pela Inglaterra ou pela Espanha, assim como Jim Jarmush. Eu também recebi apoio do governo de Portugal para realizar "Martin Frost".


E quanto a adaptações de suas obras para o cinema, há algum projeto novo?

Auster: Eu não gosto de ver meus livros adaptados ao cinema. Em geral, o resultado é sempre ruim, inferior à qualidade da obra. Não consigo pensar em nenhuma boa adaptação recente de livros para a tela do cinema. Para citar alguns exemplos de más adaptações: “Amor nos Tempos do Cólera” (do inglês Mike Newell), “Eu Servi ao Rei da Inglaterra” (do tcheco Jiri Menzel) e “Expiação” (do inglês Joe Wright). Por outro lado, considero o filme “Fome” (do mexicano Manuel Gonzales Casanova). de 1966, como exemplar de uma boa adaptação.

Existia, no entanto, um projeto de um jovem diretor argentino que queria levar um livro meu para o cinema. Ele estava tão apaixonado pelo trabalho que resolvi apoiá-lo, mas o projeto entrou em colapso, pois o dinheiro para sua execução desapareceu. O diretor também contava com ajuda financeira da Espanha, que acabou por desistir da idéia por considerar o projeto muito depressivo.

O caso das histórias em quadrinhos é diferente. Acredito que as adaptações têm mais chances de saírem boas. O projeto de “Cidade de Vidro”, por exemplo, é excelente. Eu proibi os autores de adicionarem palavras, somente permiti que tirassem, se fosse o caso, de forma que cada palavra do trabalho é minha.


O que o sr. gosta no cinema sul-americano?

Auster: Hector Babenco é um diretor que admiro. Mas a realidade é que conheço bem poucos trabalhos realizados na América do Sul. Tenho mais contato com diretores mexicanos, entre eles os cineastas Alejandro Gonzales Iñárritu e Alfonso Cuarón Orozco, além do escritor e roteirista Guillermo Arriaga.

Considero esse outro problema dos Estados Unidos: não recebemos produtos culturais de diversas partes do mundo. Tampouco se traduzem muitas obras, o que também dificulta meu contato com cineastas, diretores e escritores sul-americanos, já que não falo espanhol.


Publicado em 21/10/2008

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz mestrado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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