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Assim, a força metafísica da revolução em curso irmana, numa só missão, crítico e criticado, ao passo que a própria crítica mergulha na história como promotora do futuro. Nada de neutralidade axiológica! O crítico é um moralizador da história, parteiro da revolução, tendo deixado para trás aquele ponto de vista externo, pretensamente neutro, de que se nutrem os jornais que não querem criar problemas para si a partir de opiniões extremadas ou divergentes.

O crítico é quem aposta e se arrisca, descendo ao chão da história para travar os combates em curso; não o observador do vôo do pássaro de Minerva ao entardecer. Dessa perspectiva, sequer se pode dizer que seja um traidor do leitor, a quem os jornais pensam melhor servir oferecendo uma descrição neutra: “O leitor deve analisar o nível de sintonia que tem com o crítico. Sintonia que pode ser maior ou menor e que é determinada por vários fatores... Cada pessoa é um universo. Um mundo que pode coincidir mais ou menos com um crítico determinado. A mim me fascina a cozinha de vanguarda, se a você não agrada não tenho porque ser o seu crítico favorito”.

Mas uma coisa é certa: não se pode compreender Adrià sem Rafael, nem Rafael sem Adrià. São como uma só pessoa em planos distintos. Como foram, no passado, a culinária de Escoffier e a crítica do gastrônomo que se assinava Curnonsky.

Numa época de tanta mornidão crítica, em qualquer domínio da cultura, não deixa de ser estimulante topar com um baixinho invocado que veio de longe, nos chamando para a briga, bailando em seu tênis furta-cor.


Publicado em 15/6/2008

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros. Acaba de publicar "Estrelas no Céu da Boca - Escritos Sobre Culinária e Gastronomia" (ed. Senac).

 
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