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dossiê
A CONSTELAÇÃO ZANZIBAR

Aventuras de Michael Chapman
Por Carlos Adriano


Cena do filme "Acéphale" (Acéfalo)
Reprodução

O artista britânico, que também vive no Brasil, descreve o ambiente de vanguarda do final dos 60 e fala de seu encontro com Oiticica e Caetano

Curiosamente, um outro membro do grupo Zanzibar também vive no Brasil. O artista inglês Michael Chapman, que teve papel ativo como poeta performático no circuito Londres-Paris e participou do filme "Acéphale", hoje mora em Rio Grande, cidade do Rio Grande do Sul, onde dá aulas.

Na entrevista a seguir, Chapman relata sua experiência em "Acéphale" e fala também de sua participação no grupo de vanguarda Exploding Galaxy. Ele conta ainda a respeito de sua relação com os artistas Hélio Oiticica e Lygia Clark, o cineasta Derek Jarman, o diretor de teatro Gerald Thomas e o músico Caetano Veloso, num longo depoimento, que permite também compreender um pouco do espírito agitado do final dos anos 60.

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Quais suas memórias da experiência de trabalho e de convívio com os cineastas do grupo Zanzibar?

Michael Chapman: Acho interessante contextualizar minha participação no grupo de cineastas Zanzibar como parte de um conjunto de atividades e experiências vividas e desenvolvidas entre Londres e Paris, durante o período de 1967 a 1969.

O final dos anos 60 foi uma época bastante agitada, e não somente para mim. Uma parcela da juventude (não muito grande) estava revoltada, em processo de ebulição. O status quo da vida eram contestados e o espírito de inconformidade se internacionalizou.

Em 1967, eu escrevia e ensaiava poesias performáticas em Londres. O artista plástico filipino David Medalla conhecia meu trabalho e me convidou para integrar o núcleo da comunidade transmídia Exploding Galaxy. O grupo era formado por artistas e pessoas de diversas nacionalidades e áreas de atuação, que viviam e trabalhavam juntos na casa 99 da Balls Pond Road. Lá, desenvolvemos projetos para os quais talvez caiba a descrição de “investigação e ressignificação dos objetos e comportamentos sociais”.

O ritmo das nossas atividades não tinha sossego, noite e dia surgiam altas discussões, experimentos de vida e saídas coletivos, visando à exploração transmídia de múltiplos aspectos existenciais, seja em casa, nas ruas ou em fábricas abandonadas.

Os acontecimentos e o pensamento dos integrantes da Galaxy eram documentados e trabalhados em roteiros performáticos, ensaiados na rua ou apresentados em eventos durante viagens por diversos países de Europa. Às vezes montávamos espetáculos com a participação de grupos como Pink Floyd, Soft Machine e Crazy World of Arthur Brown (Bird Ballet, 1967).

Portanto, nosso estilo de vida e atividades na casa Galaxy não eram apreciados pelos vizinhos e houve ocasiões em que sofremos ataques físicos e verbais, bem como a invasão da casa pela polícia, incitada pelas notícias escandalosas veiculadas na imprensa nacional.

Houve semelhanças e influências mútuas entre os trabalhos desenvolvidos no Exploding Galaxy e as experiências e trabalhos dos amigos Hélio Oiticica e Lygia Clark. Para Oiticica, o Exploding Galaxy era o exemplo vivo do seu conceito de Crelazer. Em Paris, gostei de freqüentar o ateliê de Lygia Clark, que, aos amigos, me descrevia como “la force de la nature”.

O Exploding Galaxy integrava as mais diversas personalidades, como P-Orridge, precursor do movimento punk (Industrial Music), e cineastas, como Anthony Scott, de apelido Scotty, que produziu um filme ("The Longest Most Meaningless Movie in the World"), a partir de recortes descartados de filmes e clipes publicitários, com duração de 48 horas, e Derek Jarman, pintor e diretor de cinema ("Jubilee", "Caravaggio").

Tornei-me também amigo do cineasta americano Peter Goldman ("The Wheel of Ashes"), que me informou ter descoberto o talento de Pierre Clementi e ter sido o primeiro diretor a trabalhar com ele. Fiquei um inverno na fazenda dele na Dinamarca.

Outra pessoa que participou de nossas atividades foi o dramaturgo Gerald Thomas, então um rapaz de 17 anos, que se casou com Jill Drower, outra integrante do nosso grupo. Eu o conheci na casa de exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, e lembro bem quando ele tentou me convencer que estes músicos eram tão famosos no Brasil como os Beatles mundo afora. Quem diria... Um dia Caetano me pediu para corrigir a letra da canção "London, London".

Além das minhas atividades como integrante do grupo Exploding Galaxy, em Londres, visitava Paris com freqüência, entre 1967 a 1969. Lembro de ter ajudado David Medalla a montar seu objeto/máquina "Cloud Canyons", numa grande exibição de arte cinética.

Na época, Paris era um centro de atividade artística e, às vezes, eu passava dias inteiros vagando pela cidade com cadernos, canetas e um gravador portátil, inventando poemas e "cutups" que apresentei espontaneamente na rua, em cafés e ocasionalmente em sessões de poesia e música no Centre Américain, no boulevard Raspail. Um dia, o artista plástico Sérgio Camargo me convidou a ler meus poemas (bastante performáticos) na hora do almoço, no seu apartamento em Paris.

De vez em quando, David Allen me convidava a ler meus poemas junto com o grupo de rock britânico Soft Machine, e em 1967 acompanhei a banda numa viagem ao Sul da França, onde participamos da peça de teatro "Le Desir Attrapé par la Queue, junto com Taylor Mead e Ultraviolet (artistas que trabalhavam nos filmes de Andy Warhol). O roteiro original foi escrito por Pablo Picasso e montado por Jean-Jacques Lebel. Em seguida, a peça foi proibida.

Minha conexão com os cineastas do Zanzibar se estabeleceu por via do meu relacionamento com Eve Ridoux, que conheci na casa do Galaxy, em 1967. Ela veio da França junto com Christian Ledoux. Mais velha do que eu, Eve trabalhou ocasionalmente como modelo de moda. Chegou a aparecer na capa de uma revista de moda francesa. Uma vez, ela me informou que recebera um convite para trabalhar num filme de Jean-Luc Godard.

Eve era uma mulher muito bonita, de personalidade forte, e nós vivemos juntos por dois anos. Durante um período, moramos em Paris, na casa do seu pai, um empresário francês que também ajudou financiar o Partido Comunista. Ele era amigo da secretária de Roger Vadim, que às vezes vinha jantar conosco.

Ocasionalmente, Eve trabalhou como assistente de Nikki de Saint-Phalle (artista plástica e cineasta francesa, casada com o romancista americano Harry Mathews), e nós éramos amigos da sua filha Laura Mathews (que, sob o nome de Laura Duke Condominas, pois se casou com outro integrante de Zanzibar, o modelo e fotógrafo Laurent Condominas, fez o papel de Guinevère no filme "Lancelot du Lac", de Robert Bresson, 1974).

Foi Eve Ridoux que me apresentou ao grupo de Zanzibar. Inicialmente sabia muito pouco sobre os filmes produzidos pelos cineastas, mas lembro bem a aura associada à pessoa e à produção de Philippe Garrel, que foi uma das figuras fundamentais do grupo. Eu já sabia que Eve havia tido uma relação amorosa com Patrick Deval, porém ele não parecia se importar com a situação.

Ao fazer "Acéphale", havia consenso de que as pessoas envolvidas nas filmagens seriam ouvidas a respeito da elaboração do roteiro e conteúdos, como direito e forma democrática de agir, que se estendeu ao papel do operador de câmera Michel Fournier, cuja técnica e olhar eram muito elogiados e respeitados.

A atmosfera durante as filmagens foi irreal e enlouquecida. Eu consigo recordar alucinantes viagens de carro pelas ruas de Paris para alugar equipamentos e câmeras, processar trechos das filmagens e comparar a metragem filmada. Havia muitas reuniões no enorme bar do La Coupole, lugar de encontro de artistas, no bairro Montparnasse. Os filmes do grupo Zanzibar eram vistos na calada da noite, em sessões realizadas na Cinemateca Francesa por seu dissidente diretor, Henri Langlois.

Houve uma época pós-Maio de 68 em que diversos integrantes do Zanzibar foram viajar a Positano, um vilarejo antigo situado nas montanhas íngremes da costa italiana, perto de Nápoles. Eu e Eve ficamos numa casa pequena e muito antiga de estilo árabe. Apesar do isolamento geográfico do lugar, o movimento de pessoas ilustres nos restaurantes e bares perto do mar era grande, e a constelação de pessoas associadas ao grupo Zanzibar desfilava com estilo.

Outro momento engraçado foi no La Coupole, em Paris, quando Viva Superstar chegou e mostrou, para todos e ninguém, suas centenas de retratos 3x4, que tirou numa cabine de fotos.


Como se deu sua participação, especificamente, no filme de Patrick Deval, "Acéphale"?

Chapman: Participei em diversas situações e cenas durante a filmagem de "Acéphale": recitei um poema de Hölderlin em alemão, sem conhecimento da língua, num tom de voz parecido com um par de tesouras cortando papelão; fiz uma cena do filme junto com Eve Ridoux no quarto do apartamento de Sylvina Boissonas, no bairro de Pigalle; e uma das cenas de "Acéphale" foi desenvolvida a partir de uma idéia minha.

Uma das atividades importantes do Exploding Galaxy foi a investigação de materiais descartados, seja nas ruas ou em prédios abandonados. Estes materiais eram analisados e a eles atribuídos funções e significados novos.

Durante uma saída de exploração transmídia nas ruas de Paris, achei uns fardos de seda sintética que brilhavam no sol. Criamos um casulo grande a partir do ato de tecer a seda em volta do meu corpo. O objeto foi pendurado no alto de uma árvore na floresta de Fontainebleau. Lá dentro do casulo, cantei uma música de estilo chinês em voz de falsete. Na versão final, a canção foi editada e substituída pelo som de abelhas.

Eu me lembro de que não concordei com uma cena do filme em que uma galinha era decapitada viva, por meio da mordida de um dos atores.


Essa experiência com o Zanzibar deixou marcas em seu trabalho e em sua vida?

Chapman: A década de 60 como um todo foi um experiência precária e, no mínimo, traumática. Vejo agora que meu pensamento e a história são enraizados nos acontecimentos e vivências da época. A última vez que assisti a "Acéphale" foi há 40 anos. Gostaria de vê-lo novamente. Há poucas semanas, Sally Shafto e Patrick Deval me ligaram de Paris. O meu maior anseio foi o de saber mais sobre a história de vida das pessoas que conheci na época.


Sally Shafto me disse, numa entrevista, que você e Cyrille Verdeaux eram e permanecem grandes viajantes. O que tem a dizer sobre isso?

Chapman: Esta frase de Sally Shafto me deixa com dúvidas e suposições. Excluindo a conversa por telefone com Deval, não tive nenhum contato com as pessoas que conhecia na época de Zanzibar, há 40 anos. Sei que, nos entretempos, fiz muitas coisas, mudei de país e de vida ao sabor do vento. Eu não me conformo com a dualidade da vida e a morte e não vou querer viver sob a tutela das leis e das palavras. Assim, é possível pensar: “Eu morri! Estou morto. Porém, um dia vou nascer, vou viver”.


Quando, como e por que veio parar no Brasil?

Chapman: Cheguei pela primeira vez no Brasil em 1981. Estudei artes visuais na Hochschule der Künste, em Berlim. Estudei junto com os artistas que formavam o movimento de arte conhecido posteriormente como o neo-expressionismo alemão (Salomé, Middendorf, Fetting, entre outros). Fui assistente do artista plástico norte-americano Edward Kienholz ("Barneys Beanery") e da artista plástica Dorothy Ianonne (do movimento Fluxus).

Lá, conheci a recém-formada artista plástica brasileira Karin Lambrecht (sala especial na XXVª Bienal de São Paulo), que veio a ser minha companheira durante sete anos. Tivemos uma filha, Yole, agora com 25 anos, que vive em Londres e trabalhou no musical "O Fantasma da Ópera". Após terminar meus estudos, vim me radicar em Porto Alegre.

Gosto muito da liberdade de movimento e expressão no Brasil e sou fascinado pela natureza. Para sobreviver, ministrava oficinas de pintura, além vender meus quadros nas galerias Thomas Cohn, no Rio de Janeiro, e Tina Zapolli, em Porto Alegre. Em 1989, fiz concurso e entrei como professor no curso de artes visuais da FURG (Fundação Universidade Federal do Rio Grande). Em 2003, tornei-me doutor na área de mídia e conhecimento, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).


Quais seus atuais ou futuros projetos?

Chapman: Trabalho teoricamente com a problemática dos processos históricos de criação ligados a fenômenos da percepção humana e ao compartilhamento de estratégias vinculadas à construção do objeto em artes e nas ciências exatas. Trabalho também na organização internacional Insyde, voltada à pesquisa e à divulgação de trabalhos interdisciplinares sobre sistemas de ensino e aprendizagem.

Nas artes visuais, desenvolvo pôsteres infográficos como forma de dialogar em situações de conflito estético, ideológico e lingüístico, o que já trabalhávamos no Exploding Galaxy, exemplificadas nas declarações “Não existem dois elefantes iguais”, “Eu sou Não Sou” e “Meu nome é Sem Nome”.

 
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