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dossiê
IMIGRAÇÃO E CULTURA

Perguntas sem respostas
Por Christina Stephano de Queiroz

“Não existe choque de civilizacões e sim de preconceitos”, diz o escritor Tahar Ben Jalloun, que lança o livro "Eu Não Entendo o Mundo Árabe"

O debate sobre a questão dos imigrantes na Europa volta a ganhar fôlego, alimentado pelas medidas tomadas pelo governo do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que visa estabelecer a imigração ilegal como um delito.

Ao mesmo tempo, eclodem novas políticas discriminatórias em outros países da Europa, como a França e a Grã-Bretanha. Em meio à crise, o escritor marroquino Tahar Ben Jelloun está lançando seu novo livro, “Eu Não Entendo o Mundo Árabe”, que aquece ainda mais a discussão.

Embora aborde o trato europeu com imigrantes muçulmanos, as reflexões do livro tendem a colaborar genericamente para discutir o modo como o Velho Continente tratar todos os demais povos.

De passagem por Barcelona, para promover o lançamento da obra, o autor contou em entrevista a Trópico que, com seus escritos, pretende formular perguntas que, muitas vezes, não têm respostas definitivas e, portanto, podem gerar uma sensação de inquietude nos leitores.

Explicou que os imigrantes carregam uma imagem negativa na Europa e que não tem a intenção de defender o islamismo –mas, sim, de mostrar para as pessoas que existem diversas maneiras de pensar o mundo.

"Há um mal-entendido entre o Ocidente e o mundo árabe, e os meios de comunicação exploram esse mal-entendido, dando explicações racistas para questões coloniais e políticas", diz ele na entrevista a seguir.

Nascido em Fez (Marrocos), em 1944, Ben Jelloun é um dos principais escritores do mundo árabe. Foi o primeiro autor magrebino a ganhar o prestigioso Prêmio Goncourt, com a novela “A Noite Sagrada” (1987). Atualmente, vive entre Tânger e Paris. É colaborador freqüente dos maiores jornais europeus.

Em 1998, lançou “O Racismo Explicado à Minha Filha”, um pequeno ensaio para crianças, que foi traduzido para mais de 25 línguas (no Brasil, pela ed. Via Lettera). Também é autor de “A Reclusão Solitária” (1976) e “Os Náufragos do Amor” (1987), entre outros livros.

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Quais foram os seus objetivos ao escrever "Eu Não Entendo o Mundo Árabe"?

Tahar Ben Jelloun: Queria dizer certas coisas delicadas aos europeus, mas de uma maneira leve. Então optei por desenvolver um diálogo fictício entre minha filha e outras jovens européias e, assim, abordar alguns pontos que ajudam as pessoas a enxergarem a complexidade do mundo.

Em muitos casos, essa complexidade é expressa por meio da formulação de perguntas que simplesmente não têm respostas definitivas. Entretanto, mesmo sem respostas, os questionamentos geram uma sensação de inquietude nos leitores, que pode provocar uma reação.

O discurso é dirigido aos jovens, pois essa é uma geração curiosa, e suas perguntas me impressionam. E, para explicar temas polêmicos da melhor maneira, escrevo em primeira pessoa, a fim de entrar no espírito do personagem. É interessante inventar e imaginar situações, mas também devemos nos colocar no lugar de quem queremos descrever, pois assim as idéias ficam mais claras.

Por exemplo, para entender como um jovem, não necessariamente pobre, troca o instinto de vida pelo de morte e assassinato, tornando-se um kamikaze, é necessário entrar em sua pele.

No caso do ensaio “O Racismo Explicado a Minha Filha” (publicado em 1998), eu explorei a minha filha por uma boa causa. Ao explicar o que é o racismo para uma criança, meu objetivo era atingir o maior número de leitores e trazer a questão para o público europeu.

Com relação ao novo livro, escolhi quatro adolescentes como protagonistas para formular muitas perguntas que as pessoas se fazem. Quis mostrar o que garotas com diferentes biografias e entornos socioculturais pensam desde dentro.

Por isso, o diálogo ocorre entre Meriem, marroquina de cultura francesa e pais muçulmanos; Lydia, italiana católica de Bolonha, e a catalã Maria, de mãe católica e pai judeu. Em oposição a elas está a marroquina Fattuma, prima de Meriem, que opta por seguir o islamismo fundamentalista.


O que pensa da relação do europeu com os imigrantes, hoje?

Ben Jelloun: Para a Europa, os imigrantes em geral, e os mulçumanos em particular, carregam uma negatividade. Existe uma percepção deturpada com relação às pessoas que chegam de outros países.

Elas são vistas como gente ilegal ou vândalos que podem ameaçar a segurança das cidades e tirar o emprego da população local.

E o europeu desconhece o mundo árabe, assim como outros mundos, e por isso o preconceito aumenta. Percebe o mundo árabe como uma entidade única e total, e nisso está totalmente errado.

Por exemplo, os países do Magreb (norte da África) são distintos, têm histórias de colonização e regimes de governo bastante diferentes, e o poder político é diverso em cada país.

Há um mal-entendido entre o Ocidente e o mundo árabe, e a imprensa e os meios de comunicação exploram esse mal-entendido para dar uma explicação racista a questões coloniais e políticas.

Com meus escritos, quero lembrar que muitos imigrantes se mudam para um país para trabalhar. São pessoas que participam da economia e contribuem para o bem-estar desse país, e isso é algo que os europeus esquecem de ver.


O senhor pretende, então, atuar como uma ponte entre os dois mundos?

Ben Jelloun: Não quero ser uma ponte, e sim que meus escritos sirvam para colaborar com os conhecimentos mútuos dos povos, tanto da Europa, quanto de outros países.

Meus textos devem servir para ampliar as informações que chegam de um mundo a outro. Eu gosto de transmitir filosofias distintas a povos diferentes, gosto de mostrar para pessoas de universos distantes que existem outras maneiras de se pensar o mundo.

E, para isso, é necessário dispor de um certo sentido pedagógico. Esse sentido é algo que eu exercitei, por exemplo, quando escrevi “O Racismo Explicado a Minha Filha”, já que o tema da exclusão é difícil de ser entendido pelas crianças e, portanto, a pedagogia tem um papel fundamental.

O mesmo ocorre com “Eu Não Entendo o Mundo Árabe”. O aspecto pedagógico do livro me ajudou a expor problemáticas e a iniciar discussões sobre assuntos delicados. E abordar esses temas por meio de livros é diferente de fazê-lo com a publicação de artigos em jornais, pois, neste caso, costuma-se ler o artigo e logo esquecê-lo. Os livros geram um efeito mais duradouro na cabeça das pessoas.


Há uma intenção de defender os imigrantes e o mundo árabe?

Ben Jelloun: Eu não tenho a intenção de defender os árabes e o islamismo em geral e sim de mostrar ao europeu que há uma visão equivocada desses povos no seu continente.

Um desses pontos deturpados envolve, por exemplo, a idéia de que o islamismo proíbe pinturas e está contra a arte. É uma visão totalmente errada, já que os persas, para citar apenas um caso, tinham uma forte aptidão para produzir miniaturas.

Outro ponto é o problema da burca. De acordo com o Alcorão, Deus não disse a Maomé para que as mulheres se tapassem. No começo do islamismo, o véu era usado para proteger as pessoas do calor e também para diferenciar aquelas que eram muçulmanas das adoradoras de deuses pagãos.

O que Maomé dizia é que as pessoas deviam adotar uma postura de respeito na presença de Deus, mas isso não significa que era necessário tapar-se.

A obrigação de se cobrir foi uma interpretação que veio depois, feita de acordo com a cultura de diferentes países. Assim, a questão do véu não é uma questão do islamismo, e sim do Paquistão ou do Afeganistão, que interpretaram a filosofia conforme os parâmetros de sua cultura. E, no final das contas, nenhuma religião privilegia a mulher, nem mesmo o catolicismo.


Existe solução para o problema do racismo?

Ben Jelloun: A pedagogia nas escolas primárias é fundamental, pois é a base de tudo. Se ensinarmos às crianças como ser tolerantes e descobrir o próximo, pode-se evitar mal-entendidos no futuro. Estabelecer um diálogo é muito importante quando se fala de preconceito, pois é a única forma possível para superar o racismo.

Para entender universos diferentes dos nossos, é preciso fazer um esforço de imaginação. É complicado compreender, por exemplo, a atitude de ódio de um palestino e, para isso, deve-se imaginar que ele teve sua casa dinamitada e está preso em um campo de refugiados -situação que gera um ódio latente.

É necessário colocar-se no lugar das vítimas em geral e não de um lado só, sejam as vítimas palestinas ou israelenses. Há um movimento pró-imigrantes na Europa, mas isso varia conforme cada país. Na França, por exemplo, vejo poucas iniciativas. No entanto, há uma brecha de esperança para resolver esses problemas, pois hoje não existe choque de civilizações e sim de ignorâncias e preconceitos, que pode atenuar-se por meio da educação das crianças.

Eu conto com o pensamento como solução para tais conflitos, já que os povos estão cansados de guerra.


Poderia existir um livro chamado “Eu Não Conheço o Ocidente”?

Ben Jelloun: O mundo árabe é um mosaico, um universo diverso e complexo, e os ocidentais não chegam a entendê-lo por completo. De outro lado, já se conhece melhor o Ocidente, devido à colonização e à democracia. O que não conhecemos do Ocidente são coisas invisíveis, certos fatores relacionados à história, ao seu passado.


Publicado em 27/8/2008

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz mestrado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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