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Vidas radicais ![]() O cineasta Rainer Fassbinder, o poeta Bernward Vesper e a cantora Nico
Divulgação Fassbinder, Bernward Vesper e a cantora Nico são os personagens do romance biográfico "Ataques", do escritor francês Alban Lefranc Chega às livrarias da Alemanha, em outubro, um livro que reúne as biografias romanceadas de três ícones da cultura contemporânea do país, relacionadas com a vida política a partir da segunda metade da década de 60 -e, mais precisamente, com o chamado Movimento de 68, que teve seu ápice com os confrontos entre polícia e estudantes na antiga Alemanha Ocidental naquele ano. Romanceadas pelo escritor francês Alban Lefranc, 33 anos, as vidas extremas do cineasta Rainer Werner Fassbinder, da cantora Nico e do escritor Bernward Vesper fazem parte da trilogia em um só volume "Angriffe" ("Ataques"). Na França, dois desses textos foram já lançados em volumes independentes: um sobre Fassbinder ("Attaques sur le Chémin le Soir Dans la Neige") e outro sobre Vesper ("Des Foules, des Bouches, des Armes"). "Esses personagens procuraram uma forma (cinema, literatura, música) que lhes permitisse sobreviver ao desgosto e a um certo ódio pela época em que viviam", resume o autor em uma entrevista concedida a Trópico, em Berlim, onde vive atualmente. Fassbinder e Vesper, de um lado, sentiam-se marginalizados, o primeiro por se julgar excluído do meio cinematográfico alemão, o outro, por ser filho de um dos mais famosos poetas nazistas. Nico percorre o caminho inverso, do "jet set" à marginalidade. Apesar de suas procedências diversas, os três "personagens" têm em comum o momento histórico que moldou sua vida, construído sobre as "ruínas do nazismo" e as "mentiras da reconstrução". "Eles são completamente alérgicos à linha dura e à ordem moral que se instalou na Alemanha a partir de Adenauer (chanceler do país, de 1949 a 1963) e que vai ser varrida, pelo menos aparentemente, no final dos anos 60", diz Lefranc. "No caso dos três, a arte corresponde a uma urgência existencial." Para escrever os livros, Lefranc baseou-se na biografia dos personagens e, para "completar as lacunas" de cada um, recorreu a filmes, livros e "liberdades". "Às vezes, me afasto bastante dos fatos reais", afirma Lefranc, "não hesito em inventar fatos que me parecem mais acertados, mais reais do que aqueles que são tomados por verdadeiros". Leia a seguir a entrevista com o escritor. *
Alban Lefranc: Eles têm em comum o fato de terem emanado das ruínas do nazismo e das mentiras da "reconstrução". Atrás de si, um desastre imenso, um crime terrível, e, diante de si, o otimismo do milagre econômico e o anticomunismo como uma nova religião nacional. "Alemanha Ano Zero", de Rosselini, é talvez o filme mais exato sobre esse desastre, esse desespero. Eles têm em comum uma ânsia de viver quase suicida. Eles procuraram uma forma (cinema, literatura, música) que lhes permitisse sobreviver ao desgosto, a um certo ódio pela época em que viviam. A arte corresponde, no caso dos três, a uma urgência existencial. Eles são completamente alérgicos à linha dura e à ordem moral que se instalou na Alemanha a partir de Adenauer e que vai ser varrida (pelo menos aparentemente) no final dos anos 60. Eles partilham as aspirações da contestação estudantil e apóiam, pelo menos a princípio, a luta armada. E não podemos compreender essa época (o final dos anos 60), se nos esquecermos de que havia um certo consenso no meio intelectual e estudantil em favor da luta armada. Era preciso responder à violência do Estado também com violência.
Lefranc: Essa decepção é apenas o ponto de partida. Não é uma decepção que eles remoem. Eles não são seres ressentidos. A pergunta que eles se colocam é: o que fazer desses impedimentos, desses limites? Há uma diferença grande entre Fassbinder e Vesper, de um lado, e Nico, de outro. Os dois primeiros já eram, a princípio, marginais. Um motor muito potente de sua energia era a fúria de serem reconhecidos e aceitos por seus pares. Toda a curta vida que tiveram (Fassbinder morto aos 37, Vesper, aos 32) foi traspassada por esse sentimento de não ser aceito, pelo complexo de ser um provinciano aos olhos dos "elegantes", e de ser estrangeiro em comparação ao autóctone. Não é um complexo que os esmaga. No caso de Fassbinder, é um cutucão muito eficaz. Mesmo depois de ser reconhecido, ele continua sendo indigesto, escandaloso, tanto por seu modo de vida assumido (homossexual e usuário de drogas), como por sua arte (muito radical). Nico já estava dentro desse meio (jet set, dinheiro, artistas famosos) antes mesmo de ter tempo para desejar fazer parte disso. Então, ela faz o possível para sair e dilapidar o que havia acumulado. Kafka dizia, em seus "Diários", que "toda literatura é um assalto à fronteira". Nós podemos reunir esses três a partir desse enfoque essencial com relação à fronteira. Como em Kafka, há neles uma consciência muito exata do que está em jogo. De que grupo eu faço parte? Quem decide o que eu sou? O que me faz artista? Qual o papel dos jornalistas e como lidar com eles?
Lefranc: Os três personagens têm uma maneira violenta de se relacionar com o mundo. O mundo e a arte são compreendidos como uma guerra. A metáfora da guerrilha está sempre presente para eles. Mas esse período (anos 50 e 60) é também o da Guerra da Coréia, do Vietnã, de guerras de independência anticolonialistas e, na Alemanha, dos confrontos entre estudantes e as forças da ordem e dos atentados da Facção do Exército Vermelho (RAF, na sigla alemã). "Ataques" é o que está no fundo dessa época.
Lefranc: Muito naturalmente, como um complemento necessário. Depois do cinema e da literatura, a música. A isso se junta ainda o desejo de, como homem, fazer uma ficção (biográfica, sobre uma mulher). Nessa forma particular que é a biografia imaginária, em que se trata de "colonizar" um personagem, de ousar fazê-lo falar, completar as lacunar de sua vida, imaginar seus desejos. Nos três livros a sexualidade está muito presente, como uma rota de fuga ou de morte. Depois de escrever sobre um desejo homossexual (Fassbinder), um desejo heterossexual de homem (Vesper), um desejo (ou não-desejo, quando ela se drogava) de mulher. Nico também teve dificuldade de impor essa dimensão feminina a si mesma, o que acabou por reduzi-la à figura de uma mulher bela e muda, confundida com uma vagabunda, em um meio muito masculino (o da música e do cinema). Numerosos artigos sobre ela são extremamente desdenhosos e a reduzem a um simples ícone e uma iguaria para artistas homens. Nico fez boa parte de sua carreira no exterior, mas ela conservou uma relação íntima, violenta e urgente com a Alemanha e com a língua alemã. As pessoas achavam graça no sotaque dela. Ela dedicou músicas para Andreas Baader (um dos fundadores do grupo terrorista Baader-Meinhof, depois conhecido como RAF) quando ela cantou na Alemanha os versos proibidos do hino ("Deutschland, Deutschland, über alles...").
Lefranc: Nos últimos dez anos, tenho vivido quase que constantemente na Alemanha (Bochum, Dresden, Bonn e Berlim). É um país que eu conheço bem. Acho que por ser estrangeiro, com uma visão distanciada, talvez eu me sinta mais livre para falar sobre essa história. Eu não tenho dedos. É um enfoque mais abstrato, também. Não tenho familiares nem pessoas próximas que tenham vivido esse período (na Alemanha). E isso, paradoxalmente, me dá uma vantagem. A princípio, eu mergulhei nos filmes de Fassbinder, especialmente seu fabuloso segmento de "Alemanha no Outono" ("Deutschland in Herbst", 1977), e foi ele que meu a chave para penetrar nesse período. A articulação dos corpos e da política, do privado e do público, representação dos afetos, uma dimensão muito subjetiva da percepção, a raiva como uma salvação.
Lefranc: Eu não trabalho de maneira verdadeiramente narrativa; eu busco imagens, cores, ambientes que me permitam materializar um pouco a densidade de suas vidas. Mais do que fios narrativos, são mais os temas que se entrecruzam (dos três personagens). Eu consultei as biografias existentes, claro, mas me inspirei também em filmes. Em "O Demônio das Onze Horas" ("Pierrot le Fou", de Jean-Luc Godard), para Vesper, "Quando Éramos Reis" ("When We Were Kings", de Leon Gast), para Fassbinder, e "Últimos Dias" ("Last Days", de Gus Van Sant), para Nico. Às vezes, me afasto bastante dos fatos reais, não hesito em inventar fatos que me parecem mais acertados, mais "reais" do que aqueles que se tomam por verdadeiros. Parece-me sobretudo que o essencial é materializar os interstícios de uma vida, os detalhes de aparência anódina. Os fatos de "destaque" (por exemplo, que Nico trabalhou em "La Dolce Vita") não têm importância. São os fatos aos quais pregamos uma pessoa real que praticamente a anulam -atos que se tornam quase clichês e que, por fim, não dizem nada. É flagrante no caso de Nico, pois ela é ligada freqüentemente a outras celebridades mais famosas (Lou Reed, Warhol, Fellini): eu quis apreender o resto. Rousseau exprime isso magnificamente, a ambição de apreender uma totalidade mais complexa, mais misteriosa do que os simples fatos: "Os climas, as estações, os sons, as cores, a escuridão, a luz, os elementos, os alimentos, o barulho, o silêncio, o movimento, o repouso, tudo age sobre sobre nossa máquina e, por conseguinte, sobre nossa alma".
"Angriffe - Fassbinder, Vesper, Nico", de de Alban Lefranc (320 págs., ed. Ed. Blumenbar, Munique). Tradução: Katja Roloff. Chega às livrarias alemãs em outubro. Já estão disponíveis as edições originais (em francês) de dois dos episódios contidos na edição alemã: "Attaques sur le chemin le soir dans la neige" (Le Quartanier, Montréal/Marseille, 2005) e "Des foules, des bouches, des armes" (Melville/Léo Scheer, Paris, 2006).
Rainer Werner Fassbinder (1945-1982): Considerado um dos maiores nomes do chamado "Novo Cinema Alemão", ao lado de Werner Herzog e Wim Wenders, Fassbinder realizou mais de 40 filmes, durante uma carreira de menos de 15 anos, muitos dos quais baseados em suas próprias peças, que foram encenadas em Munique, no Anti-Theater, fundado e dirigido por ele mesmo. O cineasta, que dizia não saber fazer uma narrativa que não fosse política, ficou conhecido internacionalmente por levar às telas personagens femininos fortes sobre o pano de fundo da Alemanha do pós-guerra. Morreu aos 38 anos por uma overdose de calmantes e cocaína. Entre seus principais filmes, estão: "Os Deuses da Peste", "O Medo Corrói a Alma", "O Casamento de Maria Braun" e "Querelle".
Filho do poeta nazista Will Vesper, Bernward é um dos expoentes da chamada "Geração de 68" da literatura alemã. O escritor buscou se distanciar da imagem do pai e afirmar sua identidade política e literária envolvendo-se com movimentos de esquerda. No final dos anos 60, teve um relacionamento com Gudrun Ensslin, uma das fundadoras do grupo terrorista de esquerda Baader-Meinhof, com quem teve um filho em 1967. Com ela, o escritor fundou uma editora de textos literários e políticos. Em 1971, Vesper morreu vítima de uma overdose de comprimidos para dormir.
Antes de se tornar cantora, Christa Päffgen, ou Nico, trabalhou como modelo e fez ponta em diversos filmes, entre eles "La Dolce Vita", de Fellini. Em Paris, nos anos 60, conheceu Bob Dylan, que, anos mais tarde a apresentou para Andy Warhol, em Nova York. Warhol utilizou Nico como atriz em diversos de seus filmes. Na Factory, estúdio coletivo dirigido por Warhol, ela conheceu Lou Reed e John Cale. O último convocou os colegas do Velvet Underground a produziu para Nico seu primeiro LP solo, "Chelsea Girls", uma obra prima impregnada do desencanto e sentimento trágico que marcariam a vida da cantora, sua relação com o filho Ari (de Alain Delon) e o uso de heroína. Em 1973, a cantora causou controvérsia ao gravar em seu disco "The End" o hino nacional alemão ("Das Lied der Deutschen"), com uma parte da letra que estava proibida no país. Durante férias em Ibiza, em 1988, Nico sofreu um acidente de bicicleta e morreu de hemorragia cerebral.
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