2

Shafto: É difícil argumentar que os filmes Zanzibar estão unificados por assuntos semelhantes. O que eu discuto em meu livro é que os filmes todos demonstram uma tentativa de ir além das estratégias narrativas tradicionais. Em geral, esses filmes não têm os tradicionais começos, meios e fins. Seguindo o exemplo de Godard, são filmes feitos sem um roteiro convencional. Nos poucos que tinham, como "La Concentration" e "Le Lit de la Vierge", de Garrel, o roteiro era absolutamente mínimo, consistia em cerca de sete páginas com fragmentos de diálogo.

Essa rejeição de roteiro e narração lógica está também refletida no modo de tratar a montagem nestes filmes. Embora uma montadora profissional (Jackie Raynal) participasse do movimento, em geral esses são filmes com uma montagem mínima ou que não tinham sequer uma montagem. François Colin, montadora de "Le Lit de la Vierge", contou-me que ela não tinha muito trabalho a fazer no filme, porque Garrel queria que ela simplesmente deixasse suas tomadas do princípio ao fim.

A maioria dos filmes era em preto e branco, com a exceção de "La Concentration", de Garrel, e do filme da própria Sylvina Boissonnas, "Un Film". É interessante notar que a cor nestes dois filmes beira o monocromático. Estilisticamente, muitos destes filmes também compartilham uma predileção pelas tomadas panorâmicas em 360 graus.

E são "grandes" filmes? Eu acho que alguns deles são. Mas eu argumento em meu livro que seu valor último possa ser menos o de obras-primas atemporais do que de vestígios esquecidos de uma era passada, Maio de 68, que continua a nos influenciar hoje.


Esses filmes alcançaram algum canal de exibição ou distribuição?

Shafto: Após sua produção, os filmes Zanzibar eram ocasionalmente mostrados por Henri Langlois na Cinemateca Francesa, em Paris. Como regra geral, porém, a maioria destes filmes desapareceu completamente por muitos anos, em parte porque muitos de seus autores viajaram para os quatro cantos da terra. Naquela época, eles não estavam particularmente interessados em exibir seus filmes.


Por que estes filmes ficaram fora de circulação por tanto tempo? Como você articulou o processo de recuperação com seu projeto de pesquisa?

Shafto: Eles permaneceram inacessíveis pelas razões mencionadas. Vários deles foram mostrados 20 ou 25 anos depois no Festival de Hyères. Eu primeiro comecei a pesquisar estes filmes em 1999, a pedido de Nicole Brenez e Christian Lebrat, da Cinemateca Francesa. Eles estavam organizando uma importante retrospectiva do cinema de vanguarda francês e queriam incluir um capítulo sobre os filmes Zanzibar. Naquela época, eu vivia em Paris, terminando a pesquisa de minha tese sobre Godard.


Em que sentido o movimento Zanzibar difere de dois outros movimentos contemporâneos: a Nouvelle Vague e o underground americano?

Shafto: Os cineastas do Zanzibar são essencialmente uma década mais jovens do que os cineastas da Nouvelle Vague. Estes diretores começaram a fazer filmes com cerca de 30 anos, e aqueles já em seus 20. Os cineastas da Nouvelle Vague passaram quase uma década preparando sua entrada no establishment cinematográfico; os cineastas do Zanzibar estavam com mais pressa e, sem dúvida graças aos avanços da geração anterior, puderam fazer filmes mais cedo.

Os cineastas Zanzibar estavam também muito informados do que certos membros do underground americano estavam fazendo. Andy Warhol já havia exibido suas pinturas e alguns de seus filmes em Paris em 1968, e sua influência era enorme. Além disso, Caroline de Bendern e Olivier Mosset tinham passado um tempo na Factory de Warhol, em 1967.


A contribuição do cinema Zanzibar permaneceu ou influenciou algo do cinema corrente? Qual é o seu legado?

Shafto: Para mim, é difícil avaliar qual é o legado exato dos filmes Zanzibar. O que é certo, entretanto, é que tem existido um enorme interesse por estes filmes e por seus cineastas desde que os filmes foram redescobertos.


Houve outras iniciativas no mundo, ou mesmo na história do cinema francês, parecidas com essa do Zanzibar, um curto e explosivo movimento de cinema inovador, financiado por pessoas ricas?

Shafto: A única coisa comparável que eu conheço no cinema francês seria a atividade do conde e da condessa de Noailles, nos anos de 1930. O exemplo da condessa Marie-Laure de Noailles (1902-1970) deve certamente ter sido do conhecimento dos cineastas Zanzibar, e, de fato, Pierre Clementi foi amigo pessoal da condessa de Noailles. A condessa e seu marido foram patronos das artes extremamente influentes, financiando artistas como Buñuel e Dali ("L'Age d'Or"), Cocteau ("Le Sang d'un Poète"), Man Ray ("Les Mystères du Château du Dé") e outros.


Você já ouviu falar da produtora brasileira Belair? Foi fundada pelos cineastas Julio Bressane e Rogério Sganzerla e pela atriz Helena Ignez (nomes seminais do cinema dito underground brasileiro), parcialmente com dinheiro recebido como herança de suas famílias, e durante cerca de três meses, no começo dos anos 1970, produziu sete longas metragens radicalmente experimentais (quatro filmes em 35mm, dois em 16mm e um em super-8mm).

Sally Shafto: Não, eu não conheço a produtora brasileira Belair. Mas o projeto certamente soa similar, embora de algum modo menor e mais curto àquele de Sylvina Boissonnas e dos cineastas Zanzibar.

Casualmente, duas pessoas que estavam na periferia dos filmes Zanzibar, o músico Cyril Verdeaux e o artista Michael Chapman, vivem hoje no Brasil. Verdeaux fez a música para o filme de Pierre Clementi, "Visa Censure X", e Chapman participou da feitura do filme de Patrick Deval, "Acéphale". Estas pessoas eram e permanecem grandes viajantes.



link-se

O livro "Les Films Zanzibar et les Dandys de Mai 68", de Sally Shafto. pode ser adquirido via http://www.alapage.com/-/Fiche/Livres/9782912539335/LIV/zanzibar-sally-shafto.htm?


Publicado em 5/7/2008

.

Carlos Adriano
É cineasta e doutorando na USP. Todos os seus filmes foram apresentados no 56º Festival de Locarno (seção
"Cineastas do Presente") e no 16º Videobrasil (sala no eixo curatorial "Cinema Vídeo Arte"). Realizou "Remanescências" (coleção New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival) e "Militância" (exibido no MoMA, Nova York). Teve roteiros premiados por Petrobras, Ministério da Cultura e Bolsa Vitae. Com Bernardo Vorobow é autor do livro "Peter Kubelka: A Essência do Cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 
2