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dossiê
A CONSTELAÇÃO ZANZIBAR

Dândis de Maio 68
Por Carlos Adriano


Cena do filme "Vite" (Rápido)
Reprodução

A pesquisadora americana Sally Shafto resgata em livro o grupo Zanzibar, um dos mais radicais do cinema nos anos 60, patrocinado pela herdeira milionária hippie Sylvina Boissonnas e ao qual pertenceu o diretor Philippe Garrel

Em 1999, a crítica e historiadora de cinema Sally Shafto começou as escavações em torno de um artefato mítico e pouco conhecido da cinematografia francesa. No ano passado, ela publicou um excelente livro sobre o resgate. O objeto até então obscuro chama-se cinema Zanzibar, uma dúzia de filmes produzidos em 35mm pela jovem herdeira e hippie Sylvina Boissonnas entre 1968 e 1970. Com alguns filmes perdidos, sem registro e outros não claramente rotulados, o número pode variar de 13 a 20 títulos.

Filmes “clandestinos” como "Le Lit de la Vierge" e "La Concentration" (de Philippe Garrel), "Détruisez-vous", "Fun and Games for Everyone", "Ici et Maintenant" (de Serge Bard), "Vite" (de Daniel Pommereul), "Acéphale" (de Patrick Deval), "Deux Fois" (de Jackie Raynal) e "Un Film" (da própria Boissonnas), eles tinham a ambição juvenil e sincera de mudar o cinema francês. Seus diretores ignoraram os requisitos corporativos da lei e filmaram sem a autorização do Centro Nacional da Cinematografia (a agência estatal francesa).

Nascida em Lenox (Massachusetts, EUA), Shafto é uma rigorosa "scholar" independente do cinema que vive em Paris. Em seu livro "Os Filmes Zanzibar e os Dândis de Maio de 68" ("Zanzibar: Les Films Zanzibar et les Dandys de Mai 68" / "The Zanzibar Films and the Dandies of May 1968", edição bilíngüe, 256 págs., 30 euros), ela analisa a produção desse movimento subterrâneo e hedonista, cotejando os filmes com o momento histórico, entrevistando os envolvidos e fazendo uma radiografa da participação.

Esses filmes não são normalmente mencionados nos estudos históricos sobre o Maio de 68, e tal inserção é um dos méritos da pesquisa de Shafto. A produção Zanzibar é um reflexo das inquietações dos estudantes franceses em paralelo com o espírito do movimento quase simultâneo ocorrido nos Estados Unidos. E é uma exposição, por vezes saturada, por vezes velada, do aspecto vivencial de uma política do desejo, da viagem (e sua ressaca) clivada no ano-chave de 1968.

Em sua introdução, a autora aposta na hipótese de que a escassez de filmes de ficção que tratam de Maio de 68 é conseqüência da natureza inconclusa do evento, que não se prestava à codificação da narrativa fílmica convencional. A dança da rubrica Zanzibar era afinada a um dos lemas mais estampados nos muros e um dos mais altos estampidos daquele ruidoso mês parisiense: “É proibido proibir”.

Maio de 68 sacudiu também a política do cinema. A demissão de Henri Langlois da Cinemateca Francesa gerou uma ação liderada por Godard, Rivette e Truffaut que culminou com o cancelamento do Festival de Cannes e a instalação dos Estados Gerais do Cinema, que propunham uma revitalização da indústria correlata à revolução social. Philippe Garrel é o único diretor que participou do grupo Zanzibar e ainda faz filmes regularmente (apesar de seu estilo errático e, de certo modo, à margem). "Les Amants Réguliers" (2005) não deixa de ser um balanço ambíguo, irônico e amargo, daquela aventura (artística e política) gorada, regada a drogas e temperada de minimalismo.

A visão ideológica do grupo era radical, mas não militante, como a de Godard e seu grupo Dziga Vertov. Zanzibar cultuava um sensualismo estético na face dos atores e no look dos filmes, no que Shafto chama de “sensibilidade dandificada”. Não era coincidência o fato de que vários dos membros do grupo eram modelos de moda.

O que Shafto chamou de “constelação Zanzibar” apropriou-se do nome do arquipélago africano (na Tanzânia), que seria “um talismã para os jovens” da época por ser “não apenas uma encruzilhada entre as culturas do Ocidente e do Oriente, mas também uma ilha maoísta”, conta a autora em seu livro.

Sylvina Boissonnas financiou uma viagem de Serge Bard durante 16 meses pela África, que nunca chegou a um destino mais preciso, ao menos em termos de projeto artístico e de meta geográfica. Em dezembro de 1969, em Argel, Bard anunciou que renunciaria à produção de imagens em movimento e que acabara de se converter ao islã. Chamando-se Abdullah Siradj, abandonou o cinema e dividiu seu tempo entre Paris e Meca.

A estrela da constelação é mesmo Boissonnas, que reconfigurou a idéia de mecenas da vanguarda. Ela era filha de Sylvie Boissonnas, patrona do Centre Georges Pompidou e sobrinha de Dominique de Menil, que emigrou para os Estados Unidos em 1941 e se tornou uma das maiores mecenas do país. Leitora de Guy Debord, a rica e generosa herdeira, “mulher incrivelmente alta, curiosa e excêntrica” (segundo Jackie Raynal), selecionava quem financiar baseada na impressão de aparência nela despertada.

Não exigia prestação de contas, dilapidando a fortuna familiar sob o figurino descolado da revolução e estimulando talentos neófitos, seguindo a lição de Joseph Beuys. Como Shafto escreveu em ensaio publicado na revista "Artforum" de maio último: “Seria difícil hoje enfatizar demais o radicalismo esquisito da investida de Boissonnas. Tomando por corte o restaurante La Coupole, ela simplesmente assinava cheques para virtualmente qualquer um que lhe fizesse uma petição com uma idéia”.

Outros nomes que orbitavam ao redor do grupo (mais solto do que coeso), e estrelaram seus filmes, foram Laurent Terzieff (ator de Marcel Carné, Orson Welles, Pier Paolo Pasolini e Luis Buñuel), Bernadette Lafont (atriz-lenda da Nouvelle Vague), Juliet Berto (fetiche da fase engajada de Godard) e Pierre Clementi (ator de Buñuel e Pasolini).

Mais próximo do núcleo, estavam Zouzou (heroína da cena parisiense dos anos 60, ex-modelo de Yves Saint Laurent, night-clubber e atriz), Tina Aumont (filha da atriz Maria Montez), Patrick Deval (fundador, com Serge Daney, da revista "Visage du Cinéma"), Olivier Mosset (pintor ativista do grupo BMPT), Jackie Raynal (montadora dos filmes de Rohmer), Frédéric Pardo (artista do super-8mm), Daniel Pommereule (artista duchampiano e ator de Rohmer) e Caroline de Bendern. Todos pareciam estar igualmente à vontade tanto na capa da revista "Vogue" como nas barricadas de Paris.

Musa de Bard, a modelo fashion inglesa Caroline de Bendern confessou a Shafto que não sabia direito contra o que protestava. Tataraneta do Marquês de Queensbery (responsável pela condenação de Oscar Wilde à prisão), ela chegou a achar que sua célebre fotografia, tirada por Jean-Pierre Rey –ela gritando numa manifestação, carregada nos ombros do amigo Jean-Jacques Lebel, segurando uma bandeira do Vietnã e com o punho erguido– seria um "upgrade" no portfólio. Mas a imagem de civil desobediência chique fechou-lhe as portas e ela foi deserdada da herança do avô.

O curioso continente Zanzibar, fartamente documentado em "Les Films Zanzibar et les Dandys de Mai 68", é mapeado na entrevista a seguir com Shafto, doutora em estudos do cinema pela Universidade de Iowa e mestre em história da arte pela Universidade de Columbia.

Tradutora dos "Cahiers du Cinéma", foi professora da Universidade do Sul de Illinois, e lecionou no Instituto Internacional da Imagem e do Som em Trappes (França) e na Universidade de Nova York. Foi diretora do Big Muddy Film Festival e diretora assistente do Festival de Cinema de Avignon.

Com a clareza e a erudição com que constrói seu livro, Shafto apresenta ao público brasileiro a fascinante aventura do grupo Zanzibar. Descreve a formação e o funcionamento dos “modos de produção”, contextualiza a ação no quadro histórico, define as principais características estéticas e analisa a validade de permanência da proposta.

A pauta (no senso jornalístico, mas também como arremate artístico e notação de programa) se completa com duas outras entrevistas. O músico francês Cyrille Verdeaux esteve próximo do grupo e compôs a música do filme "Visa Censure X". Atualmente, ele mora em Brasília. O artista britânico Michael Chapman chegou a Paris no verão de 68 e participou do filme "Acéphale". Ele também trocou a França pelo Brasil e mora em Rio Grande (RS).

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Qual era o background social e cultural das pessoas que vieram a formar o grupo Zanzibar? Como se juntaram? Qual foi o papel de Sylvina Boissonnas e suas motivações?

Sally Shafto: As jovens pessoas que participaram como cineastas do momento Zanzibar entre 1968 e 1970 vieram das classes média e média-alta francesas. Como indico em meu livro sobre estes filmes, houve basicamente três grupos distintos que, no entanto, se sobrepuseram.

O primeiro foi o grupo formado ao redor de Serge Bard, um ex-estudante de sociologia na Universidade de Nanterre, incubadora dos levantes de Maio de 68. Ele não era particularmente um cinéfilo, mas tinha um interesse em artes. Seu melhor amigo àquela época era o ativo pintor Olivier Mosset, integrante do revolucionário grupo de pintores BMPT (sigla para os nomes de Buren, Mosset, Parmentier e Toroni).

Foi por meio de Olivier Mosset que Sylvina Boissonnas, uma jovem herdeira francesa, conheceu Serge Bard. O irmão de Sylvina, Jacques, financiou o primeiro filme de Bard, "Détruisez-vous", cujo título vem de um slogan de Maio de 68. Em meu livro, argumento que este filme representa um encontro de Andy Warhol e Jean-Luc Godard. Graças a Sylvina, Bard fez ainda dois outros filmes: "Ici et Maintenant" e "Fun and Games for Everyone".

Na primavera de 1969, Serge Bard partiu para a África, rumo a Zanzibar, com cerca de 15 pessoas e muito equipamento. Ele foi filmar na África com o financiamento de Sylvina Boissonnas. Nove meses depois, entretanto, Bard abandonou sua missão cinematográfica, porque ele se converteu ao islã.

Nesta viagem, estavam com ele Daniel Pommereulle, Caroline de Bendern e Barney Wilen. Pommereulle era um artista que, cada vez mais, foi se interessando por cinema. Em meados dos anos 60, ele fez um curta chamado "One More Time" e também atuou em vários filmes, incluindo "Weekend", de Godard. Graças ao apoio de Sylvina, Pommereulle filmou outro curta, "Vite", rodado no norte da África e na França.

Ao retornar à França em 1970, Caroline de Bendern, musa de Serge Bard, e o músico de jazz Barney Wilen aproximaram-se de Sylvina Boissonnas para que ela produzisse um novo disco de jazz dele, inspirado pelos sons que haviam gravado na África. Boissonnas não estava aparentemente interessada, mas Wilen finalmente trouxe à luz um álbum refletindo a viagem à África. Sob o título "Moshi", o disco é um clássico cult entre os aficionados por jazz. Caroline de Bendern, namorada de Wilen na época, participou extensamente do disco, nos vocais e no design gráfico.

O segundo grupo que Sylvina Boissonnas financiou gravitava ao redor do membro mais jovem, Philippe Garrel, que estava com apenas 20 anos em abril de 1968. Sylvina conheceu Garrel após ele ter terminado a filmagem de "Le Révélateur".

Ele não tinha dinheiro suficiente para finalizar o filme e foi o crítico de arte e escritor Alain Jouffroy quem o apresentou a Sylvina. Graças à ajuda de Boissonnas, Garrel filmou "La Concentration", com Zouzou e Jean-Pierre Léaud, e "Le Lit de la Vierge", com Zouzou e Pierre Clémenti. Boissonnas também financiou parcialmente "La Cicatrice Intérieure", com o próprio Garrel, Nico e Pierre Clémenti.

O terceiro grupo foi aquele de Patrick Deval e Jackie Raynal, que formavam um casal à época. Graças a Sylvina, Deval fez dois filmes: "Acéphale", rodado no verão de 1968, e, no outono, "Acéphale bis", que se perdeu. Raynal era então uma montadora profissional (ela trabalhava regularmente com Eric Rohmer), e Boissonnas encorajou-a a parar de montar filmes de outros e a fazer ela mesma seus próprios filmes.

Assim, Sylvina Boissonnas expressava sua solidariedade a uma idéia popular da época, de que todos são criativos, se têm a chance de se expressar por si mesmos. Com o apoio de Sylvina, Raynal fez um filme chamado "Deux Fois", rodado em Barcelona e arredores.

Sylvina Boissonnas teve tanto a audácia como os meios financeiros de produzir não somente pessoas que tinham feito filmes antes (Garrel e Deval), mas também um completo neófito (Serge Bard) e técnicos (além de Raynal, Boissonnas produziu o filme "L'Homographe", de Michel Fournier, operador de câmera de Garrel, e ajudou na finalização do filme de outro operador de câmera, Claude Martin).

Claramente, Sylvina Boissonnas parece ter sido, ao menos parcialmente, motivada por um desejo de revirar a hierarquia tradicional do sistema de quem consegue fazer arte. Além dos filmes que ela registrou sob a marca Zanzibar Produções, Boissonnas financiou, naquele tempo, inúmeros outros projetos, a maioria dos quais ficou sem registro. Durante minha pesquisa, soube que muitas pessoas que se beneficiaram da dádiva de Boissonnas tiraram proveito de sua generosidade.


Como você descreveria os principais assuntos e estratégias estéticas dos filmes do grupo Zanzibar?

 
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