Após 55 anos, é reeditado "O Patriarca e o Bacharel", do escritor Luis Martins; leia o prefácio do livro
São Carlos, no interior de São Paulo, guarda na biblioteca de sua Universidade Federal dois acervos que ajudaram a capital do Estado a tornar-se muito mais inteligente. Separadas por apenas uma parede, estão as bibliotecas de Florestan Fernandes e de Luís Martins.
Tudo indica que eles nunca foram tão próximos quanto estão seus livros hoje, embora tivessem inúmeros amigos em comum: Antonio Candido, quando ajudou a fundar o Partido Socialista Brasileiro, foi para as ruas com o candidato a vereador Luís Martins colar cartazes de uma campanha fadada ao fracasso, nos anos que se seguiram à redemocratização de 1945; Fernando de Azevedo, que contratou Florestan para ser seu assistente na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, correspondia-se bastante com Martins (como mostra outra parte do acervo do escritor, bem guardado pelo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio –uma outra parte dos arquivos de Martins encontra-se no MAM-SP, no Centro de Estudos Luís Martins), porém menos que Roger Bastide, o companheiro de Florestan na pesquisa sobre negros e brancos na cidade de São Paulo, iniciada no final da década de 1940, a convite da Unesco.
Apesar disso, nem Luís Martins está presente nos principais relatos autobiográficos de Florestan, nem Florestan aparece, por exemplo, em "Um Bom Sujeito", o último e, do ponto de vista biográfico, o livro mais importante de memórias de Martins. Um, embora tenha tornado-se uma referência também entre antropólogos, historiadores e educadores, foi, sobretudo, sociólogo.
O outro, que foi antes de mais nada jornalista, assumiu uma enormidade de outras “qualificações” durante a vida: muito jovem foi poeta e até letrista de samba, depois romancista, divulgador do modernismo, crítico de arte, editor de livros, cronista célebre e diretor do arquivo do jornal "O Estado de S. Paulo" (arquivo que é em si uma “instituição” entre os jornalistas). E ainda membro do conselho e da direção do Museu de Arte Moderna de São Paulo –que deve muito de sua própria criação ao empenho do jornalista Luís Martins.
Florestan, de origem menos do que modesta– foi auxiliar de barbeiro e engraxate ainda com seis anos e era garçom antes de voltar a estudar–, no início dos anos 1940, soube aproveitar as oportunidades que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, criada poucos anos antes, abriu para muitos jovens nascidos fora do círculo da elite paulistana.
A partir daí, construiu uma obra que figura entre as principais interpretações do Brasil, ombreando com Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Martins, um carioca nascido em 1907 que aproveitara a vida nas noites da Lapa, estava nesta época vivendo com a pintora modernista Tarsila do Amaral e escrevia nos jornais paulistanos.
Apesar da união com uma “quatrocentona” e do trabalho como jornalista no "Estadão", ele jamais se sentiria completamente aceito pela elite da cidade –se aquelas núpcias extra-oficiais com alguém de uma família tão tradicional criavam um belo incômodo em algumas rodas, a coisa pioraria quando, mais tarde, Martins deixaria a pintora para se casar com a prima de Tarsila, a escritora Anna Maria Martins.
Nos anos 1940, o jovem Florestan embrenhou-se pelos bairros e bibliotecas da cidade e iniciou-se na vida intelectual com um lúcido e bem escrito estudo sobre as brincadeiras das crianças que habitavam São Paulo –inicialmente publicados em revistas acadêmicas, entre elas a "Revista do Arquivo Municipal", os textos resultantes dessa pesquisa, dentre os quais destaca-se “Trocinhas do Bom Retiro”, estão reunidos em "Folclore e Mudança Social na Cidade de São Paulo". Na mesma década, Luís Martins tornava pública sua mais ousada incursão no debate acadêmico, ao escrever o artigo que resultaria no livro "O Patriarca e o Bacharel".
Para Martins, a publicação em livro de seu estudo, que inicialmente também teve uma primeira versão publicada na mesma "Revista do Arquivo Municipal", em 1944, foi resultado de uma longa negociação com editores.
Ele, que se notabilizara por seus textos de jornal e que já era reconhecido como romancista, graças ao polêmico "Lapa" (que lhe valeu a perseguição pelo Estado Novo), mergulhou na história paulista para tentar entender um momento peculiar do país: o período que se seguiu à Proclamação da República, quando alguns dos mais destacados líderes do movimento começam a desenvolver uma espécie de arrependimento em relação ao fim da Monarquia e ao tratamento dispensado ao ex-imperador.
A inspiração declarada de Luís Martins era a obra de Gilberto Freyre. Foi a partir da leitura de "Sobrados e Mucambos", em especial dos capítulos “O pai e o filho” e “A ascensão do bacharel e do mulato”, que Martins decidiu arriscar-se a sua interpretação do Brasil –pelo menos, a interpretação de um momento muito importante para a história brasileira.
Martins analisa os documentos que lhe foram cedidos pelo pai de Tarsila –dois álbuns de fotografias e um de autógrafos de famílias tradicionais paulistas– para tentar entender o que fez aqueles bacharéis tão defensores da República viver um sentimento bastante difundido de “remorso” em relação à própria atuação histórica “num período imediatamente posterior à proclamação”, nas palavras do próprio Martins.
Para isto, buscou embasamento teórico em Freud: “A minha contribuição, sugerida diretamente pelo drama que se podia entrever nos álbuns da família a que me referi, foi apenas a seguinte: a geração dos bacharéis românticos fez a República, assimilando a figura hostilizada do Pai, até então encarnada na do potentado rural, à do imperador d. Pedro II, que passou a simbolizar, mais do que nunca (já era, pela situação de rei, um símbolo natural de paternidade), a entidade paterna. Pedro II foi uma síntese de todos os pais particulares, polarizando os ódios filiais da horda rebelde”, escreve na introdução ao livro.
A versão de Martins para a história dos primeiros anos da República, finalmente publicada em livro em 1953 com prefácio de Freyre, gerou grande repercussão. Foram inúmeras resenhas nos jornais e não pouca a correspondência que Martins recebeu comentando o livro. Muitos argumentos foram usados para defender e para criticar a obra, inclusive por Gilberto Freyre, que assina um prefácio bem ao seu gênero, republicado nesta edição, que “assopra e morde” o estudo. Chama as páginas de “inteligentes”, mas também resiste ao método psicanalítico empregado por Martins.
Freyre retoma os termos do prefácio na “Introdução à 2ª Edição” de "Sobrados e Mucambos" e, apesar de discordar do que considera “excessos” de Martins, retoma-o duas vezes em "Ordem e Progresso", o seu terceiro livro sobre a saga da sociedade patriarcal brasileira.
Em carta ao autor guardada pelo Arquivo do Museu da Casa de Ruy Barbosa, o catedrático em Sociologia I da USP, Fernando de Azevedo, afirma concordar com o colega da universidade Roger Bastide, para quem a interpretação psicanalítica não podia ser estendida a todo um grupo, devendo ser limitada como explicação de comportamentos individuais.
O uso da teoria de Freud para interpretar um fenômeno histórico e social parece, de fato, ter encontrado uma resistência imerecida. Nem Bastide, autor de "Psicanálise do Cafuné" (um dos livros que Martins e Sérgio Milliet editaram numa famosa coleção, a Cadernos Azuis), cujo artigo sobre o livro Martins qualifica de “consagrador, sem falsa modéstia”, nem Fernando de Azevedo nem Freyre pareceram acreditar suficientemente nos avisos do autor que, da introdução à conclusão de "O Patriarca e o Bacharel", procuram relativizar o alcance da sua análise.
“Vivemos, depois de 1889 (principalmente durante a Primeira República) num clima permanentemente revolucionário, sempre ameaçado de levantes armados. Evidentemente, não penso em atribuir toda essa insatisfação a causas meramente psicológicas”, escreve, por exemplo, na conclusão –é verdade que, depois, ele reafirma suas convicções: “Mas creio não exagerar supondo que, por baixo deles, havia uma fermentação surda, subterrânea, inconsciente. Os homens de 1889 implantaram no Brasil, por culpa do seu inquietante complexo, uma atmosfera de nervosismo e inadaptação”.
Em "Um Bom Sujeito", Luís Martins elenca as críticas que recebeu, destacando, além da de Bastide, a de Wilson Martins. Também afirma considerar "O Patriarca e o Bacharel" o livro mais importante que escreveu e que não o reeditava porque achava que, para isso, deveria revê-lo, acrescentar coisas e fazer alguns cortes. Mas, significativamente, como já o fizera na edição do livro, procura deixar claro que não se considera “um historiador ou um psicólogo social” e que não teve a pretensão de invadir seara alheia.
Essa “diplomacia” intelectual e política de Martins –que, para além de Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e de todo um circuito culto paulistano, tinha uma enorme rede de relações no Rio, na qual figuravam nomes como Carlos Lacerda, Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcanti, Rubem Braga e Manuel Bandeira, entre tantos outros–, talvez possa ajudar a explicar porque este livro, em que pese sua ousadia interpretativa e seu cuidado na análise de documentos indiscutivelmente relevantes para a compreensão dos primeiros anos do que hoje chamamos de República Velha, tenha passado mais de 50 anos sem uma reedição.
Na São Paulo que se especializava intelectualmente a partir daquele “meio do século XX” (faço, aqui, uma alusão ao subtítulo de "Metrópole e Cultura", de Maria Arminda do Nascimento Arruda, que, por meio de ensaios, analisa as principais movimentações culturais na cidade nessa época), Martins era por demais eclético.
Combinar sociologia com história e psicanálise, naquele momento, pelo menos ao modo ensaístico adotado por ele, não combinava com os novos padrões de atuação intelectual da Universidade de São Paulo e da Escola de Sociologia e Política, as instituições que estavam transformando a paisagem intelectual da cidade.
Se seu estudo, nesse aspecto, é abertamente influenciado pelo estilo mais livre de Freyre, por outro lado, é praticamente impossível não perceber em "O Patriarca e o Bacharel" uma busca de rigor que combina muito mais com a seriedade paulistana do que com a prosa doce e perigosamente envolvente do pensador pernambucano.
No meio do caminho entre a sociologia pernambucana e a paulista (Gilberto Freyre, numa carta a Luís Martins em que trata da edição de "O Patriarca e o Bacharel", sugere que o escritor procure por Bastide ou pelo geógrafo Perre Mombeig, os franceses da USP, para ser orientado por eles em suas pesquisas –conselho que, aparentemente, Martins nem cogitou seguir), Martins acabou não conquistando um espaço em que sua contribuição fosse não apenas lida e debatida, mas o que é fundamental na permanência de ensaios do gênero, assimilada e adotada por um grupo de intelectuais.
Se "O Patriarca e o Bacharel" enfrentou o fato de não se enquadrar perfeitamente nos grandes modelos de interpretação sociológica que disputavam espaço no Brasil na época (além de Freyre e dos uspianos, havia os desenvolvimentistas do Iseb construindo um outro tipo de análise no Rio de Janeiro), a falta de especialização de Martins foi também um fator crucial para que ele, embora respeitado pela academia paulista (em 1959, foi convidado a compor a banca que avaliou a tese de livre-docência de Roque Spencer Maciel de Barros na Faculdade de Filosofia da USP), não fosse definitivamente adotado por esse grupo de intelectuais.
Luís Martins chegou a ter duas colunas diárias em "O Estado de S. Paulo". Uma delas, assinava como Luís Martins, a outra, como L.M.. Um cronista tão presente nos jornais e, ao mesmo tempo, tão envolvido com o dia-a-dia e a direção do periódico como foi Martins não pode, em geral, dar-se ao luxo de cuidar da própria obra em livros.
Cuidar dela significa não apenas editá-la, mas “defendê-la” em encontros, mesas-redondas, debates, seminários. Significa, também, ampliá-la por meio de novos estudos e textos, responder academicamente a questões metodológicas feitas pelos piores críticos e, principalmente, pelos melhores leitores –coisa que Martins não fez. Significa buscar, em salas de aula ou em conferências, discípulos ou pelos menos leitores entusiasmados, capazes de passar esse entusiasmo adiante.