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Ele está jogando com o leitor, sob essa possibilidade de estar sendo observado, como se tudo que contou fosse uma lenda, um mito, fosse apenas um relato, uma mentira. No entanto, ele afirma que o que contou é verdade. Mas será que para o leitor é verdade? Não se sabe. Não se sabe se a mulher está lá. Ele diz que está. Mas em algum momento, no final, acabei tirando uma página em que a mulher aparecia.


O amor aparece de forma muito diferente de seus outros livros. Esse amor quase romântico, em termos clássicos, não aparecia em seus outros trabalhos. E a paixão desesperada de Arminto parece um tanto deslocada. Esse foi outro elemento de perturbação da narrativa?

Hatoum: Foi um deles. Outro é a morte trágica, inesperada, do pai. O pai morre subitamente, e Arminto tem que assumir a empresa familiar, num momento em que não queria nem gostaria de fazê-lo. Depois, no enterro do pai, ironicamente, ele conhece a moça que, o leitor perceberá, teve uma relação com o pai. No momento da morte é que o amor aparece, que surge essa paixão.

Então a vida de Arminto é uma vida de impossibilidades, como a de Brás Cubas. Estou falando de um herdeiro que não deu certo. A frase que pincei do “Brás Cubas” é justamente essa: “Não queria um filho inútil, queria um filho que prosperasse”. Vai nesse sentido.

Como o romance realista é o romance da desilusão, é a trajetória de uma vida que não deu certo, eu quis trabalhar esse registro, de um tempo sem heróis.


Falando sobre sua região, a Amazônia, os jornais publicaram que o desmatamento foi equivalente à área do Estado do Rio de Janeiro. Há toda uma discussão sobre a internacionalização da floresta amazônica, a fim de colocá-la sob controle mundial. O que pensa disso?

Hatoum: Sou totalmente contra. Não é a única área de grande biodiversidade, não é o único grande bioma do planeta. Na Ásia e na África há ainda florestas tropicais imensas.

Essa idéia da internacionalização é muito antiga. Há um livro, "Amazônia e a Cobiça Internacional", escrito pelo primeiro interventor federal da ditadura no Amazonas, que aliás foi o governador mais letrado, mais culto, o historiador Artur César Ferreira Reis, de direita, no qual ele traça um histórico desse olhar das potências mundiais.

Não acho que seja totalmente delirante essa idéia de que alguns governos e ONGs estejam trabalhando para a internacionalização da Amazônia. Mas creio que não tem nenhum cabimento se pensar nisso hoje. Mesmo porque a Amazônia não é só brasileira. Existe Amazônia em quatro, cinco países _Equador, Peru, Bolívia, Colômbia e Venezuela.

Claro que a maior parte está no Brasil. São necessárias duas coisas: fiscalização e justiça. Porque não há justiça nesse país. O Poder Judiciário é frágil, é um poder pífio.

A Amazônia precisa ser estudada e conhecida. Esse é o grande desafio. Ser estudada, em vez de despertar bate-boca entre ministro e governador. É uma insanidade transformar a floresta em pasto e plantação de soja, uma coisa deplorável.

Isso é um erro, uma cegueira, é uma mescla perfeita de ganância com ignorância. Porque a biodiversidade da floresta é muito mais rica, traz muito mais riqueza, a médio e longo prazo, para o Brasil, do que a soja, a cana ou o boi.

Aí está um caso típico de espoliação, dessa mistura obscena, viciada, de empresário com político, como é o caso dos governadores de Mato Grosso e de Rondônia.

No caso do governador de Mato Grosso, é preciso averiguar como ele construiu essa fortuna. Hoje ele é um homem que se aproveita do Estado para plantar, exportar, abrir estradas, tudo em proveito próprio. Como se o Estado fosse sua “hacienda” paraguaia.

É burrice, não por causa da propriedade privada, mas pelo tipo de ocupação. Até para o jogo capitalista é ruim, é a pior opção. Porque, da Amazônia, você pode fazer um manejo florestal e, portanto, exportar madeira. Sou contra esse negócio de “santuário”. Já existem experiências pontuais de manejo florestal que dão certo. Se você destrói a floresta, está jogando fora a madeira que poderia explorar, além produtos para a indústria de perfume, de cosméticos, de medicamentos, de alimentos. São centenas, milhares de itens.

O governo que mais está em sintonia com o desenvolvimento sustentável é o do Acre. O governo do Jorge Viana mudou o modo de se pensar a ocupação da floresta. Ele fez um diagnóstico sério, científico e antropológico, cultural, de cada subárea do Estado.

É impressionante, eu li o documento publicado em 2006. Ele reuniu uma equipe de todas as áreas do conhecimento. E é isso que Euclides da Cunha dizia: é preciso conhecer a Amazônia primeiro. "A Amazônia é um infinito que deve ser dosado”, afirmou.

Euclides ficou tão alucinado pela viagem que fez pela região em 1905, pela grandiosidade, pela complexidade, pela exuberância, que disse que se deveria estudar a Amazônia como um tapete enorme, partes por partes. E isso não foi feito. Estão devastando a floresta sem ao menos conhecê-la.

Há ONGs piratas? Há. Sou contra essas ONGs, contra as ONGs missionárias, contra essas fronteiras que estão sendo empurradas cada vez mais para o norte. Não sei nem se a soja não chegará ao quintal da casa da minha mãe.

A repercussão climática desse desmatamento é gravíssima. Se eu fosse fazendeiro no Centro e no Sul, em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Sul, estaria preocupado. Iria às ruas protestar. Porque, se desmatarem mais 20% da floresta, não choverá mais aqui, no Sudeste, nem no Sul. Não choverá mais no norte da Argentina. Acabará a agricultura.

É uma insanidade. Não porque eu quero, como amazonense _não sou ufanista_, mas trata-se de uma questão de sobrevivência humana.


E como fica a questão indígena, no interior de todos esses problemas?

Hatoum: Acho que a questão indígena é colocada de uma forma muito maniqueísta. Li uma entrevista de um de meus antropólogos preferidos, Eduardo Viveiros de Castro, que esclarece isso. As terras não pertencem aos índios. Elas não são propriedades dos índios. Eles têm usufruto da terra. Porque as terras e o subsolo pertencem à União. É uma balela dizer que num caso, num contencioso, o Exército não pode entrar, a Polícia Federal não pode entrar. Eles entram.

Não existe isso de uma região intocável, encastelada numa área indígena. Claro, é uma área que os arrozeiros não podem entrar e explorar. São meia dúzia, e os índios são milhares e estão lá há 800 anos.

Essa idéia de uma nação indígena, separada, independente, isso de balcanizar os territórios indígenas é uma loucura. Não existe isso. Tanto não existe, que as Forças Armadas já têm uma presença na Cabeça do Cachorro, no alto Rio Negro. Viajei por toda a região de helicóptero, a presença militar é fortíssima.

O que é necessário, a meu ver, é uma presença maior do Exército em toda a fronteira amazônica, para evitar a bandidagem e qualquer tipo de ameaça.

O que o Ibama não consegue fazer é contratar mil fiscais, ter uma infra-estrutura, helicóptero, bases _tudo que é preciso para fiscalizar madeireiras. Isso não é feito. O Ibama tem poucos fiscais, paga salários baixíssimos _aí a corrupção. A Amazônia ainda é uma espécie de faroeste brasileiro.

Essa discussão do desmatamento pode acobertar uma outra, que é a miséria das cidades da Amazônia. Na minha cidade, Manaus, com o maior rio do mundo, falta água em alguns bairros. Metade de Manaus mora em favela, em palafita, e a cidade é o sexto ou sétimo PIB brasileiro.

Ou seja, voltamos aos “Filhos do Eldorado”. Que Eldorado é esse? A floresta desmata para a plantação de cana, a soja, a pecuária, mas a maioria da população permanece totalmente miserável. A riqueza da Zona Franca, onde está?


Publicado em 21/10/2008

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Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.

 
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