CIÊNCIA
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livros
FICÇÃO

Verdades e mentiras
Por Alex Miyoshi

"Our Story Begins", lançado nos EUA, reúne contos escritos nos últimos 30 anos pelo americano Tobias Wolff

O rosto de Tobias Wolff nos observa. Sessenta e poucos anos. A fronte ampla, o bigode vasto, branco como os cabelos, os braços enlaçando a perna numa pose jovial.

A foto em preto-e-branco levemente dourada estampa a capa de seu novo livro, “Our Story Begins - New and Selected Stories” (Alfred A. Knopf, U$ 26,90), uma compilação de contos produzidos nos últimos 30 anos, publicados originalmente em revistas norte-americanas.

Tobias Wollf (nascido em Birmingham, Alabama, em 1945) é um premiado escritor, além de professor de redação na Universidade de Stanford, na Califórnia. No Brasil, é mais conhecido por seus livros de memórias, sobretudo “O Despertar de um Homem” (Rocco, 1996), vertido ao cinema em 1993. No filme, o adolescente Tobias ganhou as feições de um ator então pouco conhecido, Leonardo DiCaprio. O outro livro, “No Exército do Faraó” (Rocco, 2002), conta sua experiência de guerra no Vietnã. Ambos os livros relacionam-se profundamente com alguns contos de “Our Story Begins”.

Para Wolff, “Our Story Begins” é mais que uma coletânea. Trata-se também de uma tentativa de aperfeiçoamento dos contos. O autor reelabora pequenos trechos, contrariando os cultores da “forma original”, perguntando-se o que seria a “forma original”: se o primeiro rascunho de um calhamaço de rascunhos, ou se a história impressa nas páginas de um periódico. “Tenhamos em mente”, diz ele, “que, antes de a revista publicar a história, uma editora-executiva a leu com lápis na mão, e pelo menos algumas de suas sugestões sobreviveram às negociações, não por pressão, mas porque pensei que melhorariam a história”, o mesmo ocorrendo nas edições sucessivas, sem contar o interesse constante do próprio autor em dar aos contos “a vida na sua melhor expressão”.

Dar vida aos contos não é tarefa fácil. Seu livro precedente, “Meus Dias de Escritor” (Ediouro, 2006), misto de romance e memória, mostra o duro percurso de um aspirante a escritor. O protagonista é um menino que adora a literatura, e que talvez adore ainda mais a vida dos autores. Para ser um deles, copia com a máquina de escrever palavra por palavra, letra por letra os textos dos mestres.

Pretende com isso não apenas assimilar suas habilidades: quer se sentir como um verdadeiro ficcionista. Começa a definir sua vocação após confrontar dois modos literários antagônicos: o de Ayn Rand e o de Hemingway. Mas apenas a consolida quando se depara com um conto feito por uma garota, estudante como ele. Ao lê-lo, compreende: “Desde a primeira frase eu olhava em cheio para o meu rosto.”

O menino percebe que suas personagens e situações não precisavam ser heróicas como as de Ayn Rand ou Hemingway; a sua própria vida poderia ser uma fonte literária. “Onde eu realmente me reconhecia”, diz, fitando o conto da estudante, “era nos detalhes acidentais, prosaicos, da vida e dos hábitos de pensamento de Ruth. Por exemplo, o curso de datilografia. O que podia ser mais banal do que passar as férias de verão num curso de datilografia da Associação Cristã de Moços? Fora exatamente isso que eu fizera numa parte do verão anterior, e no entanto nunca mencionara isso para os meus colegas exatamente porque era algo tão completamente banal e pouco interessante. E ir de ônibus! Nenhum personagem de meus contos jamais andara de ônibus”.

O choque com a realidade põe o garoto tenso. Escrever se torna um fardo, uma briga consigo mesmo para revelar (ou encobrir) os detalhes mais comezinhos, mais sórdidos de sua vida. O menino, está claro, não é Tobias Wolff. Mas Tobias Wolff sabe que o leitor ficará sempre na dúvida: até onde o escritor é ou não é o protagonista de seu romance?

A leitura dos contos de “Our Story Begins” (Começa a Nossa História) nos remete ao mesmo ponto: suas personagens, situações e desfechos nos parecem fruto de uma experiência de fato vivida. Por isso, quando os lemos, ainda que sejam fictícios, inevitavelmente voltamos os olhos à vida do escritor, como talvez aconteça com a obra de qualquer outro autor que admiramos, perscrutando nela o seu cotidiano.

A obra de Tobias Wolff tem a capacidade de nos fazer identificá-la fortemente conosco, como se a tivéssemos vivido, ou como se pudéssemos vivê-la. Talvez por isso, entre outros motivos (dentre os quais a temática do cotidiano), ela seja denominada “realista”, agrupada tanto a categorias convencionais como “neo-realismo” e “realismo sujo” quanto a um divertido “hiperrealismo minimalista de trabalhadores braçais pós-alcoólatras”.

A obra de Wolff não se enquadra confortavelmente em categorias, mas podemos qualificá-la de um outro modo: seu realismo é também (embora discretamente) midiático. Em certos aspectos, o seu realismo faz um pouco como os reality shows, “editando” por conveniência sua matéria bruta.

Além disso, o escritor parece usar as memórias como instrumento de difusão e captação de interesse e, em última instância, de propaganda, já que enlaçar vida e obra é um modo eficaz de consegui-la. Wolff, porém, se entrega de forma tão obstinada à escrita que faz de seu “realismo midiático” muito mais que um instrumento de marketing: trata-se de uma componente literária particular de extrema riqueza, sobretudo quando trabalha os limites da exposição pública de emoções e situações privadas.

Essa atitude não se restringe à exposição da vida do escritor. Às vezes relaciona-se simplesmente à vida de seus personagens. Em “Our Story Begins”, os contos “Next Door” e “Hunters in the Snow” exploram essa dimensão.

“Next Door” conta a história de um casal que, de sua casa, escuta as brigas do casal vizinho, os gritos do bebê e o desespero do cão que apanha do dono. O casal ouvinte é tomado pela violência do casal vizinho, sente as dores do animal e da criança. Imaginam sua triste situação. Entretém-se como voyeurs –assim como nós, leitores, acabamos nos entretendo, intermediados por sua percepção. Uma cerca baixa, pintada de branco, “mais ornamental do que qualquer outra coisa”, separa as duas casas. O casal ouvinte se dá conta da disfunção, da inutilidade da cerca, e planta ao longo dela arbustos floridos. Embora a questão central desse conto não seja a “invisibilidade”, o modo lateral de tratá-la é o que lhe confere um misto de força e suavidade.

No conto “Hunters in the Snow” ocorre algo diferente, mais ligado aos recônditos humanos. São três amigos caçadores, trancados cada qual em si mesmo. A natureza de cada um deles muda com a presença ou ausência do outro. Assim, sentimentos represados se expõem. A neve domina a narrativa, atravessando a janela quebrada do veículo em que estão os três amigos. Eles decidem parar em uma fazenda.

Quando passam à frente de um celeiro, “um grande cão negro com o focinho grisalho corre e late para eles. A cada vez que late, desliza um pouco para trás, como um canhão que se recolhe após atirar. Kenny se põe de quatro, rosna e late de volta, e o cão retorna amedrontado para o celeiro, olhando por sobre o ombro e urinando um pouco enquanto volta.” A relação entre os caçadores mudará logo depois, nessa história que talvez seja uma das melhores em toda a obra de Wolff.

Outros contos de “Our Story Begins” sugerem frontal relação com a vida de Wolff, como se fossem episódios de suas memórias; sejam contos sobre a vida militar ou nos quais reconhecemos o escritor e seus familiares. Em “Firelight”, não há como não ver nas personagens centrais e sem nomes o verdadeiro menino Tobias e sua mãe, Rosemary. Ambos buscam uma casa para alugar e morar.

Na busca encontram uma família, que pouco corresponde à idéia de família como as de comercial de margarina. No entanto, ela tem algo que atrai o menino, enquanto a sua mãe, ao contrário, sente por ela repulsa. Em “The Liar”, novamente encontramos os êmulos de Tobias e sua mãe. Ela se chama Margaret e leva o filho, James, a um amigo psiquiatra, Murphy. A mãe e o psiquiatra conversam a sós sobre o menino:

“Estou certa de você ter dito que ele estava curado.”
“Nunca. O que você quer dizer com curar James?”
“Você sabe.”
“De todo modo me diga.”
“Trazê-lo de volta à realidade, o que mais seria?”
“À realidade de quem? Minha ou sua?”
“Murphy, sobre o que você está falando? James não é louco, ele é um mentiroso”
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A mentira, tema recorrente na obra de Wolff, é ainda mais constante em suas memórias; nelas o autor se assume como um mentiroso, o que reforça um paradoxo: não sabemos quando ele mente ou diz a verdade. Sua atitude não deveria nos perturbar, já que é inerente a qualquer obra de ficção. Contudo, Wolff a coloca no centro de seu trabalho, tornando sua ficção também realidade.

A epígrafe de “O Despertar de um Homem” é um aforismo de Oscar Wilde: “O primeiro dever na vida é assumir uma pose. O segundo ninguém descobriu ainda”. Até “Our Story Begins”, podemos dizer que Tobias Wolff cumpre muito bem pelo menos o primeiro dever, mantendo sua pose com uma franqueza desconcertante.


Publicado em 15/7/2008

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Alex Miyoshi
É arquiteto e professor, doutorando em história da arte no IFCH-Unicamp, onde faz pesquisas sobre arte e arquitetura dos séculos XIX e XX. Edita a "Revista de História da Arte e Arqueologia" na mesma instituição.

1 - O livros são: “In the Garden of the North American Martyrs” (Ecco, 1981), “Back in the World” (Houghton Mifflin, 1985) e “The Night in Question” (única coletânea publicada no Brasil, como “A Noite em Questão”, Rocco, 1997).


2 - "English Studies", vol. 31, "North American Short Stories and Short Fictions". Maney Publishing on behalf of Modern Humanities Research Association, 2001, págs.. 93-108.

 
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