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dossiê
LITERATURA EM AÇÃO

Um tempo sem heróis
Por Carlos Eduardo Ortolan Miranda

O escritor Milton Hatoum fala sobre seu novo livro, "Órfãos do Eldorado", e defende que a Amazônia seja estudada, em vez de servir de objeto de bate-bocas

“A Amazônia ainda é uma espécie de faroeste brasileiro.” A afirmação grave, que revela uma sensibilidade atenta para os terríveis problemas que ainda afligem o país, de alguém que se dá conta que “o horror não é fatalidade, mas fruto da história”, não provém de nenhum sociólogo ou antropólogo, mas do escritor Milton Hatoum.

Para ele, a Amazônia precisa ser estudada e conhecida. "Esse é o grande desafio. Ser estudada, em vez de despertar bate-boca entre ministro e governador. É uma insanidade transformar a floresta em pasto e plantação de soja, uma coisa deplorável", afirma.

Nascido em 1952, em Manaus, no seio de uma família de origem árabe, ex-professor de literatura francesa, Hatoum configura um caso raro na letras contemporâneas no Brasil: detentor de três prêmios Jabuti, a obra do escritor granjeou o respeito da crítica e atingiu o sucesso editorial, com livros como "Relato de Um Certo Oriente" e "Dois Irmãos".

Traduzido em dezenas de países, tema de trabalhos acadêmicos e convidado habitual para conferências, na entrevista a seguir Milton Hatoum sobre a criação romanesca, as contradições de sua região natal e o seu novo livro, a novela “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras). "Como o romance realista é o romance da desilusão, é a trajetória de uma vida que não deu certo, eu quis trabalhar esse registro, de um tempo sem heróis", diz ele, sobre o novo livro. Produzir arte a partir do embate constante com a realidade, operar no plano da imaginação estética com base na história nacional, tal é o desafio, na melhor tradição realista, da literatura de Milton Hatoum. "O que justifica a literatura é o leitor, o bom leitor", diz ele.

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O sr. colocou de lado o romance e agora escreve uma novela. A que se deve essa mudança de gênero literário?

Milton Hatoum: Foi uma opção mais editorial do que minha. “Orfãos do Eldorado” faz parte de uma coleção de uma editora escocesa chamada Canon Gate, num projeto em que estão envolvidas mais de 30 editoras do mundo todo, autores europeus asiáticos, norte-americanos, europeus e sul-americanos, e do qual fui convidado a participar.

Mandei o projeto de um livro sobre um mito, já que a coleção se chama “Mitos”, e eles aceitaram. Quando assinei o contrato, percebi que havia uma limitação de tamanho, de 25 mil palavras, mais ou menos. Então, isso para mim foi um desafio, o de lidar com o gênero novela, que é um gênero difícil, porque o romance, embora também possua uma limitação, é sempre maleável. Pode ter 150 páginas ou pode ter 700 páginas.


O sr. já falou acerca da dificuldade da definição precisa do gênero “novela”. Não há uma fronteira muito clara. Um conto extenso pode ser definido como uma “novela”? Mesmo tecnicamente não é muito simples entender o que é uma novela.

Hatoum: Não é simples. Lukács adorava a novela, que julgava um gênero superior. Bom, eu tinha algum conhecimento teórico, lembrava alguma coisa da época em que era professor, da qual não sinto saudades, mas sobretudo eu tinha em mente algumas novelas exemplares, por assim dizer. Como as Cervantes, Tolstói, Faulkner, “O Mandarim”, de Eça de Queiroz...

Esta foi uma das dificuldades: fazer com que a narrativa, a vida das personagens, fosse interrompida, em determinado momento, por atos inesperados. O romance é uma espécie de eletroencefalograma, há momentos de tensão, de batidas, de ritmos fortes, e outros de remanso, de calmaria. Ao passo que, na novela, há um instante em que a vida da personagem dá uma guinada, uma reviravolta, e essa foi uma dificuldade, ao encarar o gênero.

A outra foi transformar o mito em realismo. Isso talvez tenha sido mais difícil que o gênero em si, pois essa questão formal é sempre maleável. Pensei na narrativa, inicialmente, como sendo a da personagem se recordando de algumas passagens da infância em que o mito adquirisse um papel central, a partir das vozes que povoaram essa infância. Depois, como esses mitos se refletiram na vida do narrador, e aí há um momento no qual, com a descrença do mito, a narrativa se torna realista, se torna literatura. Porque não me interessava nem um pouco trabalhar com a descrição do mito, o relato sobre o mito, o mito da Cidade Encantada, o mito de Eldorado.


O que seria um trabalho mais antropológico...

Hatoum: Sim. E li alguns textos dessa coleção, achei que muitos iam nessa direção. Mas eu queria, de novo, trabalhar com o drama familiar, com o fundo histórico, mas que tivesse centrado na questão do mito. Esse foi o grande desafio.


Seus romances podem se inscrever numa tradição do realismo mais clássico, que é algo que não está muito em voga na literatura brasileira e costuma ser praticado apenas por autores mais antigos, como Autran Dourado. Em várias entrevistas, o sr. se definiu como um “flaubertiano”, tanto pela preocupação com a precisão vocabular, quanto pela idéia de escrever um grande romance realista. Nesse sentido, seus romances seriam uma espécie de "Comédia Humana" da região amazônica, com essa combinação dialética de um passado opulento e um presente degradado?

Hatoum: Concordo, mas como jamais escreverei metade dos romances de Balzac, diria que, nesse sentido, é uma perspectiva mais flaubertiana mesmo, de escrever pouco.

Flaubert não teria existido sem Balzac. Muitos romances de Flaubert, do ponto de vista temático, são balzaquianos. Flaubert depurou muito a linguagem, tirando todos os excessos, as repetições, as explicações, porque o romance não pede explicação nenhuma. Flaubert limpou completamente essa interferência de um narrador explicando certas situações.

Acho essa observação muito pertinente. Quis fazer nesses quatro livros esse diálogo tenso entre o passado e o presente, entre uma região que teve seu momento de fausto, de luxo e de luxúria, mas também de miséria ao lado dessa luxúria _e contar como esse passado ecoa no presente, como ele reverbera na atualidade. Tudo isso em diálogo, também, com o Sudeste, um pouco como “Dois Irmãos” opera e também “Cinzas do Norte”, essa errância até mesmo para fora do país, pois não há mais lugar para um artista, naquele momento, morar no Brasil.

“Relato” é um pouco diferente, é uma narrativa mais poética, mais lírica, que enfatiza muito o "récit de mémoire", como dizem os franceses.

No caso do “Orfãos”, há essa dialética que você citou, um pouco na relação entre o mito e a história, entre a Amazônia e o que está no exterior, a guerra, a decadência de Manaus, por causa da borracha plantada na Ásia, esses horrores que não são fatalidades, são frutos da História.

Nesse sentido, acho que são obras realistas. Mas “Grande Sertão:Veredas” é um romance realista, a meu ver. Então, há aí uma tradição, de Graciliano Ramos, de Autran Dourado, do grande romance brasileiro, que é uma tradição realista. E do romance europeu também, como Günter Grass, como Céline, ou do romance americano, do romance francês, toda uma longa tradição do romance realista, na qual busco me inserir.


Seus livros são muito incensados pela crítica. O sr. crê que seus livros têm sido favoravelmente recebidos por serem obras realistas no sentido clássico?

Hatoum: Acho que sim, mas não apenas isso. Ou não exatamente. O que está em jogo, também, é a possibilidade da recuperação da capacidade de inventar histórias, tramas. E claro que literatura não é só isso.

Pode ser isso, também. Geralmente é isso, mas creio que há aí uma preocupação formal com a própria estrutura do romance. Então conheço vários ensaios de professores que trabalham “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte” em sala de aula para falar de romance como gênero, como um exemplo de romance brasileiro contemporâneo.

Outra coisa que é muito recorrente em dissertações, teses, é a questão desse narrador deslocado. Os narradores de todos os meus livros não têm um lugar muito certo, seu lugar social e simbólico é frágil, estranho na narrativa. São aspectos que geralmente são abordados na leitura de meus livros, e em alguns trabalhos comparativistas, com outros escritores.

Fico contente em saber que há tantos trabalhos a meu respeito, esse é o melhor dos mundos, como dizia Conrad, que sonhava em vender muitos livros, em ter um grande público leitor. Lembro-me de uma carta de Conrad _cuja correspondência é fascinante_, dirigida ao seu agente, em que ele diz que no próximo livro, que é “O Coração das Trevas”, certamente iria encontrar o grande público que ele merecia.


E só conseguiu encontrar no cinema, através de “Apocalypse Now”.

Hatoum: Pois é, mas ele era reconhecido pela crítica. Só que, para os padrões da Inglaterra, ele não tinha um público leitor muito grande. Ironicamente, esse público veio com uma novela chamada “Chance”. Aí, de fato, Conrad encontrou um grande público. Mas, para o escritor, é interessante ter um leitor crítico, ou uma leitura crítica, e ter também um público leitor. Eu não gostaria de escrever para ninguém, para meia dúzia de pessoas.

O que justifica a literatura é o leitor, o bom leitor. Claro que tudo foi muito além das minhas expectativas, com “Dois Irmãos”, sobretudo, um livro que está na lista de vestibulares do Rio Grande do Sul, de Goiás, é lido em todo o Brasil _para o padrão brasileiro ultrapassou até a expectativa da editora.


“Órfãos do Eldorado” atinge muitos registros. É escrito num estilo mais seco que seus outros livros e apresenta esse apelo aos mitos amazônicos, que não aparecia tão fortemente em sua obra. Arminto, o narrador, é um personagem trágico. Há algo da “desfaçatez de classe” machadiana em Arminto? Ele é uma espécie de Brás Cubas manauara?

Hatoum: Há no livro uma citação de “Memórias Póstumas” que só John Gledson viu. Ele percebeu que o livro que o Arminto lê à noite, no barco, quando está indo para Manaus, é “Memórias Póstumas”, com frases que eu usei livremente.

É exatamente isso. Desse ponto de vista, de algum modo, é uma releitura, estou me aproveitando, me inspirando no Machado, de novo. Depois de “Dois Irmãos”, com influência de “Esaú e Jacó”, tentei de novo estabelecer algum diálogo com Machado. Os grandes escritores servem para isso, para a gente usar e abusar do talento deles. É uma total desfaçatez de classe, mas misturada com amor. Há uma paixão que de fato complica a situação dele.


Já que Brás Cubas é incapaz de amar...

Hatoum: Sim, as personagens de Machado, especialmente as masculinas, na maioria, são incapazes de amar.


Há também em Arminto algo de Riobaldo, desse narrador que conta uma história imensa para um ouvinte imaginário, que pode ser esse letrado do Sudeste, e que é capaz de frases notáveis, como “a gente quer entender as pessoas e só encontra o silêncio”, ecoando a questão da incomunicabilidade, tão presente na arte moderna, de Beckett a Antonioni.

Hatoum: Esse é um dos temas do livro. A moça não fala, e está claro que não é uma surda-muda. O tema da incomunicabilidade está presente o tempo todo, dessa incompreensão que está disseminada por toda parte, do pai com o filho, do amigo do pai em relação ao filho, dos dois amantes, e dele mesmo na sociedade, dele e o tecido social.

Você falou em Beckett, a cena em que Arminto conversa com o japonês, é uma alusão, os dois falam muito e ninguém entende nada, os dois concordam sem entender nada, algo como “Esperando Godot”. Eu viajo muito nesses autores. Algumas viagens são conscientes. Essa do Beckett foi, a do Brás Cubas também, há uma referência a Camões, tem muita coisa escondida.


Em outra bela fala, Arminto diz que “foi um alívio expulsar esse fogo da alma”. Que é como enfrentar essa impossibilidade de comunicação. A incomunicabilidade é um fogo da alma, que pode ser expulso pela literatura. Daí essa longa fala, desse louco, ter algo de Riobaldo.

Hatoum:Sim. Esse modelo do “Grande Sertão” e do “Coração das Trevas” está por trás do livro, e algumas pessoas apontaram isso. De Riobaldo e de Marlow, Arminto tem elementos de tudo isso.


A pergunta final de Armindo Cordovil ao seu ouvinte imaginário é acerca da veracidade do relato. Temos aí novamente a questão espinhosa da narrativa realista e do substrato mítico, legendário. O final também não se abre.

Hatoum: Não. O final deixa em suspenso uma série de coisas. Isso tem a ver com a novela e também com esse jogo de que o leitor participa, entre a realidade e a mentira, que está no fundo da idéia realista, o romance como a impressão de algo que pode ter existido, como se tivesse existido.

 
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