1
dossiê
LITERATURA EM AÇÃO

A exigência suprema
Por Carlos Adriano

Augusto de Campos recria o enigma “fundoformal" de Emily Dickinson nas 45 traduções de "Não Sou Ninguém”

Emily Dickinson publicou apenas dez poemas em sua vida (1830-1886). Mas sua obra completa, só conhecida postumamente, monta a 1.789 poemas. Tal paradoxo é a medida de suas recusas, o mínimo denominador incomum da exigência da “ur-Cinderela” da poesia moderna.

Se a poesia é a arte da exigência suprema e o paradigma da excelência (pelo puro valor do duro lavor; pela carga de conhecimento e experiência que sua fatura demanda), então a poesia é a arte de negação e resistência mais radical aos tempos em que tudo está à venda, em que o mercado da ganância programada é a ágora da sociedade do espetáculo (e dos poetas mortos).

Assim, a atitude desta poeta americana é mais do que anacrônica, é extemporânea mesmo, no sentido de ser mais do que “fora do tempo, da moda, do uso”, e ser sim “inoportuna”, “imprópria da ocasião em que se faz ou sucede”. Emily escreveu num poema de 1863 que publicar era por em leilão a alma humana. Ou, num poema de 1861, que nomear a fama pública era gesto para o aplauso da lama.

Portanto, nada mais longe de sua profissão de fé do que os "streams" exibicionistas de vãs vaidades e escancaradas privacidades que baixam na televisão ou se extremam na internet. O culto ao ego não consegue disfarçar o vazio do eu; e a banalização da vida é consumida sem piedade e com apelação na vala comum dessa época de céleres e descartáveis celebridades. “Mercar, sim – o que emana / Do Celeste Endereço – / Sem reduzir a Alma Humana / À Desgraça do Preço –”, disse num poema de 1863.

Um livro recém-lançado no Brasil, de pouco mais de cem páginas, com 45 poemas, funciona como um antídoto ético à desolação dessa terra de todo mundo devastada; antídoto que não renuncia à elevação espiritual e à beleza estética, e é justamente um livro sobre Emily Dickinson, a poeta que se abdicou de si. Trata-se de “Emily Dickinson: Não Sou Ninguém”, de Augusto de Campos (editora da Unicamp).

O poeta brasileiro (São Paulo, 1931), um dos artífices da poesia concreta e um dos cultores da tradução-arte, já apresentara ao leitor de língua portuguesa dez traduções no livro “O Anticrítico” (1986), em ensaio cujo título enseja o projeto poético da extravagante e singular autora: “Emily: O Difícil Anonimato”. Vinte e dois anos depois, são 45 poemas traduzidos, e para cá trazidos, pois, nesta terra, noigandres ainda viceja: “Algumas Borboletas há / Nos Campos do Brasil”, como Emily escreveu no poema 16 (c. 1862).

Augusto aponta que a ideologia da poeta do recato rima com o tratado da fama póstuma do Fernando Pessoa de “Erostrato”. Noto que o destino dela não é estranho ao desatino de Sousândrade, que anteviu reconhecimento apenas meio século depois. A primeira edição completa de Emily, feita por Thomas H. Johnson, saiu em 1955, com 1.775 poemas e suas variantes. A de R. W. Franklin (que publicou os fac-símiles “The Manuscript Books”, 1981, e “The Master Letters”, 1986) saiu em 1999, com 1.789 poemas.

E, por falar em intervalos de 50 anos, é curioso mencionar neste contexto o primeiro poema de "Não" (2003), o último livro lançado por Augusto de Campos até o momento com sua produção de poesia coligida. O poema situa-se após o prefácio ("Nãofácio") e antes da primeira seção "Não" (à qual seguem "Ão", "Ar", "Pro", "In", "Ex"). Com título em grego, o enigma do poema vai da datação "1953-2003" à decifração de leitura, pois, no limite do olho, é traço de inscrição em que a palavra homérica enuncia-se: "ninguém". Augusto conta que, em 1862, Emily enviou quatro poemas ao crítico do "Atlantic Monthly", Thomas Higginson, que não conseguiu enquadrá-la nos cânones e, embora percebesse sua originalidade, desencorajou a poeta a publicar, ao que ela respondeu: “Sorrio quando você sugere que eu protele a ‘publicação’ –o que está tão longe de meus projetos como o firmamento dos dedos. Se eu conhecesse a fama, eu não poderia fugir a ela; se não a conhecesse, ela me perseguiria o dia inteiro e eu perderia a aprovação de meu cachorro”.

Marianne Moore foi uma das seletas leitoras, que não hesitou em se encantar com o “rigoroso esplendor” da poesia de Emily. Um enigma que alimenta e persevera (“O Enigma decifrado / Despreza-se com pressa – / A Surpresa de Ontem / Já não nos interessa –”, poema 38, c. 1870). Na "Introdução", Augusto analisa a textura de elipse e densidade da poeta, plena de maiúsculas e pontuações heterodoxas, “com Táticas de Gema – / Praticando Areia” (poema 12, c. 1862) ou em que “a Geometria é a maior Magia” (poema 33, c. 1870).

Para o tradutor, “cruzam-se em sua poesia os traços de um panteísmo espiritualizado, de uma solidão-solitude, ora serena ora desesperada, e de uma visão abismal do universo e do ser humano”. “Micro e macrocosmo compactados em aforismos poéticos”, “do cONcRETo ao eTERNO”, nas formulações capsulares e anagramáticas de Augusto de Campos sobre a “ur-Cinderela” da poesia moderna (como a chamou o poeta e crítico John Crowe Ranson no ensaio “Emily Dickinson: A Poet Restored”, 1956).

É a visão de uma poeta que sente “um Féretro em meu Cérebro” (tradução para “a Funeral, in my Brain”, poema 10, c. 1861), que busca salvo-conduto na auto-abdicação (“Banir a Mim – de Mim – / Fosse eu Capaz – / Fortim inacessível / Ao Eu Audaz –”, poema 19, c. 1862) ou que vê alegoria da vida num jardim (“O Abrir e o Fechar / Do Ser é igual e / Desigual, se o for, / À Flor no Caule. // Que de mesma Semente / Vão, em igual Botão, Paralelos, perfeitos / No que já não são.” (poema 31, c 1865).

“Mistura de puritana e livre-pensadora” (na expressão de Conrad Aiken, autor de um pioneiro artigo, de 1924, em que reconhecia a independência poética de Emily), armou um quase epitáfio: “Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo / Meu Corpo foi fechado, / Um outro Morto foi depositado / Num Túmulo contíguo – // ‘Por que morreu?’ murmurou sua voz. / ‘Pela Beleza’ – retruquei – / ‘Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós / Somos Irmãos. É uma só lei’ –” (poema 14 c. 1862).

Examinando as idiossincrasias gráfico-sintáticas de Emily e a conseqüente querela sobre a questão entre os estudiosos da obra, Augusto chama a atenção para a edição de “Open Me Carefully”. Todas as cartas de paixão platônica que Emily Dickinson enviou a Susan Huttington Dickinson, primeiro amiga e depois cunhada, foram organizadas por Ellen Louise Hart e Martha Nell Smith em 1998, com a transcrição literal que reproduz a feição gráfica dos manuscritos, “com seus cortes inusitados, determinados às vezes pelo formato e pelas dimensões do papel ou do material em que se inscrevem”, explica Augusto.

Como sempre ocorre em seus trabalhos tradutórios, Augusto de Campos faz, da poesia original, proezas de equivalências e correspondências em português, que literalmente recriam “o enigma fundoformal” e compõem um outro e mesmo poema em nossa língua, original também “na língua de chegada”. No final da "Introdução", ele associa o tradutor de poesia a um quê de intérprete musical, ao exercício das "personae" poundianas.

Eis um breve travelling, cotejando planos e cortes entre os poemas (os de origem e os de tradução), com a premissa de que a simples justaposição enunciativa destes quatro exemplos possa bastar como um índice sugestivo e instigante dos modelos de método e resultado envolvidos na operação tradutora:

Poema 1 (c. 1858)

There is a word / Which bears a sword

Uma palavra se abre / Como um sabre


Poema 12 (c. 1862)

We play at Paste – / Till qualified, for Pearl –

Lidamos com o Joio – / Para chegar à Jóia! –


Poema 15 (c.1862)

Beauty – be not caused – It Is – / Chase it, and it ceases – / Chase it not, and it abides – // Overtake the Creases // In the Meadow (...)

Beleza – não tem causa – É – / Cace-a e ela cessa – / Não a cace e ela cresce – // Tente alcançar na Messe // As Ondas (...)


Poema 37 (1872?)

A word is dead / When it is said, / Some say. / I say it just / Begins to live/ That day.

A palavra morre / Quando ocorre, / Se dizia. / Eu digo que ela / Se revela / Nesse dia.


Exemplo de integridade e intransigência na interface de moral e arte, Emily Dickinson é uma benção-baliza para os criadores inventores, os des/aventurados na rota radical de coragem e ousadia, como, em feitio de oração, reza o "Poema 5" (c. 1859): “O Sucesso é mais doce / A quem nunca sucede. / A compreensão do néctar / Requer severa sede. // Ninguém da Hoste ignara / Que hoje desfila em Glória / Pode entender a clara / Derrota da Vitória // Como esse – moribundo – / Em cujo ouvido o escasso / Eco oco do triunfo / Passa como um fracasso!”.


Publicado em 21/10/2008

.

Carlos Adriano
É cineasta e doutor em ciências da comunicação pela USP. Todos os seus filmes foram apresentados no 56º Festival de Locarno (seção "Cineastas do Presente") e no 16º Videobrasil (sala no eixo curatorial "Cinema Vídeo Arte"). Realizou "Remanescências" (coleção New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival) e "Militância" (exibido no MoMA, Nova York). Teve roteiros premiados por Petrobras, Ministério da Cultura e Bolsa Vitae. Com Bernardo Vorobow é autor do livro "Peter Kubelka: A Essência do Cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 
1